MENTIR. MENTIR SEMPRE
Miguel Carvalho.
Publicam livros. Fazem discursos grotescos. Reescrevem, uma e outra vez, a história do pós-revolução. Há dias, foi o famoso e desacreditado "Relatório das Sevícias" a vir de novo à baila. É um documento relido amiúde para cavalgar a tese do lado negro da revolução. Não se iludam: esta gente dorme sempre bem. Tem consciência absoluta do que branqueia, descarta e ilude. E dos meios que sempre frequentou. Andam aí, de novo, sem freio nos dentes nem açaime para tanto despudor.
Mas vamos aos factos.
O "Relatório das Sevícias", documento que tanto citam e tanto os exalta teve, pelo menos, dois outros que o contrariam em toda a sua dimensão: "Sevícias dum Relatório" e, mais importante, "O «Relatório das Sevícias» e a Legalidade Democrática", de março de 1977. A obra é assinada, entre outras figuras, por Jorge Sampaio, Orlando de Carvalho e Gomes Canotilho.
O branqueamento dos crimes da PIDE-DGS, as denúncias de torturas e espancamentos sem fundamento, a falta de contraditório, o abismo entre as queixas e a relação de detidos, etc, está lá tudo. Recomendo ainda a leitura do excelente artigo do major-general Costa Neves sobre o antes, durante e depois do relatório, a partir da página 40 da revista "O Referencial", da Associação 25 de Abril.
Quanto às condições prisionais de alguns dos detidos neste período, não generalizo, mas cito Silva Santos (CDS), detido no âmbito do processo da rede bombista de extrema-direita - a tal que não existiu, segundo os tribunais militares - que cito no meu livro "Quando Portugal Ardeu"):
- "[Como eram as condições da prisão?] Catitas. Tinha um quartinho, a cama com lençóis da PIDE, casa de banho privativa com água quente e bidé (...) Ah, entretanto, o comandante mandou pôr um candeeirinho na cela, porque eu disse-lhe que gostava de ler. E uma televisão. À hora do almoço e ao jantar vinha uma cerveja fresquinha. O comandante tinha atenções comigo, não me posso queixar de nada (...)".
- "Quais maus tratos?! Vou-lhe dar um exemplo: o recreio era no pátio, das 10 às 11 horas, e a primeira coisa que o Ramiro [Moreira] pediu à minha mulher, quando ela foi lá visitar-me, foi um bronzeador. Para não se queimar (...) O à-vontade daquilo era ridículo, parecia brincadeira. As famílias iam lá duas ou três vezes por semana e, às vezes, estavam numa sala a conversar umas com as outras. E nós a conversarmos também, com os polícias à volta. «Eu disse isto, os gajos perguntaram aquilo... Agora vão esmiuçar mais isto...» Os advogados traziam fotocópias das perguntas e respostas do processo e depois distribuíam-nas, para sabermos o que um tinha dito, o que tinha dito o outro, etc (...)".
Sobre Marcelino da Mata, um "herói português", sempre evocado nestas lembranças pelos apaniguados da contrarrevolução, publico também uma passagem do meu livro "Por Dentro do Chega". Recorde-se que o militar foi sugerido por Carlos Monteiro, fundador do partido, ao próprio líder AV, para candidato presidencial em 2021. «Sugeri-lhe o tenente-coronel Marcelino da Mata e ele não fazia ideia de quem era», lamentou-se Carlos Monteiro.
Não sei se é suficiente. Mas há mais se precisarem.
Por fim: outra das imagens que aqui mostro é o parágrafo de um dos relatórios da Aministia Internacional sobre Portugal, na época.
Tirem as vossas conclusões. Mas não se esqueçam: o que está em curso, com a mais ampla lavagem coletiva que alguma vez me recordo de assistir, é reconfigurar o regime. Para que a verdade não possa sequer sobreviver como asterísco na narrativa dos vencidos do 25 de Abril.
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