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sábado, 8 de janeiro de 2022

Bico calado

  • A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher é frequentemente elogiada no Reino Unido por ter feito frente à junta militar argentina durante a Guerra das Malvinas, mas documentos britânicos desclassificados mostram que o seu governo tinha relações muito mais cordiais com este regime do que sugere a sua retórica em tempo de guerra. Ministros e diplomatas britânicos procuraram melhorar as relações comerciais e políticas com a ditadura argentina que tomou o poder em Buenos Aires num golpe militar em março de 1976. A então primeira-ministra, Margaret Thatcher, teve uma reunião amigável com um membro da junta em Downing Street, em 1980, enquanto o embaixador britânico na Argentina considerava a promoção dos direitos humanos como uma "irritação". O governo britânico até convidou para Londres o antigo chefe da Marinha argentina, que foi responsável pela tortura e desaparecimento de milhares de pessoas em Buenos Aires. Considerando a exportação de armas para a junta militar como uma prioridade, o governo Thatcher violou as suas próprias diretrizes sobre a venda de armas, aprovando licenças para armas que poderiam ser utilizadas para repressão interna e que constituíam uma ameaça para as Ilhas Malvinas. Apenas quatro dias antes da invasão argentina das Malvinas em abril de 1982, o governo britânico estava a tentar vender aviões bombardeiros à Argentina. Aliás, tanto o governo de Thatcher como os governos trabalhistas de Harold Wilson e James Callaghan (1974-79) venderam armas à ditadura argentina. A escala das atrocidades cometidas pelo governo militar argentino de 1976-83 foi maior do que qualquer ditadura sul-americana. Milhares de pessoas foram torturadas em centros de detenção secretos, os seus corpos atirados para valas comuns ou atirados de helicópteros militares para o Oceano Atlântico.  Uma comissão da verdade documentou 8.960 casos de pessoas que simplesmente "desapareceram"; grupos argentinos de direitos humanos acreditam que o número pode chegar a 30.000. O Foreign & Commonwealth Office britânico tinha provas de abusos perpetrados nos meses seguintes ao golpe de 1976. Quando Thatcher foi eleita em 1979, a natureza bárbara da junta era claramente conhecida em todo o mundo. Porém, o seu governo restabeleceu imediatamente um embaixador britânico em Buenos Aires e pôs fim a um programa de refugiados para latino-americanos que fugiam da perseguição, que tinha sido introduzido pelo anterior governo trabalhista de James Callaghan. O ministro das finanças da junta, José Martínez de Hoz, foi convidado a encontrar-se com Thatcher na Downing Street no dia 5 de junho de 1980. Martínez de Hoz foi o arquiteto da estratégia económica de "mercado livre" do regime e era um grande admirador do Thatcherism. Martínez de Hoz teve também uma reunião cordial com os ministros conservadores do comércio Cecil Parkinson e John Nott, o que foi "um grande encontro de mentes".   Entretanto, o Ministro das finanças Geoffrey Howe , disse a Martínez de Hoz, que representava um regime que tinha proibido os sindicatos independentes e matado centenas de delegados sindicais, que "no Reino Unido, os sindicatos tinham-se tornado um dos maiores fossilizadores da economia".  No total, Martínez de Hoz fez quatro visitas ao Reino Unido durante os anos da ditadura, tanto durante governos trabalhistsa como conservadoesr. Foi saudado por executivos empresariais britânicos, incluindo representantes da British Aerospace (agora BAE), GEC, Shell, Rolls-Royce e Plessey.  Foi também incensado por diplomatas britânicos. O Encarregado de Negócios britânico em Buenos Aires descreveu Martínez de Hoz como "a personalidade mais estimulante e atraente produzida pela Argentina desde a guerra". Martínez de Hoz demitiu-se em 1981 após a sua política ter provocado uma das piores crises financeiras da história moderna da Argentina. Após a queda da ditadura, foi acusado de violações dos direitos humanos. Detido sob acusações de rapto e extorsão em 2010, morreu em prisão domiciliária em 2013. O novo embaixador britânico, Anthony Williams, que chegou a Buenos Aires em Fevereiro de 1980, escreveu num dos seus primeiros relatórios diplomáticos: "A Argentina é um mercado muito interessante, como os homens de negócios britânicos estão a aperceber-se".  Mais tarde, acrescentou: "Cinco anos de administração militar sóbria fizeram da Argentina um país muito mais fácil de lidar". Mas lamentou que, "a necessidade de ser mais ativo naquestão dos direitos humanos para satisfazer a opinião pública e parlamentar no Reino Unido será ainda uma irritação contínua, embora menor".  GRACE LIVINGSTONE, Declassified UK.

  • O Coronel Doug Macgregor, um ex-conselheiro do Pentágono, sobre a forma como o lóbi militar dos EUA alimenta o conflito da Ucrânia à Síria. Washington, DC, diz ele, é "território ocupado. É ocupado por corporações, por lóbis". Douglas Macgregor, um coronel reformado do Exército dos EUA e antigo conselheiro superior do Pentágono, analisa o impasse EUA-Rússia na Ucrânia; o rescaldo da retirada dos EUA do Afeganistão; a incapacidade de Trump de agir sobre a retórica anti-intervencionista da campanha de 2016, apenas para se rodear de neocons; e a contínua e negligenciada ocupação militar dos EUA na Síria após a guerra suja da CIA, que durou uma década. "O complexo industrial militar do Congresso", diz Macgregor, "parece ser mais poderoso do que qualquer pessoa que ocupa o cargo da presidência". AARON MATÉ, The Grayzone.

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