por Tiago Franco.
RTP
Sendo democrata convicto e perfeitamente confortável com as escolhas populares, aprendi a respeitar, ao longo dos anos, aquilo que a maioria quer. Até porque, convenhamos, tirando a índole futebolística, em tudo o resto sempre fiz parte de minorias, de forma que conviver com escolhas diferentes sempre foi a regra.
Já desisti, há muito, de combater desinformação, populismo ou a quantidade industrial de lixo propagado nas redes. Do FB ao X, do TikTok ao Instagram. A regra é a mesma. Bots, gajos alucinados ou gente com cérebro, mas sem CV, paga para se sentar atrás de um computador, depois de uma vida sem duas linhas num CV para mostrar, a martelar propaganda a favor de uma empresa, lobby, partido ou movimento. É o emprego deste século.
A quantidade de inúteis que nunca conseguiram fazer algo de jeito (mas que são estúpidos o suficiente para escrever esse nada no LinkedIn) e que procuram, na lambidela do escroto alheio, uma forma de subsistência é largamente assustadora.
Já não bastam as hordas de influencers que querem explicar a arte de viver sem dominar a arte de conjugar verbos. Agora vem essa espécie rara de consultores de comunicação, que são bots de carne e osso e que repetem, por mais atroz que seja, o discurso de quem lhes paga.
Em tempos, achei que valia a pena perder tempo a debater, quase um a um, com quem se radicalizou e abraçou a ignorância. Sim, ignorância aqui é a palavra. Se vivemos um momento histórico exatamente igual ao que os vossos professores vos explicaram no secundário e, mesmo assim, preferem fingir que é outra coisa qualquer, pois é de ignorância que estamos a falar. Ensina-se na minha área que não se repete a mesma experiência esperando resultados diferentes.
De modo que, já meio velho, com filhos a atingir a maioridade e uma vida profissional que me leva à pele, sinto que atingi o limite da sarna e não estou para me chatear. Prefiro a postura de espectador. Gosto de ouvir reclamações de pobres contra o RSI dos ciganos, seguidas de votos na extrema-direita, seguidas de mais gritos porque, afinal, não foram só os ciganos que ficaram sem RSI. E, claro, tenho sempre um balde de pipocas por perto.
Ainda assim, sem me querer meter nas lutas de barricadas, há um limite para a estupidez da propaganda e dos serviços encomendados. Julgo que o novo máximo foi estabelecido com as críticas à flotilha e, em particular, à Mariana Mortágua.
Vamos por partes, porque eu gosto de clareza no discurso e gosto ainda mais de não ter medo das palavras. A Mariana Mortágua, ou o Bloco de Esquerda, não são os receptores do meu voto (por esta altura, já todos sabemos o tom do meu vermelho, não é?) e, no entanto, ela, enquanto política, é alguém que admiro profundamente. Desde os tempos da comissão do BES, para ser mais preciso. Achei-a uma excelente deputada que, enquanto líder, cometeu erros de programa que eram mais ou menos óbvios. Dito isto, a iniciativa de se juntar à flotilha foi, não só, de uma enorme coragem como muito bem pensada do ponto de vista político. Por quê? Ora, vam'lá a ver.
Desde logo, porque trouxe Gaza para as discussões diárias e marcou a agenda política. Algo que não conseguiria fazer como deputada única e muito menos em período de autárquicas, onde o BE não é particularmente relevante. Basta ver a quantidade de monos, apoiantes do genocídio, que começaram a referir-se à flotilha como "flopilha" e aos ativistas como "ativistas fri fri". Foram essencialmente os mesmos pés de microfone que, durante a pandemia, escreviam "fraudemia" e hoje se referem aos jornalistas como "jornalixo". No fundo, aquela malta que pula confusa entre a ala mais radical do PSD e a ala de gajos que não se babam do ADN, apanhando tudo o que fica pelo meio.
Do escárnio com as condições climatéricas, as paragens nas ilhas espanholas ou a quantidade de comida a bordo, tudo se discutiu. Criaram-se imagens falsas de festas e mariscadas. Ventura nunca falou tanto de Gaza; Nuno Melo disse que os ativistas eram apoiantes do Hamas; e Rangel, esse pigmeu com voz de canário, elogiou o profissionalismo do exército genocida. Gente que nunca passou de Vila Real de Santo António comparava os problemas de Gaza com as estradas esburacadas do Algueirão. Foi um maná de estupidez, ignorância e desprezo pelo sofrimento de um povo que já anda nisto há quase 80 anos.
Todos sabíamos que as IDF nunca deixariam a flotilha chegar a Gaza. Ainda assim, ao contrário da maior parte de nós, Mariana Mortágua escolheu, mais do que estar do lado certo da história, fazer algo por esse lado. E, como ela, mais 500 pessoas de dezenas de países fizeram o mesmo, dando eco a uma luta que já é de milhões por todo o mundo. Sim, milhões. Já há milhões de pessoas decentes, um pouco por todo o mundo, que vão às ruas gritar pelo fim da chacina de crianças inocentes em Gaza.
De milhões, poucas centenas dão um passo maior e metem-se nas mãos de um exército de assassinos para chamar atenção para a causa. A Mariana foi uma dessas pessoas. Os outros, que pagam a companhias de bots ou a nulidades humanas para lhes fazerem o trabalho sujo da propaganda, enfim, serão apenas aqueles pontos negros na história de quem ninguém se lembrará quando a recente onda de fascistas for, novamente, varrida.
A história repete-se, lembrem-se: primeiro a pobreza e a corrupção, depois o bode expiatório. Em seguida, aparece o homem que tudo limpará e, quando dás pela coisa, vives num regime ditatorial. A malta aborrece-se e percebe que, afinal, continua pobre, mas fala menos. Uns quantos organizam-se, levam umas castanhadas e partem a cadeira que for preciso. Depois, vamos todos para a rua gritar pela liberdade e dizer que nunca mais.
A Mariana fez a parte dela para evitar males maiores. Da minha parte, obrigado.

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