Certa vez, já estava calor no vale e os dias ficavam mais longos, ouvi um alvoroço. Disseram-me que estava todo o povo a caminho do Funchal. Era o dia 31 de março de 1975. Milhares de agricultores, produtores de cana-de-açúcar de toda a ilha, com o apoio do Centro de Machico, da União do Povo da Madeira, da FEC-ML, organizações da esquerda revolucionária, e dos sindicatos, manifestaram-se nas ruas da cidade e realizaram um grande comício no Jardim Municipal. Exigiam o pagamento de 2$50 por quilo de cana em vez do 1$10, que não se pagasse pelo transporte e que se assistisse ao ato de pesagem — feito nas costas deles até aí.
Seguimos, atrás do acordão, dos cantares e das faixas, até à Fábrica do Torreão. Sem acordo com os patrões, decidiram ocupar a Fábrica da Hinton.
— Portanto, continuamos aqui até o assunto ser resolvido e, se não o for, na próxima semana tomaremos outra atitude.
As bordadeiras, lideradas pela Guida Vieira e a Maria Ganança, também da UDP, começaram também a acompanhar a ocupação. As duas fundaram o Sindicato das Bordadeiras, batendo porta a porta, pelas levadas, afixando anúncios de reuniões nas igrejas. À Maria Ganança, que depois da morte da mãe ficara ainda jovem a cuidar sozinha dos sete irmãos, perguntavam quando ela batia às portas: «É testemunha de Jeová?» «Não, é do sindicato!» — respondia com uma gutural gargalhada.
Sempre que havia uma luta, elas, dos bordados, e eles, os operários da construção civil, apoiavam. Na luta do engenho, eles ficaram à frente da segurança, elas fizeram umas fartas panelas de sopa para ajudar os camponeses. A recompensa era a solidariedade.
— Chegámos a ocupar o local que é hoje o Instituto do Vinho, onde guardavam a aguardente e o álcool. Os camponeses eram vistos, por parte dos reacionários, como uns selvagens que vinham do campo para o Funchal roubar aqueles espaços. Mas, como éramos e somos pessoas de bem, assumimos responsavelmente as nossas obrigações — recordou-me mais tarde a Guida, exímia bordadeira, filha de um estivador anarcossindicalista.
Os bons espíritos encontram-se sempre.
Os camponeses continuaram a ocupar o engenho, cantando e tocando dia e noite, sendo acusados de causar distúrbios no abastecimento de álcool. A distribuição do álcool era, porém, garantida aos hospitais, por decisão dos manifestantes.
— Estamos a defender nós mais os doentes! — disse um.
— Melhores salários, melhor alimentação, melhor higiene. É isso que poupa os hospitais — ouvia-se de outro.
— Dias perdidos, noites mal dormidas, frio, isso é que nos faz doentes — comentava uma camponesa.
A luta endureceu a tal ponto que os manifestantes deixaram o engenho e juntaram-se em maior número diante do Palácio de São Lourenço, de onde Azeredo, escondido por detrás das janelas, mandou a tropa disparar bombas lacrimogéneas sobre a multidão.
O impasse só foi resolvido com um novo acordo para o preço da cana, considerado justo pelos manifestantes. Os trabalhadores voltaram a casa vitoriosos.
Raquel Varela, O canto do melro – A vida do Padre José Martins Júnior – Bertrand 2024, pp 146-147.

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