quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Reflexão – No Reino Unido, dizem aos agentes do Ambiente para ignorar os alertas do público

Dizem aos agentes para ignorarem as chamadas do público e que não olhem para possíveis incidentes se o autor da chamada achar que têm menor impacto, o que significa que se enquadram na chamada categoria 3 ou 4. Isto deixa o pessoal "desmoralizado", diz Helen Nightingale, uma gestora de bacias hidrográficas no noroeste de Lancashire, que deixou a Agência do Ambiente em abril. Assim que um rio é contaminado, torna-se mais difícil ele sofrer uma ocorrência grave.

Entre 2010 e 2021, o orçamento anual da agência para a fiscalização e execução caiu de 11,6 milhões de libras para 7 milhões de libras. Sem pessoal para sair e analisar estes incidentes, a Agência do Ambiente conta com o público para reportar com precisão o impacto. “Mas o público em geral não é especialista", diz Helen.

Os agentes continuarão a sair e a analisar ocorrências mais raras de categoria 1 e 2 - tais como as algas azuis-esverdeadas que atualmente alcatifam o Lago Windermere - que são considerados como tendo um impacto maior ou significativo sobre o ambiente. Dados do Sistema Nacional de Registo de Incidentes mostram que em 2021 foram reportados 116.000 incidentes potenciais, e apenas 8.000 foram atendidos.

"Se você telefonar e comunicar uma categoria 3 e alguém no centro de chamadas disser que não vamos confirmar, você não vai continuar a telefonar porque sente que está a perder o seu tempo. Portanto, estamos a receber cada vez menos provas do que se passa nos rios", diz Nightingale. Um exemplo de uma categoria 3 poderia ser um "derrame de petróleo ou esgoto de 2 Kms num rio".

Para além de conseguir que o público comunique, a Agência do Ambiente conta com as empresas de água para se policiarem a si mesmas. "Estão a subnotificar, a subclassificar, a tentar resolver a situação antes que alguém lá chegue, e como empresas privadas fazem isso", diz ela. Os bónus pagos aos executivos das companhias de água aumentaram 20% no ano passado, com o executivo médio a receber um pagamento único de 100.000 libras, para além dos seus salários.

Quando Nightingale começou a trabalhar, há 31 anos, ela estava quase sempre fora do gabinete. Agora os agentes do ambiente saem do gabinete o máximo um dia por semana, com alguns a "saírem sorrateiramente" com mais frequência. "É deprimente, é completamente desmoralizador... Posso fazer mais bem ambiental no meu quintal do que quando estava a trabalhar agora no fim", diz Nightingale, que acredita que os rios são "apenas omitidos" porque se diz aos funcionários que só devem olhar para os incidentes depois de estes se tornarem graves ou muito graves.

Há muita gente a sair, o ministério do Ambiente não consegue recrutar pessoas suficientes para preencher as lacunas, com muitos a sentirem-se realmente desmotivados. "É triste que as pessoas não estejam a ser autorizadas a fazer o trabalho... Recebemos as críticas e não somos capazes de nos defendermos e dizer 'é por isso que está a acontecer', só temos de assumir as críticas".

Há mais de 870 canos de descarga illegal de esgotos em todo o Reino Unido, o que significa que as empresas de água podem estar a utilizá-los para despejar ilegalmente esgotos não tratados. Cúmulo dos cúmulos, foi detetada poluição fecal na praia de Ryde, na Ilha de Wight, 40 vezes superior ao habitual, quando a praia era classificada como tendo uma "excelente" qualidade de água. Para não falar de sensors de esgotos em destinos populares à beira-mar que não estão a funcionar ou não estão instalados.

Phoebe Weston, The Guardian.

Sem comentários: