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domingo, 20 de novembro de 2022

Bico calado

  • «Sepp Blatter, ex-presidente da FIFA, banido por corrupção, contou há poucos dias o seguinte a um grupo de media suíço, a propósito da escolha do Catar 2022: “Michel Platini ligou-me a contar que tinha sido convidado a ir ao Eliseu falar com o presidente Sarkozy, que tinha acabado de almoçar com o príncipe herdeiro do Catar”. Segundo o jornal ‘France Football’ Sarkozy terá dito a Platini: “veja o que o pode fazer com os seus colegas pelo Catar”. Platini era então presidente da UEFA e disse a Blatter, que seria formalmente responsável pela escolha: “Sepp, o que é que você faria se o seu presidente lhe pedisse alguma coisa ?” Seguiram-se trocas de milhões de dólares entre ambos. Antes de ser também ele afastado por corrupção, Platini garantiu o serviço. “Graças aos seus 4 votos o Mundial 2022 foi para o Catar”, confirma Blatter, que agora se diz arrependido. Poucos meses depois da decisão, o Catar comprou à França aviōes de combate no valor de 14,6 mil milhões de dólares. » CarlosVargas.
  • A iniciativa Ukraine-FTX afirma ter angariado 60 milhões de dólares para Kiev, mas para onde foi o dinheiro? O governo ucraniano fez desaparecer misteriosamente registos em linha do seu acordo de angariação de fundos com o esquema de criptografia FTX poucos dias antes de o escândalo emergir. KIT KLARENBERG, The Grayzone.

  • «Em 1897, fazendo a cobertura da Campanha de Tirah, na Índia, como correspondente do The Daily Telegraph, Churchill descrevera os efeitos das balas dumdum: "O poder da nova espingarda Lee-Metford com a nova bala DumDum, chamada, não oficialmente, de ‘ek-dum’ é tremendo (...) Da bala pode dizer-se, que o seu poder de parada é tudo o que se poderia desejar. A bala ‘ek-dum’, embora não seja explosiva, é expansiva (...) O resultado é uma máquina maravilhosa e, do ponto de vista técnico, uma bela máquina. Ao atingir um osso, faz com que a bala ‘se instale’ ou se espalhe, e depois rasgue e estilhace tudo à volta, causando feridas que no corpo serão geralmente mortais e, num membro, exigindo amputação’As balas Dumdum já tinham sido utilizadas pelas tropas de Kitchener na Batalha de Omdurman, em 1898, onde Churchill estava presente para registar os seus efeitos: "Batalhão após batalhão (...) a divisão britânica começou a disparar. (...) Os cartuchos vazios, tilintando para o chão, formavam pequenos mas crescentes montes ao lado de cada homem. E durante todo esse tempo, do outro lado da planície, balas rasgavam a carne, esmagando e estilhaçando ossos; sangue golfava de feridas terríveis; homens valentes lutavam através de um inferno de metal sibilante, projéteis que explodiam e poeira que cuspiam - sofrendo, desesperando, morrendo’. Apesar da opinião dos juristas ocidentais sobre o direito internacional e os impérios europeus, a Grã-Bretanha estava suficientemente preocupada sobre a jurisdição da convenção que recusou adoptar a proibição de balas dumdum na Conerência de Haia de 1899. Foi o único Estado, além do Luxemburgo, que não assinou a proibição. Concepções de ‘civilizado" e "não civilizado’ informaram a lógica britânica: um oficial médico sénior do exército enfatizou como as balas convencionais atravessavam frequentemente o corpo. “Como regra, quando um 'homem branco' é ferido [por uma bala tão convencional] isso basta-lhe para se sentir pronto a abandonar as fileiras e recuar; mas o selvagem, como o tigre, não é tão impressionável, e continuará a lutar mesmo quando estiver desesperadamente ferido". Variações das balas dumdum tinham sido usadas na caça grossa, e os "selvagens" do império eram abatidos como rinocerontes e elefantes. A reação internacional contra a rejeição britânica da proibição da dumdum foi severa, e a Grã-Bretanha acabou por concordar em 1902 em deixar de usar essas balas, embora as forças coloniais continuassem a usá-las oficiosamente no império, pelo menos durante a década de 1930.» Caroline Elkins, Legacy of Violence – a History of the British Empire. The Bodley Hed/Penguin 2022, pp 106-107.

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