Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Bico calado

  • «No espaço de dois meses, o governo de Salazar criou formalmente, pela mão do ministro do Ultramar, Adriano Moreira, dois campos de concentração, eufemisticamente denominados "campos de trabalho":

1 A Portaria n.º 18539, de 17 de junho de 1961, que reabriu na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, o Campo de Concentração do Tarrafal, agora designado como campo de trabalho de Chão Bom (cuja localização não vem identificada para além do nome), assegurando o seu funcionamento com servidores dos "quadros da Província de Angola";

2 A Portaria n.º 18702, de 24 de agosto de 1961, institui "na Província de Angola", o campo de trabalho de Missombo, cujo quadro de pessoal comportava 105 unidades.» Memorial2019.

  • «Os mortos merecem respeito e a verdade também. Que Adriano Moreira descanse em paz sim, enquanto por aqui lutamos pela história. O ministro de Salazar foi um fascista, colonialista, propagandista do luso tropicalismo. Mandou reabrir o campo de concentração Tarrafal em Cabo Verde e o campo de São Nicolau em Angola, no qual se prendiam os militantes dos movimentos de libertação das ex-colónias. A seguir ao 25 de Abril, pirou-se se de Portugal. (...) enquanto este “ministro do ultramar” reforçava o estado novo, noutras bandas já se atingia a independência de muitos países ocupados por potências europeias. Adriano Moreira não se converteu à democracia. Negou-a, atrasou-se, fugiu dela, disfarçou e, nas últimas décadas, calou. Jamais mostrou qualquer arrependimento pelos seus actos, tão pouco pediu perdão às vítimas. Preferiu o silêncio sujo e chegou mesmo a vangloriar-se do que fez. Limitou-se a adaptar-se ao regime democrático para melhor sobrevier. E lá isso conseguiu. Basta ver as hagiografias que já estão na forja para o confirmar. Hoje há um outro funeral a acontecer - o do pensamento crítico e livre. Algum dia voltará dos mortos?» Joana Amaral Dias.
  • "Rishi Sunak poderia ser um grande primeiro-ministro. Essa possibilidade não pode ser negada. Mas a probabilidade de ele vir a ser é muito pequena. A história não mostra que muitos primeiros-ministros nomeados a médio prazo, tendo o seu antecessor falhado, se tenham revelado grandes. Sunak tem dois antecessores falhados. Isso não é bom. Que Sunak esteja aterrorizado com o papel que está a assumir, não ajuda. Como é que eu sei que ele está aterrorizado? Primeiro, ele não falou com ninguém durante esta campanha, nem mesmo com deputados. Segundo, o seu discurso ontem na sede dos Conservadores foi tão seco como tudo o que Truss fez. Ele já está esmagado. Terceiro, as questões que ele tem de abordar justificam ele sentir-se esmagado, dada a quase impossibilidade de apaziguar os seus apaniguados. Esses problemas poderiam ser resolvidos, mas não por um Conservador. (....) Sunak não poderia ter sido mais bem preparado para falhar. E suspeito que ele irá falhar. Mas não será porque os problemas deste país não possam ser resolvidos. Podem ser, mas não por um Conservador manietado por esse partido enquanto ele estiver subjugado pelos mercados e pelo Banco de Inglaterra. A tarefa de Sunak é impossível devido aos constrangimentos impostos a ele e àqueles que ele escolheu. E todos pagaremos um preço enorme por isso". Richard Murphy, Tax Research UK.
  • A França tem a quarta maior reserva de ouro de 2,436 toneladas, sem uma única mina de ouro em França. O Mali, que foi ocupado pela França, não tem quaisquer reservas de ouro nos seus bancos, embora tenha 860 minas de ouro e produza 50 toneladas por ano! Como é que a França conseguiu todo esse ouro? Fonte.

  • «Nestas reuniões o Ministro dos Negócios Estrangeiros Douglas-Home disse a Amin que 'ajudaríamos o melhor que pudéssemos' em apoio militar e económico e com o treino de tropas, embora o fornecimento de jatos Harrier fosse demasiado caro para o Uganda. Foi assinado um contrato de 2 milhões de libras esterlinas para o fornecimento de 26 Saladins e 6 veículos blindados Saracen. O Daily Telegraph escrevia num editorial que o General Amin era "um amigo ferrenho da Grã-Bretanha ... O seu pedido para a compra de equipamento para a reconstrução das defesas do Uganda merece a mais simpática consideração sob todos os pontos de vista". Estes acordos de julho com os militares ugandeses foram assinados enquanto centenas de soldados estavam a ser massacrados pelas tropas de Amin no Uganda. Os assassinatos ocorreram em numerosos quartéis em todo o Uganda", escreveu um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros no mês seguinte. "Um grande número de oficiais e homens, em particular das tribos Acholi e Langi (os associados ao Dr. Obote) foram mortos". Três dias depois desta nota, a 16 de agosto, outro funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros escrevia: "Do ponto de vista dos interesses britânicos, o regime do General Amin tem-nos servido bem até agora. Ele está contente com a Grã-Bretanha ... e o seu golpe removeu um dos nossos mais amargos críticos africanos. Já fizemos muito para ajudar no estabelecimento e reconhecimento do seu regime e estamos a fazer o que podemos para o ajudar a ultrapassar as suas atuais dificuldades"Mark Curtis, Unpeople, Britain’s secret human rights abuses – Vintage 2004, p 254.

Sem comentários: