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sexta-feira, 19 de março de 2021

Reflexão - “Se tu fores ver o mar (Rosalinda)” – a primeira da nossa música popular a falar de poluição do mar e da energia nuclear

«No meio de um passeio em Ferrel está uma placa retangular onde se lê isto: “o povo diz não ao nuclear”. O acontecimento a que se refere este pequenino monumento ocorreu há 45 anos, no dia 15 de março de 1976.

Ferrel é um freguesia de Peniche, com pouco mais de 13 quilómetros quadrados. Soube-se em 1975 que as norte-americanas Westinghouse Electric Corporation, uma construtora de centrais nucleares, e a grande companhia de energia General Electric, tinham intenções de construir uma central elétrica nuclear não muito longe da Praia d’El Rey.

Segundo podemos ler no site da autarquia (https://tinyurl.com/vfh3e635 ) “os primeiros trabalhos para instalação da central nuclear tiveram início em 1975, nos terrenos do Moinho Velho, sem que se soubesse muito bem do que se tratava”

É o jornal local A Voz do Mar, na edição do dia 20 de março de 1975, que avança com a possibilidade de que os trabalhos de fundações e prospeção naquele local se destinarem à construção de uma central nuclear. A 5 de fevereiro do ano seguinte o mesmo jornal publica declarações de Carlos Mota, o então Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Peniche (https://tinyurl.com/49hp938a) que comunica ter confirmado a suspeita junto da Companhia Portuguesa de Electricidade.

A mobilização popular no 15 de março para um protesto até ao local das obras, dinamizada pela Comissão de Moradores local, é emocionante: conta o jornal popular “O Arado”, na sua edição n.º 9 de 16 de março de 1976, que “ao toque de sino a população foi-se juntando no largo da igreja para ir até ao Moinho Velho mandar parar as obras. Alguns partiam para o trabalho com a enxada ao ombro(...).

E o jornal o Arado reforça ainda mais o colorido do relato: “A firme decisão de não deixar ir para a frente aquela obra está bem patente nas frases que se ouviam: ‘Força, força a partir essa merda já’ e ‘já vieram corridos de alguns lados, também hão-de ser corridos daqui’”. As obras pararam e nunca mais recomeçaram.

Um artigo de primeira página publicado num grande jornal nacional da época, O Século, assinado por Afonso Cautela, um dos primeiros jornalistas portugueses a abraçar a causa da defesa do meio ambiente, um verdadeiro ecomilitante, amplifica o impacto da luta do povo de Ferrel contra o nuclear.

Esta luta foi absolutamente pioneira em Portugal e foi feita ainda antes dos acidentes com centrais nucleares que assustaram o mundo: Three Mile Islands nos Estados Unidos em 1979, Chernobyl na União Soviética em 1986 e Fukuxima no Japão em 2011. Portugal nunca construiu uma central nuclear, e a luta do povo de Ferrel certamente ajudou nisso, mas está sob a ameaça de possíveis acidentes de centrais nucleares espanholas.

Tão pioneira na temática antinuclear como a manifestação de Ferrel – que teve continuidade em 1978 com a realização do Festival Pela Vida Contra o Nuclear, nas Caldas da Rainha e em Ferrel (https://tinyurl.com/ekz2kj82) está uma canção composta por Fausto, normalmente apontada como a primeira da nossa música popular a falar de poluição do mar e da energia nuclear, inspirada diretamente na situação e na luta da população daquela freguesia portuguesa.

Conhecida como “Rosalinda”, mas com o título original de “Se tu fores ver o mar (Rosalinda)”, esta canção de protesto e de intervenção direta num assunto de atualidade – foi gravada logo em 1977 para o álbum “Madrugada dos Trapeiros” - também é contra-corrente em relação a este tipo de panfletos da época: calma, em parte metafórica, em parte literal, é uma canção sem aparente reivindicação associada, mas consegue ser terrivelmente eficaz na mobilização do ouvinte para a recusa da poluição do mar e dos perigos das centrais nucleares.»

Pedro Tadeu, PanfletosFausto contra a energia nuclear, FB.

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