Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

domingo, 25 de janeiro de 2026

LEITURAS MARGINAIS

UM CONSELHO DA PAZ CONSTRUÍDO SOBRE OS ESCOMBROS DE GAZA
Michael Taylor, The AIMN. Trad. O’Lima.

Cartoon: Becs

Há momentos na política em que a linguagem se distancia tanto da realidade que passa do cinismo à farsa. A nomeação do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu para o chamado «Conselho da Paz» de Donald Trump para Gaza é um desses momentos.

Netanyahu não é uma parte interessada neutra. Não é um participante relutante arrastado para um conflito trágico. É o líder que supervisionou a destruição sistemática de Gaza: dezenas de milhares de civis mortos, bairros inteiros eliminados, hospitais arrasados, universidades bombardeadas e uma população deliberadamente privada de comida, água, abrigo e esperança. É também alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional por alegados crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

O facto de Israel ter rejeitado essas acusações ou de as ter descartado como políticas não vem ao caso. Os tribunais existem precisamente porque os infratores raramente aceitam a responsabilidade pela suas próprias ações. A questão não é se Netanyahu concorda com as acusações, mas se os fatos concretos as sustentam. E sustentam.

O direito internacional define genocídio não por slogans ou analogias históricas, mas por ações e intenções. Matar membros de um grupo protegido. Causar danos físicos ou mentais graves. Infligir deliberadamente condições de vida calculadas para provocar a destruição total ou parcial de um grupo. Gaza hoje carrega a marca inconfundível de cada um desses elementos. Acrescente-se a isso a retórica repetida e desumanizante de altos funcionários israelitas – palestinianos descritos como “animais humanos”, Gaza referida como algo a ser “arrasada”, “apagada” ou esvaziada – e a alegação de que se trata apenas de uma campanha militar infeliz, mas legal, desmorona sob seu próprio peso.

Os processos legais movem-se lentamente. É sempre assim. O genocídio quase nunca é reconhecido como tal enquanto está a ocorrer. Ruanda foi negado até que as machetes foram baixadas. Srebrenica foi minimizado até que as valas comuns foram abertas. A história mostra que a clareza moral chega muito antes da finalidade judicial.

É precisamente por isso que a nomeação de Netanyahu para um «Conselho de Paz» é tão grotesca. A paz não é negociada por aqueles que estão ativamente a travar uma guerra de aniquilação. A reconstrução não é supervisionada por aqueles que criaram as ruínas. E a justiça não é feita reabilitando líderes enquanto os corpos ainda estão a ser retirados dos escombros.

O conselho de Trump não é uma iniciativa de paz. É um exercício de branding – que lava a responsabilidade, nivela as distinções morais e pede ao mundo que aceite a linguagem ambígua orwelliana como diplomacia.

Chamar este acordo de farsa não é um exagero retórico. É uma descrição precisa. Quando um alegado criminoso de guerra é transformado num pacificador, a própria linguagem é bombardeada até à submissão. E Gaza, mais uma vez, vai ter de pagar o preço.

Sem comentários: