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terça-feira, 10 de setembro de 2019

Bico calado

  • «Uma coisa que agradeço é que não me contem historietas. Pois em relação à proposta do autarca de Santa Comba Dão para a criação de um “centro interpretativo” dedicado a Salazar, na terra natal do ditador, sintomaticamente a situar na cantina-escola Salazar, convenientemente sediada na avenida dr. António de Oliveira Salazar, não só nos querem contar uma historieta como, enquanto o fazem, tomam-nos por parvos. (…)A ideia é uma afronta à memória e, pior, adensa um espetro que paira sobre o futuro. Não sei se os historiadores de Coimbra têm dado conta, mas o regresso do fascismo não se fará de botas cardadas, com marchas militares e mecanismos repressivos como os do passado. É precisamente pela forma sonambúlica como se deixa entrever que o fascismo de hoje é assustador. Não ajudemos, por isso, a promover um voyeurismo mórbido em torno do “espólio” de um tirano.» Pedro Adão e Silva, in O museu Salazar nunca existiu – Expresso 7set2019.
  • «(…) Os militantes partidários das estruturas fazem parte da pressão para se fazer sempre o mesmo. Querem o líder para passear na sua terra, levá-lo a cumprimentar o senhor Francisco, comerciante, que é muito “amigo” do partido, ou seja, ajuda a financiar as campanhas locais. E trazer o líder a encontrar os seus conhecidos locais é um factor de influência e importância, mesmo que tudo se passe numa redoma que nunca muda há dezenas de anos, a não ser quando o senhor Francisco morrer ou se zangar com o partido. E há nos partidos quem goste muito de campanhas eleitorais. As campanhas hoje são essencialmente feitas em outdoors, em páginas do Facebook mais ou menos profissionalizadas e em pseudo-eventos de rua, e há muito dinheiro a ganhar aí. Militantes das “jotas” são pagos para acompanhar o líder em caravanas de terra em terra. Empresas e pseudo-empresas “amigas” ligadas aos partidos, ou, melhor, aos funcionários e militantes do partido, oferecem serviços de marketing, de importação de “brindes”, de organização de eventos, numa rede que se ilumina nas campanhas eleitorais. A comunicação social, cuja cobertura é tão estereotipada como as campanhas, precisa dos eventos artificiais como as “arruadas” e os pseudocomícios para ter alimento de imagens, sons e incidentes anedóticos para encher os telejornais e os jornais e, se não lhos derem, desata a protestar pela “pobreza” da campanha, ou pelos “erros de comunicação”, ou a referir as ausências que devem ser punidas. Tudo isto se passa num ambiente de desertificação de ideias e propostas, e tudo o que é mais sério ou não é coberto ou é tido como sem interesse mediático. E por aí adiante. Deviam todos parar para pensar, mas nos dias de hoje parar para pensar é tão contraditório com o estilo de vida centrado nos devices, nos telemóveis e nas redes sociais, que é um acto quase de per si revolucionário. E nós não temos uma abundância de revolucionários. E pensar exige tempo lento, silêncio, solidão e espaço e é tão hostil à ecologia da pressa, do barulho, das 24 horas em directo. (…)» José Pacheco Pereira, in Público 8set2019.
  • Cristas fez arroz de atum, comprou sapatilhas de contrafação na feira, mais uns dias e está a pedir o rendimento mínimoPedro Tomás.
  • «Adriano Moreira foi também ministro de Salazar e não podia ignorar as torturas da Pide, as prisões sem culpa formada, as medidas de segurança, a violação da correspondência, os degredos, os Tribunais Plenários e as enxovias do regime. Era um homem inteligente e informado. Sabia que a Pide matava. Aliás, como subsecretário de Estado do Ultramar (59/61) e ministro da pasta (61/63) foi o responsável da polícia política nas colónias. Hoje já poucos se lembram de que foi ele quem assinou a portaria que reabriu o Campo do Tarrafal, em Cabo Verde, dessa segunda vez destinado aos presos dos movimentos de libertação das colónias. Preferem lembrar que foi democrata na juventude e no pós-guerra, quando, após a derrota do nazi-fascismo, a Inglaterra prometia acabar com todas as ditaduras europeias e Salazar e Franco tremeram. Quando a cadeira livrou Portugal do ditador de Santa Comba foi em Adriano Moreira, além de Marcelo, que os próceres da ditadura pensaram. Era um bom académico? – Sem dúvida, como Marcelo. Mas como ministro do Ultramar, para lá da reabertura do campo da morte lenta do Tarrafal, não teve conhecimento dos atos bárbaros com que as Forças Armadas Portuguesas responderam à crueldade da primeira sublevação em Angola? Ou defendia a pena de Talião? Foi no seu tempo que se cometeram algumas das mais cruéis punições militares. Não tinha força para as impedir? Mas foi determinado a demitir o general Venâncio Deslandes de cuja fidelidade desconfiou. (…) » Carlos Esperança
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