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domingo, 10 de maio de 2026

LEITURAS MARGINAIS

EM HOMENAGEM A FRANCESCA ALBANESE
Yanis Varoufakis. Trad. O’Lima.

[Excerto de um discurso proferido em Atenas no domingo, 3 de maio de 2026]


Há uma pergunta que me assalta nas primeiras horas da madrugada, quando o sono não chega e a mente remói velhos assuntos. A pergunta é esta: «O que teria eu feito na década de 1930, na manhã seguinte à Kristallnacht?» Não o que digo que teria feito. Não o que espero que tivesse feito. Mas o que teria eu realmente feito — quando os comboios começaram a circular, quando os vizinhos ficaram em silêncio, quando o preço da decência passou a ser a perda de tudo? A maioria de nós, penso eu, teria feito pouco. Não por malícia. Por medo. Pela convicção suave e insidiosa de que alguém falaria, de que a situação é complexa, de que temos de ser «razoáveis».

Para que não nos esqueçamos, o comum é o álibi do extraordinário. E como nos agarrámos a esse álibi! Como ainda nos agarramos a ele! E então, de vez em quando, surge alguém que não se agarra. Alguém que dá um passo em frente quando os outros recuam. Alguém que diz o nome da coisa quando todos os outros estão ocupados a nomear outra coisa. Francesca Albanese é essa pessoa. Ela ergue-se perante o mundo — sozinha, desarmada, armada apenas com a lei, a linguagem e uma coragem rara — e diz o que os centristas não dizem, o que os ministérios dos Negócios Estrangeiros não dizem, o que os conselhos editoriais não dizem.

Ela diz: «Isto é um genocídio. E estamos a assistir a tudo.» Não me digam que isso é exagero. Não me digam que o termo é contestado. Ela não o utilizou de ânimo leve. Utilizou-o da mesma forma que um médico chega cientificamente a um diagnóstico — não para ferir, mas para alertar. Não para inflamar, mas para nomear. E por isso, vieram atrás dela. Oh, como vieram atrás dela. Calúnias. Investigações. Editoriais maliciosos. Contas bancárias congeladas. Desapropriação do único apartamento que alguma vez possuíra. A máquina dos respeitáveis voltou-se contra ela para a esmagar. Porque os respeitáveis não suportam o que ela representa: um espelho que lhes mostra a sua cumplicidade.

Voltemos, mais uma vez, à década de 1930. De volta aos poucos que se levantaram quando os comboios começaram a circular carregados de judeus. Havia Aristides de Sousa Mendes, um cônsul português em Bordéus. Ele desafiou o seu próprio governo. Assinou milhares de vistos, à mão, durante horas, até os dedos sangrarem. Salvou mais vidas do que Schindler. E morreu sem um tostão, desonrado, apagado. Havia um oficial alemão em Varsóvia chamado Wilm Hosenfeld. Ele escondeu um pianista judeu nos escombros. Não salvou milhares. Salvou um. Mas esse único — Władysław Szpilman — guardou a memória. E a memória é «o único refúgio do qual não podemos ser expulsos». Havia Raoul Wallenberg. Havia os aldeões de Le Chambon. Havia os anónimos, os silenciosos, os poucos furiosos que diziam: «Não enquanto eu estiver aqui.»

Francesca Albanese é a sua herdeira. Não porque ande armada. Não porque esconda refugiados na sua cave. Mas porque faz algo igualmente perigoso num mundo que aperfeiçoou a arte de não ver. Ela vê. E fala. Não fala como uma diplomata. Ainda bem que não! Os diplomatas deram-nos a linguagem do «há argumentos de ambos os lados», da «moderação» e da «proporcionalidade». A linguagem diplomática é o túmulo perfumado da clareza moral. Não, ela fala como jurista. Como ser humano. Como uma mulher que olhou para o abismo e se recusou a chamá-lo de «paisagem geopolítica complexa».

Edna O’Brien descreveu uma vez uma personagem que «tinha a imprudência daqueles que já perderam tudo o que valia a pena perder». Francesca Albanese não perdeu tudo. Ela tem a sua dignidade, o seu cargo, a sua voz, a sua família. Mas calculou o custo de dizer a verdade ao poder. E decidiu que esse custo é infinitamente menor do que o custo do silêncio.

Qual é esse custo? Vamos nomeá-lo. Ela foi chamada de antissemita — ela, que se baseia no direito internacional forjado nas cinzas de Auschwitz e nas chamas de Nuremberga. Ela foi chamada de teórica da conspiração — ela, que cita todas as fontes, todas as notas de rodapé, todas as resoluções da ONU. Ela foi chamada de ingénua — ela, que compreende melhor do que a maioria a maquinaria da realpolitik.

Estas acusações não são argumentos. São a saliva dos que se sentem ameaçados. Porque Francesca Albanese ameaça algo muito precioso para os poderosos: o direito de cometer atrocidades sem ser identificado.

Amigos, os anos 30 não chegaram com botas militares e pogroms logo no primeiro dia. Chegaram aos poucos. Com restrições «razoáveis». Com medidas «proporcionais». Com o silêncio dos respeitáveis. Dizemos a nós próprios que teríamos sido diferentes. Que teríamos sido Sousa Mendes. Que teríamos sido Wallenberg. Mas a maioria de nós, receio, teria sido os vizinhos que mais tarde disseram: «Eu não sabia.»

Francesca Albanese sabe. E recusa-se a fingir o contrário. Por isso, louvemo-la. Não com estátuas ou prémios que ela não procura. Mas com algo mais difícil: com a nossa própria recusa em desviar o olhar. Com as nossas próprias vozes, erguidas em lugares que são seguros para nós, mas perigosos para ela. Com os nossos próprios corpos, se for preciso. Uma mulher corajosa, que ficou ferida durante uma manifestação à porta de uma base militar nuclear dos EUA em 1982, a infame Greenham Common, disse-me que «o coração é um caçador daquilo que não pode ter». Mas eu digo que o coração é um caçador daquilo que não vai perder. E o que não vamos perder é a memória daqueles que se levantaram quando levantar-se custava tudo. Francesca Albanese está a levantar-se agora. No nosso tempo. Em nosso nome. Sob o nosso céu indiferente. Vamos ficar ao lado dela. Não amanhã. Não quando for seguro. Agora.

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