terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Bico calado

  • A Medacs Healthcare, uma empresa controlada pelo principal doador do Partido Conservador britânico, Lord Ashcroft, fechou um acordo de vacinação contra a Covid-19 por £ 350 milhões. Mais uma vez, tudo em segredo. Mas sabe-se que a empresa tem um histórico mau. Um relatório de 2019 considerou os seus serviços de atendimento "inadequados" e "não seguros", incluindo a administração de "potenciais sobredosagens" de medicamentos. Peter Geogheg e Russell Scott, openDemocracy.
  • Como funciona a hipocrisia: o vigarista condenado Alexei Navalny é preso por fintar a fiança, alega sem evidências credíveis ter sido envenenado e é um herói no Ocidente. Julian Assange, condenado por nada, expõe crimes de guerra dos EUA, é demonizado, e negam-lhe uma fiança. Finian Cunningham, Sputnik.
  • Façamos um teste rápido. Digam o nome de alguns ditadores. Aposto que a maioria de vocês avançou apenas com alguns dos mesmos nomes: Assad, Putin, Castro, Kim Jong-un, Gaddafi, Maduro. Não porque sejam os únicos ditadores do mundo (longe disso), ou porque todos tenham necessariamente direito ao título, mas porque são as figuras mais vezes rotuladas como tais pelos nossos media. Os estudos "Freedom in the World" da Freedom House consideram que 49 países - mais de um quarto dos governos do mundo - "não são livres", sinónimo de "ditaduras". Então por que é que as pessoas mais experientes politicamente não sabem os nomes de todos esses ditadores? Por que é que eles não são tão conhecidos, como Assad e companhia? Será porque os EUA fornecem assistência militar (treino, vendas e ajuda) a três quartos deles, como sugere o estudo de Rich Whitney publicado na TruthOut de 23set2017. Definir e quantificar o que constitui e não constitui uma ditadura é complicado, e o forte viés político conservador da Freedom House torna a sua lista e considerações ainda mais questionáveis. Por um lado, a organização "não governamental" é, de facto,  esmagadoramente financiada por Washington, que a contratou em 2006 para realizar "atividades clandestinas", ou seja, operações de mudança de regime no Irão. Aliás o responsável pela compilação da lista admitiu que a sua metodologia se baseava em “palpites e intuição”. Os governos listados pela Freedom House como ditaduras, também considerados Inimigos Oficiais pelos media corporativos são, por exemplo, Rússia, Cuba, Síria,  Bielorrússia, Coreia do Norte e Venezuela. Mesmo assim, os “nossos ditadores” - isto é, os governos “não livres” que Washington apoia - raramente são rotulados como ditaduras pela imprensa oficial. Na verdade, há muito pouca cobertura destes países que estão “a portar-se bem” aos olhos do Departamento de Estado dos EUA. Vejamos a cobertura que a imprensa faz a quatro “ditadores” da Freedom House que recebem ajuda militar dos EUA, todos motivo de notícia recente: Paul Biya dos Camarões, Abdel el-Sisi do Egito, Abdelaziz Bouteflika da Argélia e Nursultan Nazarbayev do Cazaquistão. Paul Biya, de 86 anos, é o chefe de estado há mais tempo no poder no mundo, está no poder nos Camarões desde que Gerald Ford era presidente. Recentemente, conquistou um sétimo mandato numas eleições que a Foreign Policy descreveu como uma “farsa”. Os Camarões têm sido notícia ultimamente, devido aos abusos dos direitos humanos cometidos pelo governo, levando o país à beira de uma guerra civil. A Freedom House considera-o um dos países menos livres do mundo. No entanto, quando discutido, Biya é apresentado com naturalidade pelos media, sem precisarem de o chamar “ditador”. O New York Times de 10jun2018 apresenta-o eufemisticamente como "um dos presidentes mais antigos do mundo". Pela cobertura, os leitores nunca saberiam que ele é um ditador, mesmo segundo os padrões da Freedom House. Na verdade, durante 20 anos de cobertura no Times, Biya nunca foi descrito como um “ditador”, “déspota”, “tirano” ou qualquer outra designação semelhante. O general Abdel el-Sisi chegou ao poder no Egito em 2013, num golpe militar que derrubou o governo democraticamente eleito do presidente Mohamed Morsi. Sisi anunciou recentemente o seu plano de governar até 2034 - efetivamente para sempre. Apesar disso, tem gozado de grande apoio internacional porque, segundo o NYtimes de14fev2019 ser “um baluarte contra a militância islamista”. Apesar de Abdelaziz Bouteflika, ter chegado ao poder na Argélia de forma fraudulenta e governar com mão de ferro há 20 anos, os media, por exemplo, a CNN de 11mar2019, abstiveram-se de o descrever como um ditador. Pelo contrário, alguns media consideram-no democrata e um artifice da estabilidade e da restauração da honra do exército. Outro governante apoiado militarmente pelos EUA é Nursultan Nazarbayev, no poder no Cazaquistão desde 1989. Nazarbayev tem uma longa história de repressão à liberdade de expressão, imprensa e religião, e usa a tortura contra os seus adversários políticos. Apesar disso, merece apreciação positiva no NYTimes de 19mar2019, elogios por ter mantido a estabilidade no país durante tanto tempo (Associated Press, 19mar2019) e até mesmo por ser um líder visionário, "que liderou a antiga república soviética para fora da implosão caótica do império", alegando que levou o Cazaquistão a uma nova era pacífica e próspera, enquanto "construía uma identidade nacional"(WashingtonPost 29mar2019). Concluindo, o rótulo de “ditador” é um meio poderoso de preparar o leitor para ver um determinado país ou líder de determinada maneira. Os leitores são convidados a sentir-se indignados com os crimes de Assad, Putin ou outros chefes de Estado anti-EUA, enquanto governantes autoritários que seguem a linha dos EUA são ignorados ou mesmo elogiados. A escolha de usar uma palavra como “ditador” enquadra um país segundo os interesses da elite dos EUA, transmitindo legitimidade ou a falta dela num único rótulo. Alan MacLeod, Dictator: Media Code for ‘Government We Don’t Like’ - FAIR.

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