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quarta-feira, 14 de abril de 2021

Bico calado

«Um setor onde o regime de Karimov era protegido mercê da sua aliança com os Estados Unidos era o narcotráfico. Os Estados Unidos, a Alemanha e o Reino Unido bilateralmente, e a ONU e a União Europeia, todos investiram dinheiro no controlo dos narcóticos. Em Termez, onde a Ponte da Amizade ligo o país ao Afeganistão, forneceram à alfândega usbeque todas as tecnologias modernas, desde cães farejadores a raios X gigantes que podem examinar um contentor inteiro. Os veículos de auxílio das Nações Unidas ficam por vezes retidos durante semanas nesta fronteira, à espera de entrar no Afeganistão. Mas se se fica lá durante algum tempo, começa-se a reparar nos comboios da Mercedes com vidros escuros e de camiões militares de seis toneladas que são conduzidos para uma pista à volta das instalações aduaneiras e que nunca param. Eles transportam 40 por cento da produção de heroína do Afeganistão. A maior parte é depois acomodada em fardos de algodão e enviada para o Báltico, em Riga e São Petersburgo, para ser enviada para a Europa. O fim deste comércio afegão é controlado pelo General Dostum, o líder da Aliança do Norte, apoiada pelos EUA, que fez a maior parte da ocupação do território contra os Talibãs, logo a seguir ao bombardeamento massivo dos EUA. O General Dostum tinha uma predilecção especial por amarrar os oposicionistas às correntes de tração dos tanques e por trancar os prisioneiros em recipientes de metal expostos ao calor abrasador e deixá-los a cozer até à morte. Ele tem, pois, o mesmo tipo de problema de imagem que o Presidente Karimov. Os veículos que nunca são revistados circulam entre Dostum e o regime usbeque, exportando armas e narcóticos e importando dinheiro e produtos químicos para o fabrico de heroína. Tal como a violação dos direitos humanos, esta foi uma daquelas coisas que nunca foi mencionada. E estavam todos empenhados na cooperação anti-narcóticos com o governo usbeque, fornecendo equipamento e formação dispendiosos, e fingindo estar a combater o problema.»

Craig Murray, Murder in Samarkand – Mainstream Publishing 2007

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