- «(…) Não vai ficar tudo bem e só depende de nós se o mal que vai ficar ajudará a construir qualquer coisa decente para os nossos filhos ou se apenas nos retirará mais direitos sociais e liberdades cívicas. O indispensável regresso condicionado às ruas e ao trabalho, antes da vacina, vai aumentar o controlo social. Temos de ser cuidadosos com as portas que vamos abrindo, porque algumas nunca mais se fecharão. Se isto durar mais do que um ano, o excecional vai normalizar-se. Até porque corresponde ao ar deste tempo: a tecnologia ao serviço da vigilância em sociedades que prescindiram da privacidade e, por consequência, de um bom quinhão de liberdade. Não há nada de novo na proposta dos CEO de algumas das maiores empresas nacionais, que queriam que o Estado, por via das operadoras de telemóveis, rastreasse movimentos e contactos de infetados para notificarem e imporem quarentena a quem tenha sido exposto ao risco. A Google e o Facebook já sabem mais sobre nós do que alguma vez a Stasi conseguiu saber sobre os cidadãos da RDA. Mas espero que o Estado me proteja do abuso, não que o incentive ou me peça para colaborar voluntariamente com ele. Dado este poder de vigilância aos Estados, isto será o novo normal. Agora era contra a covid-19, depois seria contra outra epidemia, o terrorismo, a segurança nacional... E não me venham dar garantias de privacidade, que até seria possível. Temos demasiados anos disto para se desculpar a candura. (…) Imaginem a repressão social que ainda será necessária para garantir que esta crise não prejudica quem neste preciso momento despede precários mas distribui dividendos. (…) Daniel Oliveira, in Expresso.
- «(…) Tal qual como os 90 trabalhadores cingaleses das estufas de Odemira, ou os 70 nepaleses do Algarve, ou os 130 ciganos de Moura — quando aparece ali algum infectado, a solução é simples: fecham-se todos juntos onde puder ser, mesmo que, no limite, isso signifique a infecção de todos. Em Moura, rodeou-se o acampamento cigano de arame farpado e colocou-se a GNR a vigiar todas as passagens, para que ninguém pudesse entrar ou sair. Chamem a isto o que quiserem, eu chamo-lhe um campo de concentração, por provisório que seja.(…)» Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/04/2020
- «Num despacho que determina a audição por videoconferência de um arguido em prisão preventiva, o juiz Paulo Registo refere-se à doença covid-19 como o "vírus chinês". A expressão é considerada "racista e xenófoba" pela Liga dos Chineses de Portugal, que se queixou do magistrado ao Conselho Superior da Magistratura (CSM) e à Ordem dos Advogados. Numa carta assinada por Y Ping Chow, a Liga considera-se "ofendida" pelo uso da expressão que segue "a teoria do Presidente americano". O presidente da Liga questiona o CSM se "vírus chinês" foi um erro de escrita ou se há "discriminação racial ou alguma tendência xenófoba e (ou) apenas se o magistrado judicial se deixou influenciar pela afirmação do Presidente americano".» Expresso.
- «Juiz do caso Rui Pinto terá feito like em posts que chamavam “pirata” ao denunciante. Paulo Registo é adepto do Benfica e vai julgar o alegado “hacker” no processo em que é acusado de mais 90 crimes. Registo também faz parte do coletivo de juízes que irá julgar o caso e-toupeira.» Expresso.
- O presidente Trump incentivou a direita dos estados do Michigan, do Minnesota e da Virginia, de maioria democrata, a protestarem contra a deliberação dos seus governadores de manterem o regime de cerca sanitária como precaução. NYTimes.
- «(…) Ricardo Araújo Pereira é um talento. Difícil duvidar disso. É culto e inteligente. Tem bom gosto. Mas infelizmente cristalizou no que resulta, no que os canais pagam, no que lhe dá dinheiro. Acontece aos melhores. Quando passam a ser milionários – e Ricardo e milionário tendo em conta os rendimentos no nosso país – passam a ter muito mais a perder do que a ganhar. Deixam como por milagre de ser incómodos. Ou a ser os tipos a quem se convida para que diga mal de uma forma que seja tolerável. Ou a pessoa que já não arrisca determinados assuntos com medo de perder audiências, contratos ou por outra coisa qualquer. (…) Bruno Nogueira arrisca em cada projeto. Arrisca nos formatos, nas plataformas, nas pessoas que convida, no texto, no contínuo evoluir de um personagem (a sua persona) que não é real, mas que também não é ficção. Uma figura paradoxal que parece atriar os opostos. Uma fragilidade (também física) que mistura com uma crua agressividade. Uma arrogância que mistura com generosidade. Uma vontade de ser livre que mistura com a melancolia de a poder perder na próxima curva. (…) Onde Ricardo Araújo Pereira se defende, Bruno Nogueira arrisca. Onde RAP é conservador, Bruno é revolucionário ou, pelo menos, testa os limites de fazer humor, de comunicar num tempo confinado como este. (…)» Luís Osório.
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