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sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

BICO CALADO

Alexas_Fotos / Pixabay

  • “(...) Quando te dizem que tens dez minutos para escrever dez mil caracteres, não és livre. Estas velocidades infernais não servem para nada. Por outro lado, os jornalistas tornaram-se passadores de recados. Desconfiam dos políticos, mas publicam os recados todos que a magistratura e a polícia querem fazer passar sobre os políticos. Isto faz-me impressão, talvez por ter sido presa política. A meu ver, isto não é liberdade. (…) Os jornalistas aceitam coisas que não deveriam, em vez de as questionar. Têm essa obrigação, mas não o fazem. Têm tanto medo que não podem ser livres. Um jornalista que hesita em publicar algo vê-se ser ultrapassado pelo que não teve nenhum problema em o fazer. Depois, saem notícias incorretas, falsas ou sem contraditório. (...) a nossa imprensa é pouco livre. O resultado é visível: metemos os jornais ao lado uns dos outros e parece que são iguais. Havia um tempo em que eu dizia que a Lusa escrevia os jornais todos e os editores inventavam títulos diferentes. As notícias são as mesmas. É comum fazer zapping na televisão à hora do noticiário e ouvir a mesma notícia repetida em todos os canais. Isto não me parece uma imprensa muito livre. São agendas pré-determinadas por questões de marketing, de política. (... ) Nós, jornalistas, não nos apercebemos disto: se não tens contexto, tudo passa a ser uma ameaça. Remeteram-se as explicações para uns senhores que nasceram agora, não sei de onde, que não sabem nada mas são chamados de especialistas e analistas. O seu papel é manter e alimentar um pensamento único. (...) Desde que dou aulas que pergunto, no início do ano letivo, quem quer ir para a imprensa, para a rádio e para a televisão. Muitos queriam ir para a televisão. E eu juro que não é perseguição minha, mas eram os que tinham piores resultados nas provas. Julgavam que a televisão é uma coisa que se faz com um bom palminho de cara e uma voz decente. Mas a televisão é muito mais trabalhosa que a imprensa, porque é, simultaneamente, texto, imagem e som. (...) Nunca achei que deveria haver licenciaturas de jornalismo. As pessoas deveriam formar-se em Direito, em História, em Antropologia, em Medicina, e depois num mestrado aprenderiam as técnicas do jornalismo. Fariam jornalismo sabendo alguma coisa. Em vez disso, os jornalistas de hoje acham que sabem tudo sobre tudo — principalmente os de televisão — quando são tremendamente ignorantes sobre uma série de coisas. Isso está a minar a nossa democracia. Consciente ou inconscientemente, os jornalistas de hoje promovem um tipo de informação que manipula o público. Os noticiários com ecrãs divididos em quadrados, as imagens repetidas, os diversos oráculos com frases sempre a passar têm efeitos psicológicos nas pessoas. Promovem a desconcentração, porque não há tempo para refletir. O telespectador é confrontado com tanta informação que fica desarmado. O analfabetismo funcional no nosso país é, infelizmente, muito alto. Há uma população envelhecida que não tem literacia mediática, especialmente para o digital. Tudo isto é perigoso. Estamos a fomentar o medo e a imposição de um regime de força, de um líder forte que traga ordem ao caos. Ora, um regime de força, sabemo-lo bem, rebentará com aquilo que é a nossa base, a liberdade de imprensa. A atitude dos jornalistas tem algo de suicida. (…) Ninguém vai para o jornalismo porque quer ser rico, mas porque acredita que informar é bom para o povo e importante para a democracia, porque se vai denunciar o que está errado. Mas a formação ética é negligenciada. Há que respeitar o outro, ou acabamos desrespeitados. É aí que começa a descredibilização da profissão, e a culpa não é do estagiário. É do editor, é do diretor. Andamos a disparar nos nossos próprios pés e podemos estar a abrir caminho para o fim da democracia. No momento em que um jornalista é agredido, todos os seus camaradas se devem retirar de imediato e não há notícia sobre isso. Houve um tempo em que isto seria evidente. Quando esteve cá um presidente norte-americano, a RTP foi fazer reportagem. Deixaram entrar primeiro os jornalistas norte-americanos. Eu protestei e imediatamente todos os fotojornalistas portugueses baixaram as câmaras e disseram que não faziam imagem. Noutra vez, houve uma conferência de imprensa de Henry Kissinger ali no aeroporto. Fui escalada para lhe fazer duas ou três perguntas. Faço a primeira pergunta e Kissinger ignora-me e passa a palavra a um jornalista norte-americano, que diz: "a minha pergunta é a da jornalista portuguesa a que o senhor não respondeu". Ele passa para um segundo jornalista norte-americano, e leva a mesma resposta. Passa para um terceiro e ele responde-lhe o mesmo. Isto era o que se fazia quando ainda nos chamávamos camaradas uns aos outros.” DIANA ANDRINGA entrevistada por João Biscaia - setenta e quatro.
  •  A Força Aérea Real bombardeou o Iémen em 15 dos últimos 100 anos. Nove primeiros-ministros diferentes estavam no cargo durante estes ataques aéreos, tanto Conservadores como Trabalhistas. Rishi Sunak é o nono primeiro-ministro do Reino Unido a bombardear o Iémen pelo ar. Os outros foram: Harold Wilson, Trabalhista 1964-66, Alec Douglas-Home, Conservador 1964, Harold Macmillan, Conservador 1957-58, Anthony Eden, Conservador 1955-57, Winston Churchill, Conservador 1954-55,Clement Attlee, Trabalhista 1947-49, Ramsay MacDonald, Trabahista 1934 e Stanley Baldwin, Conservador 1928-29. PHIL MILLER, Declassified UK.
  • O Canal de Suez não é o único ponto de estrangulamento que ameaça perturbar as cadeias de abastecimento globais. Com o Canal do Panamá em seca e o Estreito de Ormuz também vulnerável ao Irão, as rotas comerciais globais estão sob forte pressão. Sarah Schiffling e Matthew Tickle,  The Conversation.
  • “(...) mais de 100 jornalistas já foram assassinados por Israel na Faixa de Gaza e no Sul do Líbano nos últimos quatro meses. Mais de 50 edifícios de meios de comunicação social foram parcial ou totalmente destruídos pelas forças israelitas. (...) Onde está a indignação internacional? É um muro de silêncio. (...) Quando a verdade é substituída pelo silêncio, o silêncio é uma mentira. (...) Quando os jornalistas se recusam a replicar a propaganda de Israel, são pressionados e ameaçados com despedimentos. Se não se vergam, são despedidos. (...) Os jornalistas palestinianos têm sido o verdadeiro contraponto ao consenso fabricado que nos tentam impor. Por isso são assassinados por um Estado de apartheid que há décadas age à margem da lei internacional (...) Os políticos israelitas nem o tentam esconder, chegam até a dizer publicamente que os jornalistas são alvos legítimos. Houve até jornalistas portugueses a replicar cá esse discurso, uma vergonha, até se lhes poderia chamar traidores de classe. Mas as suas mentiras têm sido desmascaradas e o mundo está com os olhos bem abertos por causa dos jornalistas palestinianos. Os jornalistas palestinianos incorporam o verdadeiro espírito do jornalismo: contam as verdades, que são sempre subversivas.” Setenta & quatro.

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