«No meio de um passeio em Ferrel está uma placa retangular onde se lê isto: “o povo diz não ao nuclear”. O acontecimento a que se refere este pequenino monumento ocorreu há 45 anos, no dia 15 de março de 1976.
Ferrel é um freguesia de Peniche, com pouco mais de 13
quilómetros quadrados. Soube-se em 1975 que as norte-americanas Westinghouse
Electric Corporation, uma construtora de centrais nucleares, e a grande
companhia de energia General Electric, tinham intenções de construir uma
central elétrica nuclear não muito longe da Praia d’El Rey.
Segundo podemos ler no site da autarquia (https://tinyurl.com/vfh3e635 ) “os primeiros trabalhos
para instalação da central nuclear tiveram início em 1975, nos terrenos do
Moinho Velho, sem que se soubesse muito bem do que se tratava”
É o jornal local A Voz do Mar, na edição do dia 20 de
março de 1975, que avança com a possibilidade de que os trabalhos de fundações
e prospeção naquele local se destinarem à construção de uma central nuclear. A
5 de fevereiro do ano seguinte o mesmo jornal publica declarações de Carlos
Mota, o então Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de
Peniche (https://tinyurl.com/49hp938a) que comunica ter confirmado a
suspeita junto da Companhia Portuguesa de Electricidade.
A mobilização popular no 15 de março para um protesto até
ao local das obras, dinamizada pela Comissão de Moradores local, é emocionante:
conta o jornal popular “O Arado”, na sua edição n.º 9 de 16 de março de 1976,
que “ao toque de sino a população foi-se juntando no largo da igreja para ir
até ao Moinho Velho mandar parar as obras. Alguns partiam para o trabalho com a
enxada ao ombro(...).
E o jornal o Arado reforça ainda mais o colorido do
relato: “A firme decisão de não deixar ir para a frente aquela obra está bem
patente nas frases que se ouviam: ‘Força, força a partir essa merda já’ e ‘já
vieram corridos de alguns lados, também hão-de ser corridos daqui’”. As obras
pararam e nunca mais recomeçaram.
Um artigo de primeira página publicado num grande jornal
nacional da época, O Século, assinado por Afonso Cautela, um dos primeiros
jornalistas portugueses a abraçar a causa da defesa do meio ambiente, um
verdadeiro ecomilitante, amplifica o impacto da luta do povo de Ferrel contra o
nuclear.
Esta luta foi absolutamente pioneira em Portugal e foi
feita ainda antes dos acidentes com centrais nucleares que assustaram o mundo:
Three Mile Islands nos Estados Unidos em 1979, Chernobyl na União Soviética em
1986 e Fukuxima no Japão em 2011. Portugal nunca construiu uma central nuclear,
e a luta do povo de Ferrel certamente ajudou nisso, mas está sob a ameaça de
possíveis acidentes de centrais nucleares espanholas.
Tão pioneira na temática antinuclear como a manifestação
de Ferrel – que teve continuidade em 1978 com a realização do Festival Pela
Vida Contra o Nuclear, nas Caldas da Rainha e em Ferrel (https://tinyurl.com/ekz2kj82) está uma canção composta por
Fausto, normalmente apontada como a primeira da nossa música popular a falar de
poluição do mar e da energia nuclear, inspirada diretamente na situação e na
luta da população daquela freguesia portuguesa.
Conhecida como “Rosalinda”, mas com o título original de
“Se tu fores ver o mar (Rosalinda)”, esta canção de protesto e de intervenção
direta num assunto de atualidade – foi gravada logo em 1977 para o álbum
“Madrugada dos Trapeiros” - também é contra-corrente em relação a este tipo de
panfletos da época: calma, em parte metafórica, em parte literal, é uma canção
sem aparente reivindicação associada, mas consegue ser terrivelmente eficaz na
mobilização do ouvinte para a recusa da poluição do mar e dos perigos das
centrais nucleares.»
Pedro Tadeu, Panfletos - Fausto contra a energia nuclear, FB.
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