O israelita Elad Kaspin e o palestiniano Khalid Mansour são os dois principais alicerces de um novo negócio que, a partir do Baixo Alentejo, e desde 2020, explora o potencial do cânhamo cultivado para fins industriais como matéria-prima de blocos, alternativos aos vulgares tijolos, com vantagens já estudadas em termos de isolamento térmico e acústico e no ambiente interior das habitações.
Com um crescimento rápido e uma capacidade de absorção de
carbono e de melhoramento dos solos já reconhecida cientificamente, o cânhamo
pode ajudar a baixar drasticamente as emissões, ao ser usado para “produzir”
algo que melhora o comportamento térmico e acústico do edificado. Isto além de
outros benefícios, na qualidade do ar interior e na regulação da humidade,
apontados por estudos científicos.
O sistema produtivo do “betão” LHC (light hemp concrete),
que inclui a mistura com um ligante à base de cal hidráulica natural, e
prensagem e secagem sem recurso a fontes artificiais de calor, garante um
processo quase neutro em emissões. Processo esse que se torna negativo, pois,
nota a Comissão Europeia, “um hectare cultivado com cânhamo armazena entre 9 e
15 toneladas de CO2”
A fábrica-piloto, instalada em Colos, Odemira, começou em
Novembro de 2021 a fabricar os primeiros blocos, que já foram usados em mais de
40 construções. Dezenas de outras aguardam licenciamento e a empresa está a
participar, com o seu material e conhecimento, em concursos para a construção
de habitações a custos controlados, no âmbito do Plano de Recuperação e
Resiliência.
Pela sua menor condutividade térmica e grande absorção
acústica, os blocos estão a ser usados em paredes simples (em vez de parede
dupla com isolamento), o que permite poupanças quer no tempo, quer nos custos
de construção.
Com um investimento de 15 milhões de euros suportado, em parte,
por fundos do Portugal 2030, e com apoio do município de Ourique, que lhes
cedeu o terreno, a Cânhamor vai mudar-se para Garvão. Com ela, os seus
responsáveis esperam passar de 13 para 30 funcionários e impulsionar a produção
de blocos a partir de cânhamo cultivado na região. Neste momento, mesmo tendo
já testado o cultivo em 20 hectares, a empresa depende essencialmente de palha
importada de França – o maior produtor europeu de Cannabis sativa.
Refira-se que, em Portugal, o cânhamo já foi usado, durante séculos, para produzir cordas e cabos de navegação, mas é hoje uma cultura relativamente esquecida no país.
Abel Coentrão, Público.

Sem comentários:
Enviar um comentário