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sábado, 18 de outubro de 2025

RAQUEL VARELA, O CANTO DO MELRO – A VIDA DO PADRE JOSÉ MARTINS JÚNIOR (6)


À hora do almoço, o próprio Martins transportava os homens até ao restaurante da vila, num
Volkswagen «de remissa» que um casal emigrante, natural da Ribeira Seca, lhe deixara emprestado após as férias na Madeira.

Para evitar percalços, munira-se de um documento que lhe permitia conduzir, desde que ao seu lado levasse um condutor encartado. Tudo corria sobre rodas, durante semanas, sem que nada acontecesse.

Até que um dia se deparou com o chefe da polícia em frente à Câmara Municipal. O senhor Moisés mandou-o parar, pediu-lhe a carta, que não tinha. Tinha aprendido a conduzir em África, mas não tinha tirado a carta. Ficou tão arreliado, revoltado, o subchefe Moisés era até pessoa acessível, com quem se dava bem.

Intimado em processo sumário, compareceu no Tribunal de Santa Cruz, às 14 horas, sem sequer ter almoçado. O juiz da comarca, visivelmente embaraçado com o insólito processo, multou-o em 1500$00, uma quantia exorbitante à época, para a qual não estava preparado. Emprestaram-lhos, pagou e, de imediato, dirigiu-se ao Funchal, embalado com este propósito: «Tenho de tirar a carta, hoje mesmo.» Bateu à porta do engenheiro-examinador, disse ao que vinha, deixando-o estupefacto:

— Padre Martins, não sei se isso será possível.

— Mas, senhor engenheiro, tenho homens da Junta Geral a trabalhar na Ribeira Seca e preciso de transportá-los.

— Então, espere por mim na garagem do Campo da Barca.

Lá estava já a viatura do almejado exame, depois chega o examinador, o engenheiro, e o carro roda, roda, uns quinze minutos.

— Afinal, o Padre Martins conduz muito bem — disse-lhe o engenheiro.

Raquel Varela, O canto do melro – A vida do Padre José Martins Júnior – Bertrand 2024, pp 105-106.

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