- Pessoas com segundas residências na região de Catskills, em New York, estão a ser avisadas para ficar ao largo. Em algumas cidades costeiras de New Jersey, há acessos barricados e os moradores pedem o encerramento de pontes de acesso a pessoas de fora. Nos Hamptons, o quintal dos do East End de Long Island, os moradores estão furiosos com os forasteiros que lhes esvaziam as prateleiras das mercearias. A Florida avisa os nova-iorquinos: não visite. E se o fizer, prepare-se para ficar de quarentena ou arriscar a prisão. O Havaí, que também prospera no turismo, pede aos visitantes que fiquem longe por um mês. E o Alasca exige uma quarentena de 14 dias para quem entra. Há uma concorrência feroz entre governadores de vários estados devido à escassez de recursos como máscaras e ventiladores.
- Durante duas semanas, a Huawei doou milhões de máscaras para combater a propagação da Covid-19 a vários estados membros da UE, incluindo Itália, Irlanda, República Checa, Polónia, Holanda e Espanha. Mas a festa acabou. A Huawei anunciou que vai suspender esta operação com medo de se envolver em jogos de geopolítica. Tudo porque Josep Borrell, chefe das relações externas da União Europeia, considerou a ação de generosidade política da Huawei mera propaganda para fomentar a influência chinesa na Europa. Via EurActiv.
- «(…) O que aconteceu nos últimos dias foi tão rápido e abrangente que parece que de repente entramos numa nova era. Há poucas semanas, ninguém ousaria prever que o mundo iria parar por causa de uma epidemia que, na verdade, não havia reivindicado mais do que um punhado de mortes entre a população mais vulnerável às condições respiratórias. Como é possível o mundo parar por causa de algumas mortes por gripe se 10.000 pessoas perdem a vida todos os dias porque não podem pagar a sua assistência médica? O mundo nunca parou por nada: nem antes da gripe comum, que ceifa a vida a centenas de milhares de pessoas todos os anos, nem contra a malária, que regista 200 milhões de casos e 400.000 mortes por ano, ou perante a fome - que uma em cada oito pessoas sofre na terra -, nem perante a miséria - que duas em três pessoas sofrem-, nem perante a migração - que força cada vez mais pessoas todos os dias a deixar a sua casa e pátria -, nem face à guerra - que afeta diretamente 11% da humanidade -, nem face à desigualdade - que faz com que um punhado de magnatas acumule mais fortuna que metade de toda a humanidade -, nem mesmo face à flagrante deterioração do planeta. Tudo isso faz parte da normalidade. (…) Então por que motivo o mundo parou desta vez? Penso que a resposta é que o coronavírus nos colocou frente a frente com um novo medo: o de nos expor a atravessar subitamente a fronteira que nos torna vítimas. Preocupamo-nos com os mortos quando somos nós. Por que motivo o mundo não parou quando a Grécia perdeu mais de 350.000 pessoas devido às medidas de austeridade da Troika? Pois é. Por incrível e vergonhoso que possa parecer, nunca sentimos esse medo quando falamos de guerras, migrantes, naufrágios, portadores de malária ou famintos; não sentimos esse medo quando falamos de cortes, despejos, suicídios, perda de conquistas e direitos nas nossas próprias pátrias. Tudo parece ser coisas que acontecem aos outros, coisas que acontecem do outro lado de uma fronteira tênue. O coronavírus desencadeou o medo, mostrando agora a fragilidade dessa fronteira; e deixou claro duas nódoas profundamente enraizados na nossa sociedade, que deveriam ser capitalizados: hipocrisia e cegueira. Preocupamo-nos com os mortos quando somos nós. Só então nós realmente os vemos. E se não é por isso, por que motivo o mundo - ou a União Europeia ou o Estado grego - parou nos anos em que a Grécia diminuiu demograficamente em mais de 350.000 pessoas devido às medidas de austeridade impostas pela Troika? Onde estavam as televisões e os grande media, que agora espreitam o último contágio, quando as pessoas cometem suicídio todos os dias, vivem nas ruas ou são expulsas de suas próprias casas? Onde estão agora que tudo isso ainda está acontecendo? Como é possível que aqueles que, ainda há pouco tempo, se gabavam de promover o desmantelamento dos serviços públicos e a alienação da riqueza nacional para cumprir os objetivos dos memorandos, sejam agora autoridades alertas, conscientes e mobilizadas para o bem comum? A Covid-19 está a mostrar-nos que o mundo deve parar para enfrentar os perigos. Que se pode parar. Que se pode realizar grandes e urgentes projetos coletivos. E que, se não o fizermos, será porque não quisemos. Porque, repetidas vezes, eles fizeram-nos acreditar que era impossível. E porque preferimos acreditar. Porque nem a nossa sociedade, nem os nossos governos, nem o nosso sistema jamais sentiram o verdadeiro medo que os levaria a enfrentar os grandes desafios, ao nível da empatia e da solidariedade. Oxalá que, a partir de agora, já cientes da fragilidade dessa fronteira que nos separa da condição de vítimas, aprendamos com o medo e, civilizadamente, decretamos o estado de alerta em nossas vidas.» Pedro Olalla (Escritor, helenista, cineasta, tradutor, professor, membro Associado do Centro de Estudos Helênicos da Universidade Harvard), in CTXT.

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