- «Era com efeito nítido que os jornalistas chegavam ao teatro da Bósnia já com ideias feitas e um ângulo de reportagem pré-determinado, e com uma agenda muito circunscrita – e no fundamental ajustada aos objetivos dos respetivos governos. Muitos traziam ordens estritas dos respetivos editores para darem uma orientação pré-estabelecida aos seus escritos. Em privado, alguns chegaram mesmo a confessar que tinham sido impedidos ou desaconselhados pelas respetivas redações de cobrirem notícias de massacres de sérvios, ou mesmo ameaçados de ‘saneamento’ só porque os seus despachos deixavam por vezes trair algumas dúvidas quanto à versão pré-encomendada do conflito. Na maior parte dos casos a pressão dos editores nem seria sequer necessária. Numa época de incerteza, inclusive no plano laboral, a questão da sobrevivência coloca-se a cada passo nesta profissão. A tentação de ‘jogar pelo seguro’, do ‘Maria vai com as outras’, o medo de destoar, de não estar in com a corrente do momento é demasiado irresistível. Mesmo numa pausa do trabalho, à mesa do restaurante ou do bar do Holliday Inn, nas conversas entre jornalistas qualquer um que ousasse pôr minimamente em causa a versão adotada dos acontecimentos significa [sic] incorrer no risco de se ver ostracizado pela confraria. Revendo os anos que passou à cabeça da Forpronu em Sarajevo, o general Michael Rose não se coibiu de manifestar o seu espanto perante a forma como ‘uma parte considerável dos elementos da imprensa na Bósnia se tornaram conscientemente parte da máquina de propaganda pelo governo da Bósnia.’ E a explicação mais clara do comportamento dos media no conflito estaria talvez no desabafo dado pelo enviado de uma revista americana: ‘A política do governo americano, e a própria opinião pública exigem uma versão simples e clara dos acontecimentos. É preciso um ‘bom’ e um ‘mau’, uma ‘vítima’ e um agressor’. Quaisquer análises mais sofisticadas viriam baralhar o público e arriscava-se a pôr em causa a política da Administração em relação ao conflito.» Carlos Santos Pereira, Guerras da Informação: Militares e Media em Cenários de Crise – Tribuna da História 2005, pp 151-152.
- "Israel diz sempre que é uma democracia. O governo diz sempre que somos a única democracia no Médio Oriente e que somos parte do Ocidente. Mas, em termos reais, não somos uma democracia com a ocupação, e somos apenas parte do Ocidente quando nos convém". Alon Liel, antigo director-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita. Fonte.
- «Em fevereiro de 1971, Amin tinha 'concentrado nas suas mãos todos os poderes do Parlamento e do antigo Presidente', observava o Alto Comissariado Britânico em Kampala. (…) A reação britânica era elucidativa. Um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros escreveu que "gostaria que um período de governo livre de toda a política, se essa for de facto uma possibilidade genuína, fosse desejável". O funcionário prosseguiu, contudo, dizendo que a "suspensão completa" da política durante dois anos era "desnecessária", antes de acrescentar: "Reconheço declaradamente que demasiada democracia num país como o Uganda na fase atual pode ser tão fatal como um grau demasiado grande de autoritarismo. O que parece ser necessário num futuro previsível é um equilíbrio realista entre um governo firme e, de facto, autoritário, e algum grau de expressão democrática. Creio que o Uganda não precisa de um governo necessariamente democrático, mas é importante que o governo seja representativo e justo, e também firme". Com o poder concentrado nas mãos de Amin e políticos recomendando um governo 'autoritário', o regime ugandês abordou a Grã-Bretanha em busca de armas. "Os carros blindados podem avançar. O avião Strikemaster 'OK. Talvez Harriers', escreveu Eric le Tocq, do Ministério dos Negócios Estrangeiros. A política britânica, disse ele, deveria ser a de mostrar vontade de fornecer armas para impedir os ugandeses de irem buscá-las a outro lado, mas também para os desencorajar de compras que fossem 'demasiado ambiciosas, militarmente, técnica ou financeiramente".» Mark Curtis, Unpeople, Britain’s secret human rights abuses – Vintage 2004, p 252.


Sem comentários:
Enviar um comentário