O PARQUE QUE DEFENDE SETÚBAL DAS CHEIAS
Com a construção de uma bacia de retenção na Várzea, em 2018, a baixa de Setúbal ganhou uma muralha contra as cheias. E também um grande parque urbano.
sucessivas tempestades que atingiram Portugal (fotografia LPP)
A forma como as cidades são desenhadas pode agravar – ou mitigar – os riscos que sobre elas recaem. Os parques urbanos, se bem planeados, podem ter um papel determinante na prevenção de cheias e inundações. Em Setúbal, o Parque Urbano da Várzea, que começou a ser construído em 2018, promete uma nova área de lazer e de passeio na cidade, onde as árvores ainda precisam de tempo para se desenvolverem e onde infraestruturas como percursos pedonais, passadiços, bancos e iluminação têm vindo a aparecer gradualmente. Mas a função que o parque imediatamente ganhou foi na salvaguarda da cidade em relação a períodos de intensa precipitação como as últimas semanas.
Foi a construção de uma dupla bacia de retenção que motivou a criação do Parque Urbano da Várzea. Isto é, de uma bacia com capacidade para reter 240 mil metros cúbicos (m³) de água, o equivalente a cerca de 100 piscinas olímpicas. Água que provém da chuva e da rede de drenagem da cidade, mas também das ribeiras do Livramento e da Figueira, que descem das serras do Louro e de São Luís para desaguar no Sado, passando pela zona do parque. Estas ribeiras podem ter caudais de 52 metros cúbicos por segundo (m³/s) e 33 m³/s, respectivamente.
Fotografia de drone captada pela Câmara Municipal de Setúbal a 5 de Fevereiro de 2026. Vê-se o Parque Urbano da Várzea praticamente submerso, extravasando as áreas destinadas à circulação e retenção de água, mas sem inundar o exterior do parque
(fotografias cortesia de CMS)
A bacia de retenção da Várzea recebe sobretudo a água do Livramento e é uma bacia dupla porque está subdividida em duas áreas – uma na margem esquerda da ribeira (com 229 mil m³ de capacidade) e uma menor na margem direita (com 11 mil m³). Esta bacia, conjugada com o investimento de regularização das duas ribeiras e com outras estruturas similares e complementares, nomeadamente na Algodeia, somam uma capacidade global de retenção próxima dos 300 mil metros cúbicos (m³) de água.
A bacia de retenção do Parque Urbano da Várzea ajuda a regularizar os caudais destas duas ribeiras, isto é, a abrandar a velocidade da água, a reter temporariamente parte do volume e a libertá-lo gradualmente. Quando o estuário do Sado permite, isto é, quando a maré está baixa, a água retida na bacia pode ser escoada para o rio. Estas descargas são feitas através de canais próprios e de válvulas que são abertas quando a pressão dentro da bacia é maior do que no rio, impedindo, ao mesmo tempo, o refluxo quando o nível do Sado sobe. Ou seja, a água só sai da bacia quando há condições seguras para tal , evitando que a pressão do rio provoque inundações na cidade. Por outro lado, a água acumulada no Parque Urbano da Várzea pode ser encaminhada para o curso original das ribeiras ou infiltrada no solo do parque/bacia, que é permeável.
O grande teste
O Parque Urbano da Várzea tem estado em construção, por fases, ao longo dos últimos anos (fotografia LPP)
A bacia de retenção do Parque Urbano da Várzea foi testada ao longo dos últimos invernos, mas a grande prova à capacidade da infraestrutura deu-se este ano, com a sucessão de tempestades das últimas semanas. “Neste episódio extremo, tivemos precipitação na ordem dos 22 a 25 mm de chuva, o que é muito, mesmo. A bacia nem atingiu ainda os 50%”, explicou à publicação ECO/Local Online Paulo Maia, Vereador da Protecção Civil da Câmara de Setúbal, que desde Outubro de 2025 é liderada pela independente (ex-CDU) Maria das Dores Meira. “Podíamos ter tido maior preenchimento da sua capacidade se o rio não tivesse dado uma ajuda. A chuva não foi muito intensa nos picos de preia-mar. Ainda tínhamos capacidade para ter 50 e muitos por cento de capacidade.”
Setubalense, Paulo Maia diz que viu a baixa da cidade inundar-se por várias vezes ao longo da sua vida. Ao ECO sublinha que mais que um parque urbano, a Várzea é uma importante bacia de retenção – o parque é uma função secundária. “Esta obra não teve a importância que lhe deveria ter sido dada, porque nunca tinha sido testada desta maneira. Agora sim, verifica-se a importância da mesma pelo teste que estamos a ter”, assegura o responsável da Protecção Civil. “Isto veio dar à cidade uma protecção para todos estes eventos climáticos, que cada vez vão estando piores“, reforça o vereador Paulo Maia.
A obra da dupla bacia de retenção da Várzea começou a ser planeada há quase uma década num mandato anterior de Maria das Dores Meira, então eleita pela CDU. A construção foi apoiada por fundos comunitários e envolveu um custo total de 1,28 milhões de euros, dos quais 321 mil couberam ao Município de Setúbal. Na empreitada foi feita a regularização de 550 metros da Ribeira da Figueira, a construção de duas bacias de amortecimento – uma em cada margem desta (com 229 mil m³ e 11 mil m³) –, e a colocação de valas de drenagem para permitir evacuar a água acumulada nas bacias. Mais recentemente, no final do mandato de André Martins (CDU), que perdeu a autarquia para a agora independente Maria das Dores, deu-se continuação à infraestruturação do parque.
Na verdade, o projecto do Parque Urbano da Várzea tem vindo a ser implementado de forma evolutiva e por fases. Em 2025, a Câmara de Setúbal investiu 782,9 mil euros na criação em concreto do Parque Urbano da Várzea com a criação de caminhos e atravessamentos da ribeira, bem como de um percurso interpretativo sobre a bacia de retenção. Um trabalho que está ainda em andamento, com um segundo investimento na ordem dos 716,5 mil euros, que envolve a criação de prados, a plantação de mais arbustos autóctones, e colocação de mobiliário urbano, designadamente bancos, papeleiras e bebedouros. Mesmo que ainda em obras, o parque já é usado por muitas famílias e moradores para passeios e também como local de corrida. Paralelamente está a ser implementado um programa de educação ambiental com actividades dirigidas aos alunos das escolas locais.
No Parque Urbano da Várzea já foram plantadas cerca de 1290 árvores de espécies autóctones para criar um espaço que contrarie o efeito de “ilha de calor urbano” no Verão, foram construídos dois furos geodésicos para garantir o abastecimento de água ao parque, e foram preservados elementos patrimoniais relevantes, como o aqueduto da Quinta de Prostes, tanques de rega, poços, alguns troços de caleiras e os três edifícios existentes na área.
Certo é que com a dupla bacia de retenção da Várzea, a baixa de Setúbal deixou de ter cheias em 2018. Situada numa planície, à beira do estuário do Sado, e rodeada por serras, Setúbal foi sempre propícia a cheias urbanas. O Parque Urbano da Várzea passou com distinção na prova que as tempestades das últimas semanas lhe apresentaram, afirmando-se como um projecto estruturante na resposta aos impactos das alterações climáticas, que junta soluções de engenharia hidráulica a uma ampla infraestrutura verde.
Não é só em Setúbal que têm sido construídas bacias de retenção. Em Lisboa, no âmbito do Plano Geral de Drenagem, foram criadas bacias de retenção na Ameixoeira, Alto da Ajuda, Parque Eduardo VII e no Parque Oeste, Campo Grande, Quinta da Granja, Vale Fundão e Vale de Chelas, por exemplo. Recentemente, demos também a conhecer um projecto de uma ampla bacia de retenção que está em construção em Corroios, no Seixal, e que também já provou a sua importância. Este tipo de infraestruturas é muitas vezes pouco compreendido pela população, apesar do papel decisivo que desempenha na mitigação dos impactos das alterações climáticas, como as chuvas intensas.
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