ANDRÉS VILLENA: «SE NÃO TE DESPEDEM DE UM MEIO DE COMUNICAÇÃO OU NÃO TE CENSURAM, ACHO QUE HÁ ALGO QUE NÃO ESTÁS A FAZER BEM.»
Manuel Ligero, La Marea. Trad. O’Lima.«É impossível separar o presente democrático do passado autoritário». Esta é a premissa da análise que Andrés Villena Oliver, professor de Economia Aplicada na Universidade Complutense e doutor em Sociologia, faz no seu livro Las élites que dominan España: una historia alternativa desde 1939 (As elites que dominam Espanha: uma história alternativa desde 1939). À frente do poder económico e, paralelamente, na administração pública, alguns apelidos repetem-se desde o início do franquismo até hoje. Era algo mais ou menos intuído, mais ou menos conhecido, mas vê-los desfilar, preto no branco, ao longo das páginas de Villena ainda provoca urticária em determinados setores da sociedade espanhola.
Inicialmente, este livro seria publicado pela Ariel, uma editora do Grupo Planeta. Já tinha até capa, mas no último momento, pouco antes de a impressora começar a funcionar, alguém decidiu retirá-lo do calendário de publicações e do catálogo da Planeta. A razão oficial: não se enquadrava na linha atual da editora. Felizmente, a Libros del K.O. veio em socorro e evitou que a investigação de Villena ficasse numa gaveta.
Vejamos um exemplo prático, escolhendo quase ao acaso um único nome dos muitos que aparecem no seu estudo, o que é que pode ter incomodado. «Antonio Garrigues Díaz-Cañabate casou-se com a filha do presidente da ITT, que é a empresa que detém o capital original da Telefónica», explica o autor na apresentação do livro em Madrid, na livraria Grant. Esse primeiro Garrigues foi embaixador nos Estados Unidos, procurador nos Tribunais, ministro da Justiça, presidente da Citroën em Espanha, da Cadena SER e de muitas outras empresas, além de fundar um dos escritórios de advocacia mais importantes do país. Seu filho Joaquín Garrigues Walker, também advogado, foi ministro da UCD e presidente da Liga Financiera (uma empresa construtora de autoestradas). Outro filho, Antonio, além de estar à frente de dezenas de fundações, criou o Partido Democrata Liberal, que esteve na génese, juntamente com Florentino Pérez, da Operação Roca, uma aposta centrista com Miquel Roca (CiU) à frente que acabou em fracasso. Ao longo dos anos, o escritório de advocacia da família esteve em contacto permanente com o poder político, também atualmente, com o governo de Pedro Sánchez. Mas, na realidade, não se trata apenas de famílias, é algo mais complicado.
«Embora as pessoas morram, o apelido persiste — salienta Villena — porque o apelido continua a ser uma instituição. O facto de Ana Botín ser neta do fundador do Santander e de quatro Botín se terem sucedido à frente do banco não é apenas endogamia familiar, é que as instituições pesam mais do que as pessoas». E as instituições caem ou são reformadas ou são criadas outras novas, mas o modelo permanece.
No seu livro, o economista centra-se nessas sagas e em determinadas esferas de poder em que o mundo empresarial se mistura com os altos funcionários do Estado a tal ponto que, após décadas e décadas de coabitação, chegam a confundir-se. Não se trata apenas das conhecidas «portas giratórias», mas de um fenómeno mais subtil e constante.
«Quando os políticos chegam ao governo, especialmente os mais reformistas, tentam mudar essas dinâmicas, tentam criar novos órgãos administrativos, mas não conseguem alterar o status quo imposto pelas antigas elites. O político que mais novos órgãos criou, entre eles o dos economistas do Estado, foi Laureano López Rodó, mas não conseguiu mudar os modos daquelas tribos de altos funcionários, que têm um ponto de vista que tende a ser conservador, não no sentido ideológico, mas prático», ilustra Villena. Isso, em sua opinião, não é um inconveniente excessivamente grave. Porquê? Porque, em momentos de instabilidade política, estes funcionários são garantes da estabilidade e permitem que o Estado evite o caos e continue a funcionar.
Esses altos funcionários agrupam-se em clãs, em grémios, em partidos aparentemente rivais, seja o PP ou o PSOE, mas sentam-se à mesma mesa há 80 anos. «Quando o PP está no poder, abundam os advogados do Estado na órbita do governo. Quando é o PSOE, há mais diplomatas, juízes e procuradores», explica o autor, que considera lógico que os políticos se rodeiem deste tipo de perfis. Afinal, são eles que mais sabem. Villena conta uma estória para esclarecer este ponto: «Havia um deputado do Podemos, nos seus bons anos, 2015 e 2016, que se lamentava com o microfone desligado: “Não conseguimos com eles, não conseguimos com eles... Teríamos de estudar 12 horas por dia para os enfrentar. Quando fazemos uma proposta, aparece sempre um tipo, provavelmente aconselhado por advogados do Estado, que nos diz que isso não pode ser feito porque contradiz uma lei ou um preceito ou sai do orçamento». No fundo, isto é bom. Há regras, há leis, há uma Constituição, e essa é a melhor vacina contra a tirania».
Mas nessa eficiência tecnocrática há um perigo para as democracias (ou para os «sistemas parlamentares burgueses», como Villena prefere chamá-los): «Há certas pessoas jovens, que não foram socializadas no período da Transição, que podem acabar por dizer: eu atribuo legitimidade a um governo de especialistas e cientistas que, face às múltiplas ameaças climáticas, tecnológicas e militares, seja capaz de tomar as decisões adequadas. Este é o mesmo discurso do chefe da BlackRock, o fundo de investimento que detém 5% de todas as empresas do mundo cotadas na bolsa, e que disse que o que precisamos é de um líder... não disse com duas bolas, mas era esse o sentido».
Essa tendência é, aliás, muito espanhola. Não é à toa que aqui criámos o conceito de «cirurgião de ferro», um grande cérebro reformista capaz de mudar o rumo do país em momentos difíceis. Isso aconteceu em 1959 (quando o Opus Dei venceu a Falange e a Espanha se abriu ao investimento estrangeiro), em 1977 (com os Pactos da Moncloa), em 1982 (com a vitória do PSOE), em 1996 (com a do PP), em 2010 (com a crise económica)... Em todas essas ocasiões, as elites (empresariais, políticas, administrativas) foram capazes de levar adiante os seus planos, subjugando qualquer oposição, frequentemente materializada na forma de luta sindical. Adotou os nomes de «Plano de Estabilização» ou «reconversão industrial» ou «políticas de austeridade», mas os protagonistas e os métodos foram sempre os mesmos. Villena propôs-se estudar «como estas minorias se organizam para aceder ao poder e permanecer nele».
O estudo das elites é um tema que «não interessa às revistas académicas, porque consideram que é um método de extração de dados muito subjetivo, pois é muito difícil aceder às fontes primárias», explica o autor. «Este tipo de estudos suscita rejeição, porque parece que quem se ocupa deles está a tentar revelar algo, mas trata-se simplesmente de objetivar um conjunto de posições que são vantajosas e que, por serem vantajosas, tendem a manter-se ao longo do tempo», diz Villena para defender o caráter factual, até mesmo aséptico, do seu livro. «Parece que estou a fazer propaganda contra mim mesmo, mas no meu estudo não faço nenhuma descoberta. O que faço é uma compilação de factos já publicados, fragmentários e muitas vezes ignorados que, reunidos e contextualizados, ganham sentido como uma nova teoria para analisar o que aconteceu desde 1939 até agora».
«Quando vemos que um dos dirigentes da Planeta é o número 2 da Fundação Quirón Salud, percebemos que existe uma articulação das elites que vai além do resultado económico», afirma Villena para denunciar uma «censura latente» que está presente em todos os grandes grupos de comunicação. «Se eu falar mal da Quirón num livro que vai ser publicado por uma editora que tem fortes relações com o grupo Quirón, esse livro não é publicado».
Essa rejeição causou-lhe uma «grande ansiedade», mas também «um certo orgulho», confessa. «Se não te despedem de um meio de comunicação ou não te censuram, acho que há algo que não estás a fazer bem. Isso significa que te estás a tornar submisso».
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