David Andersson, Dissident Voice. Trad. O’Lima.
Em dezembro, o presidente dos EUA, Donald Trump, recebeu o recém-criado «Prémio da Paz da FIFA – O Futebol Une o Mundo», entregue pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino. A decisão imediatamente gerou descrença e críticas em todo o mundo, levantando uma questão fundamental: o que a FIFA entende por paz?
Se o futebol realmente tem o objetivo de unir o mundo, então esse prémio – e o processo que o gerou – deve ser seriamente reconsiderado.
A atribuição do Prémio da Paz não surgiu de um processo transparente ou democrático. Ela reflete um padrão mais amplo em que a administraçãoTrump tem exercido pressão política e diplomática sobre instituições internacionais para garantir legitimidade e apoio público. Por outras palavras, intimidação. A FIFA, apesar de alegar neutralidade e independência, parece ter cedido a essa pressão.
Mas o poder imposto por meio da coerção pode ser revertido por meio de ações organizadas, coletivas e não violentas. Se um governo pode pressionar uma instituição desportiva mundial a legitimar o seu líder sob a bandeira da paz, então a sociedade civil mundial deve ser capaz de obrigar essa mesma instituição a corrigir o seu rumo. Não se trata de punição ou humilhação. Trata-se de legitimidade.
A paz não pode ser encenada
A postura atual dos EUA em relação ao resto do mundo — marcada por sanções, diplomacia coercitiva, ameaças militares e desrespeito pelas normas internacionais — colide com os valores que o Prémio da Paz afirma representar. Não se pode falar com credibilidade a linguagem da paz enquanto se pratica a dominação.
Quando a intimidação tem sucesso sem contestação, torna-se um precedente. Quando é contestada coletivamente e de forma não violenta, torna-se frágil.
Revogar este prémio enviaria uma mensagem clara: a paz não é um exercício de relações públicas, nem um troféu político obtido através de pressão.
Um campeonato mundial em questão
Essa controvérsia desenrola-se à medida que se aproxima o Campeonato Mundial da FIFA 2026. Programada para acontecer de 11 de junho a 19 de julho, será o primeiro torneio com 48 equipas, com 104 partidas em 16 cidades, 11 nos EUA e 5 no Canadá e no México.
Adeptos internacionais, ativistas e figuras políticas questionam se o atual clima político dos EUA — particularmente as práticas de fiscalização da imigração, restrições de viagem e políticas de fronteira — torna o país um anfitrião seguro e acolhedor para uma celebração global destinada a unir a humanidade.
Apelos para boicotar o Campeonato Mundial de 2026 estão a espalhar-se pelas redes sociais, à medida que adeptos relatam planos de viagem cancelados, compras de ingressos retiradas e crescentes receios de detenções arbitrárias, recusas de vistos e tratamento hostil nas fronteiras. Organizações de direitos humanos têm alertado repetidamente sobre as práticas de detenção e a erosão das liberdades civis — preocupações que assumem urgência ainda maior quando se espera que milhões de pessoas cruzem as fronteiras para um evento global.
Uma proposta não violenta para uma reinicialização global
Se há uma ação não violenta em 2026 com potencial para mudar a consciência global, é uma campanha internacional exigindo responsabilidade da própria FIFA.
Tal campanha poderia exigir:
- a revogação do Prémio da Paz da FIFA concedido a Donald Trump;
- o adiamento de um ano do Campeonato Mundial de 2026;
- a transferência do torneio para um grupo de países africanos anfitriões — como África do Sul, Marrocos, Egito e Argélia — regiões com profundas tradições futebolísticas e exclusão de longa data do poder desportivo global.
Esta proposta é ambiciosa. Mas a ambição sempre foi necessária para a transformação.
A FIFA não é um órgão neutro, acima da política. É uma instituição mundial com 211 associações membros, cujas decisões refletem valores, alianças e relações de poder. O que a FIFA decide premiar — e quem decide homenagear — envia uma mensagem a milhares de milhões de pessoas.
Emissoras: retirando o consentimento económico
Uma das alavancas não violentas mais poderosas ultrapassa os estádios e as fronteiras: a transmissão televisiva. O Campeonato Mundial existe não apenas como um evento desportivo, mas como um produto dos media mundiais. As redes de televisão e plataformas de streaming pagam biliões em taxas de licenciamento que financiam as operações da FIFA. Sem essas taxas — e sem audiência —, o torneio perde a sua base económica.
Uma campanha não violenta coordenada poderia, portanto, apelar às emissoras para que:
- suspendessem a cobertura da Copa do Mundo;
- se recusassem a pagar taxas de licenciamento enquanto a FIFA legitimasse o poder político coercitivo sob a bandeira da paz;
- explicassem publicamente a sua posição ética aos telespectadores, anunciantes e cidadãos.
Essa ação não teria como alvo jogadores, claques ou trabalhadores. Teria como alvo a infraestrutura financeira e simbólica que permite à FIFA operar sem prestar contas. Isso não é censura — é recusa ética.
Uma campanha universal: as redes sociais como infraestrutura não violenta
Para uma campanha desse tipo ser bem-sucedida, ela deve ser global, visível e coordenada. É por isso que as redes sociais não são secundárias — elas são essenciais. As plataformas de redes sociais são a infraestrutura não violenta dos dias de hoje. Elas permitem que milhões de pessoas ajam juntas, além das fronteiras, idiomas e culturas, sem controle centralizado. Quando usadas estrategicamente, elas transformam ações isoladas em pressão universal.
Uma campanha global poderia:
- coordenar mensagens, imagens e hashtags partilhadas entre continentes;
- amplificar testemunhos de adeptos, jogadores, jornalistas e defensores dos direitos humanos;
- expor contradições entre a retórica da FIFA e as suas ações em tempo real;
- exercer pressão pública contínua sobre a liderança da FIFA, emissoras, patrocinadores e anunciantes.
É assim que os movimentos não violentos crescem: através da visibilidade, da participação e da persistência — até que o silêncio se torne impossível.
Para ter sucesso, no entanto, isso deve ser mais do que um momento mediático. Deve tornar-se um movimento não violento de base.
Clubes de futebol, associações de adeptos, jogadores, federações nacionais e adeptos em todo o lado devem ser chamados a posicionar-se — não contra o desporto, mas pela dignidade humana. Trata-se de retirar o consentimento da ilegitimidade e restaurar o significado do jogo. O futebol sempre foi mais do que um jogo. Ele reflete quem somos — e quem escolhemos ser.
Afinal, as pessoas não são adeptos de futebol em primeiro lugar. Elas são seres humanos em primeiro lugar.
A questão agora é simples: a FIFA continuará a servir ao poder — ou revogará o Prémio da Paz e recuperará o jogo para a humanidade?
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