"Aterrei em Lisboa em maio de 1974, para ver e fazer a revolução. Tinha visto as barracas e a pobreza nas ruas da capital; ao redor do Aeroporto da Portela, o bairro das Galinheiras albergava milhares de seres humanos sem acesso a água potável num país onde a guerra colonial tinha engolido em treze anos 30% do orçamento do Estado, com a bênção da Igreja Católica. Esgotos a céu aberto, uma torneira de água potável para mil e setecentas pessoas, lama em vez de passeios, crianças com fome plasmada nos olhos pequenos e letárgicos. Adultos pequenos, muitos com metro e meio, analfabetos e com falta de dentes. Mesmo vindo do porto de Londres, filho e neto de estivadores, nunca tinha visto miséria assim.
Raquel Varela, O canto do melro – A vida do Padre José Martins Júnior – Bertrand 2024, p 16.

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