AS CHEIAS COMO ALEGORIA TRÁGICA DOS NOSSOS TEMPOS
Diogo Martins, Substack.
As cheias representam uma alegoria trágica da inconsistência temporal das escolhas políticas e da atenção mediática dos tempos que vivemos. Ameaçados por uma crise climática que os melhores modelos de simulação dão como cientificamente provada, continuamos a agir a ter um espaço mediático povoado por um presente pequenino, mesquinho e sufocante, onde quem ousa falar de futuro, medidas estruturantes ou planeamento é brindado com graciosos adjetivos como catastrofista, romântico ou radical. Os jovens que fazem ações para exigir ação imediata dos governos nestas matérias - ocupando faculdades ou interrompendo estradas - são tratados como terroristas, que “deviam era estar a trabalhar”.
As alterações climáticas são apenas preocupação e abertura de Telejornal quando a casa arde ou a água entra pela porta. O Estado é sempre fonte de ineficiência e captura de impostos até que é chamado para acudir à incerteza fundamental de um clima com consequência sociais e económicas cada vez mais brutais. Uma miopia coletiva onde o condenado só consegue perceber o cadafalso quando o chão lhe foge debaixo dos pés e, pelo caminho, insulta os que o previnem para mudar de rumo. Entre o tanto que avançámos coletivamente enquanto comunidade de conhecimento - capazes que somos hoje de modelar com precisão a evolução um fenómeno tão complexo como o clima - e o quanto permanecemos de incapazes de o aceitar enquanto comunidade cívica e política decorre o intervalo onde repousa o nosso falhanço coletivo. Triunfo de capitalismo de viés abissal para o lucro presente e capaz de acionar os mecanismos mediáticos e institucionais para que a democracia não use o conhecimento científico para ameaçar os seus interesses.
Permitam-me que use o meu muito estimado burgo - Póvoa de Santa Iria, concelho de Vila Franca de Xira - como alegoria simples do que acabo de escrever.
Há mais de uma década, nas vésperas de proceder à renovação das frentes ribeirinhas do concelho, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira promoveu alterações no Plano Diretor Municipal (PDM) que permitiram a urbanização de uma grande área antes não urbanizável por se considerara leito de cheio (e onde há escassas décadas existiam salinas).
Quando as forças políticas à esquerda disseram que rever o PDM para ali se poder construir uma mega urbanização da Teixeira Duarte era uma afronta, foram acusadas de serem avessas ao progresso e contra a iniciativa privada.
Defenderam essas forças políticas (CDU e BE) que construir 700 fogos em solos antes assinalados como leito de cheia era um crime ambiental, que ignorava tudo o que se sabia sobre as previsíveis alterações futuras dos níveis das águas. Para já não falar de outras dimensões: um acréscimo de densidade populacional numa localidade com mais habitantes por metro quadrado do que Singapura -sem infraestruturas para a comportar - e que se destinava a criar uma oferta habitacional que não corresponderia à procura das classes trabalhadoras. Serviria - como está a servir - para alimentar uma oferta para procuras externas e para quem faz da habitação um ativo financeiro mais do que uma casa para viver.
Por trágica ironia, ainda o primeiro prédio do grande complexo não está totalmente construído e já há barreiras de cimento colocadas nas suas portas de entrada para que água não o inunde (ver imagem inicial deste artigo).
Entretanto, o presidente da Câmara de Vila Franca de Xira e os seus vereadores brincam aos bons alunos. Muito solenes e preocupados.
O problema é que para lá das preocupações de ocasião há as medidas estruturais que fazem a diferença. Contudo, essas foram há muito tempo, quando tudo isto se discutiu. Infelizmente, essas não causam envolvimento das populações nem preocupação do poder político, o qual, conhecedor dessa apatia, sabe que tem caminho livre para fazer da melhoria do espaço público um veículo de valorização de ativos imobiliários - como se tratou do caso com a requalificação das frente ribeirinhas.
“Querem um sítio aprazível para correr e passear à beira rio?” Pois bem, mas não sem que isso venha promover o interesse de uma das maiores construtoras portuguesas que, a par da Mota-Engil, tem um vasto legado de ingerência no poder político e de ação de portas giratórias entre os seus quadros de topo e os dirigentes dos partidos do centro.
É por isso que o ultra-centrismo do PS - política de direita polvilhada com caridade social e discurso dos afetos, que até rende a alguns dos seus intérpretes a eleição para personalidade do ano em jornais regionais - não me merece respeito.
Não são fascistas, mas são também eles que lhe franqueiam as portas com a sua traição reiterada de classe. Uns por interesses pessoais, outros por convicção, outros por total falta de noção.
Aqui continuaremos a dizer que as alterações climáticas são uma urgência. Enquanto os outros -os pragmáticos, os bons, os razoáveis, os moderados - serão heróis, de capa de proteção civil ao vento.
A maioria do povo só tem o que merece. Aos outros, resta-lhes o parco contentamento de submergirem de olhos abertos.
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