OS SINAIS NAZIS DA ADMINISTRAÇÃO TRUMP
S. Barret, Mr Mondialisation. Trad.O’Lima.
Desde o início do seu segundo mandato, Donald Trump não parou de intensificar a violência, levando os EUA ao fascismo. Além das decisões políticas que marcam essa deriva, a administração Trump tem multiplicado o uso de mensagens subliminares nas últimas semanas: insinuações aparentemente inocentes, mas na realidade estigmatizantes, aqui com conotação indubitavelmente nazi.
O tom foi dado logo a 20 de janeiro de 2025, no comício após a segunda tomada de posse de Donald Trump, durante o qual o bilionário Elon Musk fez uma saudação nazi que alguns consideraram uma «saudação romana», «um gesto desajeitado», «uma falta de jeito relacionada com o seu autismo» ou «uma demonstração de afeto à multidão». Mesmo assim, Elon Musk, fervoroso defensor de um capitalismo sem fé nem lei, assume as suas alianças com a extrema-direita.
No início de 2025, ele demonstrou o seu apoio ao partido de extrema direita alemão AfD, declarando numa entrevista com Alice Weidel, co-líder do partido, que Adolf Hitler era «um comunista que se considerava socialista». Em 23 de setembro de 2024, Elon Musk premiou a neofascista italiana Georgia Méloni com o Global Citizen Award do Atlantic Council, elogiando o seu «trabalho incrível como primeira-ministra da Itália».
Ao tomar estas posições, Elon Musk assumiu, de facto, a responsabilidade presidencial e a dos EUA, uma vez que dirigiu o DOGE, o departamento de Eficácia Governamental, desde a sua criação em 21 de janeiro de 2025 até à sua dissolução em novembro de 2025. Uma entidade sem legitimidade democrática (por não ter sido aprovada pelo Senado) que prometia reduzir os gastos públicos americanos em US$ 1 trilião.
A passagem de Musk pela administração Trump prenunciava a tendência autoritária em que os EUA agora se encontram. A administração trumpista já não disfarça a sua atração pelo regime nazi, tanto em termos de conteúdo como de forma, como comprovam recentemente o assassinato de Renee Good pela ICE e a multiplicação de mensagens subliminares nazis.
A expressão ‘dog whistle’ designa, nos países anglófonos, discursos políticos que parecem inofensivos para o grande público, mas que dirigem uma mensagem específica a um grupo-alvo para obter o seu apoio sem provocar oposição por parte dos demais. Ao analisar as recentes declarações de Trump e da sua administração, as referências nazis saltam à vista. Fizemos uma seleção para dar conta disso.
O copo de leite
Um vídeo publicado no X pelo secretário de Saúde e Serviços Sociais dos EUA, Robert Francis Kennedy Jr, a saborear um copo de leite é uma referência à retórica da supremacia branca. De facto, segundo Gabrielle Geaux, «os neonazis gabam-se de ter «corpos superiores»» com capacidade para digerir a lactose.
«Um dos nossos, todos os vossos»
Lê-se «Um dos nossos, todos os vossos» no púlpito de Kristi Noem, secretária de Segurança Interna dos EUA, durante uma conferência de imprensa em 8 de janeiro de 2026. Embora a origem deste slogan seja objeto de debate, ele faz inegavelmente referência a uma política nazi implementada em 1942, após o assassinato de Reinhard Heydrich. Os nazis aplicaram uma política de represálias coletivas na Checoslováquia, chegando à destruição total de aldeias inteiras, como Lidice e Ležáky.
«Um povo, um império, um líder»
Terry Virts, antigo astronauta da NASA e oficial da Força Aérea dos EUA, deu o alerta ao destacar o peso simbólico extremamente significativo da frase quando o governo americano divulgou uma versão em inglês que lembrava o slogan nazi «Ein Volk, ein Reich, ein Führer» («Um povo, um império, um líder»).
Este lema estava no centro da propaganda do Terceiro Reich, servindo para glorificar a unidade forçada do povo alemão sob a autoridade absoluta de Adolf Hitler e para legitimar um regime totalitário baseado no culto ao líder, no nacionalismo extremo e na exclusão.
Ao estabelecer essa comparação, Virts não sugere necessariamente uma equivalência direta, mas alerta para os desvios simbólicos e retóricos: a história mostra que certos slogans, mesmo reformulados ou retirados do seu contexto original, podem reativar imaginários autoritários e banalizar referências associadas a regimes responsáveis por crimes em massa.
«Abrace o Americanismo»
Num tweet, o escritor e comentador político Seth Abramson reage ao uso da expressão «Abrace o Americanismo» pelo Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, divulgada com a imagem do Monte Rushmore, um monumento emblemático da identidade nacional americana.
Segundo ele, essa fórmula ecoa slogans historicamente carregados como «Deutschland den Deutschen» («A Alemanha para os alemães»), usados pelos movimentos nacionalistas alemães e depois pelo regime nazi para promover uma concepção étnica e exclusiva da nação.
Abramson salienta que este não é um caso isolado, mas o segundo episódio em dois dias em que uma comunicação institucional retoma, segundo ele, uma retórica visual e lexical associada à exaltação identitária. Ao combinar um slogan abstrato — o «americanismo» — com um símbolo monumental congelado do passado, ele vê nisso uma encenação ideológica destinada a definir quem pertence plenamente à nação e quem seria implicitamente excluído, o que explica por que se recusa a ver nisso uma simples coincidência e interpreta-a como um sinal político deliberado.
A Antiqua, uma tipografia nazi
Melanie D'Arrigo, ativista e comentadora política especializada na análise de símbolos e retórica da extrema direita nos EUA, reagiu ao tweet do Departamento de Segurança Interna citando o Evangelho segundo S. Mateus — «Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus» (5:9). Ela não contesta o versículo bíblico em si, mas denuncia o uso de uma tipografia que associa ao imaginário visual nazi, somando-se assim a uma série anterior de slogans percebidos como emprestados de uma retórica nacionalista extrema.
Esta fonte tipográfica é a Antiqua. Ora, na Alemanha nazi, uma circular de 3 de janeiro de 1941 pôs fim ao uso da escrita gótica Fraktur, decretada como sendo de origem judaica, e substituída pela Antiqua para documentos oficiais.
Rejeitando a ideia de que se trataria simplesmente de «trolling», D'Arrigo salienta que o recurso repetido a códigos visuais, religiosos e autoritários por parte de uma agência responsável pela segurança interna traduz, na sua opinião, uma escolha política consciente. A sua análise insere-se numa crítica mais ampla à forma como referências cristãs e identitárias historicamente carregadas podem ser mobilizadas pelo poder para projetar uma visão moral e ideológica exclusiva, revelando, segundo ela, as verdadeiras intenções por trás da comunicação oficial.
A isso acrescenta-se a análise de Ricardo Parreira, jornalista independente especialista em questões relacionadas com a extrema-direita e as forças policiais, conhecido por investigar o uso de símbolos, códigos e slogans associados à extrema-direita nas instituições (nomeadamente policiais). Ele também defende que o uso de fontes góticas alemãs em algumas mensagens oficiais lembra as utilizadas pela propaganda nazi e que, na sua opinião, trata-se de uma mensagem subliminar destinada a seduzir os grupos mais radicais, sugerindo que o governo americano poderia estar a tentar conquistá-los.
O livro Which Way Western Man
D'Arrigo também chama a atenção para um meme divulgado pela Casa Branca, desta vez inspirado no livro Which Way Western Man, de William Gayley Simpson (1978), uma obra neonazi que propaga teorias da conspiração antissemitas e apresenta Hitler como tendo estado certo, apelando à deportação de judeus e negros. Segundo ela, esse meme não se limita a uma simples mensagem visual: ele mobiliza referências explícitas ao nazismo e retoma táticas históricas de propaganda e exclusão.
«Serve o seu país! Defende a tua cultura! Não é necessário ter diploma universitário!»
A conta X Canada Hates Trump reagiu a uma publicação da conta oficial do Departamento de Segurança Interna convidando os cidadãos a aderirem ao ICE com o slogan: «Serve o teu país! Defende a tua cultura! Não é necessário ter diploma universitário!»
Canada Hates Trump lembra uma citação de Karl Stojka, sobrevivente de Auschwitz: NÃO FORAM HITLER NEM HIMMLER QUE ME LEVARAM, ESPANCARAM E MATARAM A MINHA FAMÍLIA. FORAM O SAPATEIRO, O LEITEIRO E O VIZINHO, QUE RECEBERAM UM UNIFORME E DEPOIS SE CONSIDERARAM A RAÇA SUPERIOR.
Esta citação significa que não são apenas a ideologia ou os líderes que causam violência, mas também indivíduos comuns transformados pela adesão a uma instituição e a uma retórica nacionalista ou identitária, que legitima a exclusão e a repressão. Uma dinâmica amplamente analisada e fundamentada por Hannah Arendt, nomeadamente na sua obra ‘Eichmann em Jerusalém’, onde descreve a «banalidade do mal» e a forma como pessoas aparentemente comuns podem participar em crimes em massa sem motivações fanáticas, simplesmente seguindo as regras e as hierarquias estabelecidas.
A impunidade institucionalizada da ICE
Laurent Thines, neurocirurgião francês, professor universitário no CHU de Besançon, é conhecido pelo seu compromisso público para além da área médica. Destacou-se ao lançar uma petição em 2019 contra o uso de armas ditas «menos letais» (como as LBD) durante os protestos dos Coletes Amarelos, reunindo mais de 180 mil assinaturas para uma moratória sobre essas armas.
Laurent Thines faz uma comparação entre a ICE e a Gestapo, na sequência da declaração sobre X de Stephen Miller, chefe de gabinete adjunto da Casa Branca: «A todos os agentes da ICE: vocês beneficiam de imunidade federal no exercício das vossas funções. Qualquer pessoa que vos agredir, tentar deter ou impedir está a cometer um crime. Vocês têm imunidade para cumprir as vossas missões, e ninguém — nem eleitos municipais, nem eleitos estaduais, nem imigrantes ilegais, nem agitadores de esquerda, nem insurrectos — podem impedi-los de cumprir as vossas obrigações legais. O Ministério da Justiça deixou claro que, se os funcionários públicos ultrapassarem esse limite e forem culpados de obstrução, conspiração criminosa contra os EUA ou contra os agentes do ICE, serão levados à justiça.
Mastros de 88 pés de altura
No X, a conta Scary Larry denuncia uma continuidade preocupante na retórica e na simbologia utilizadas pelo regime Trump. Segundo ele, o executivo americano passou de homenagens explícitas a Adolf Hitler — com mastros de 88 pés de altura (o número 88 é um código neonazi para «Heil Hitler») e saudações nazis — ao uso de slogans diretamente inspirados no Terceiro Reich, tais como «Uma pátria, um povo, uma herança» e «Um dos nossos, todos os vossos».
Para Scary Larry, essa evolução não é uma coincidência ou um simples aceno ideológico: trata-se de uma afirmação deliberada de pertença a uma visão nacionalista e racial extrema, que ultrapassa a insinuação e é anunciada «em voz alta».
Neonazis em Miami Beach
No X, a colaboradora Gaëlle K. reage a um vídeo, filmado no Vendôme, uma discoteca de Miami Beach, que mostra várias personalidades da extrema-direita, incluindo Nick Fuentes, Andrew Tate, Sneako, Clavicular e Myron Gaines, a cantar e a fazer saudações nazis enquanto um DJ toca a música Heil Hitler do rapper Ye (antigo Kanye West).
Os representantes eleitos locais de Miami Beach classificaram a cena como «repugnante» e «inaceitável», e as organizações de defesa dos direitos civis condenaram veementemente a difusão de uma canção associada à ideologia nazi numa discoteca frequentada pela população local. A gerência da discoteca apresentou desculpas públicas, demitiu vários funcionários e anunciou medidas para impedir que esse tipo de evento se repita, reafirmando que não apoia o antissemitismo nem o discurso de ódio.
A anunciada supressão das eleições
Em julho de 2024, durante um comício em West Palm Beach perante um público maioritariamente cristão organizado pela Turning Point Action, Trump exortou os cristãos a votarem «apenas desta vez», afirmando que, se o fizessem e ele fosse eleito, «não teriam mais de votar» e que tudo estaria «consertado» em quatro anos.
Neste contexto, a publicação da Reuters divulgada por Spencer Hakimian não é, na verdade, uma surpresa. Esta situação ilustra como a negação dos denunciantes pode custar caro.
Um futuro próximo dirá se houver eleições intercalares nos EUA e, em caso afirmativo, até que ponto Trump irá manipular o seu desenrolar. E isto, mesmo com o espectro de um estado de emergência pairando no ar em reação às mobilizações contra o ICE em Minnesota.
À luz destes elementos, parece que os UA estão a normalizar explicitamente referências e práticas historicamente associadas ao nazismo. Os slogans, símbolos e códigos usados por certas figuras públicas e instituições podem funcionar como sinais ideológicos destinados a públicos radicais, reproduzindo mecanismos de propaganda e doutrinação já observados na Alemanha na década de 1930.
Perante a violência fascista, existe resistência, desde cientistas franceses a habitantes dos EUA, o que permite manter a esperança nesta escuridão.
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