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quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Bico calado

  • «Ah, era tudo tão lindo antigamente. Não havia crime. Havia ordem e respeito. Podia ler-se um jornal sem receio de ficar com medo de andar na rua. Dos arquivos da Censura: “Desde há longa data se encontra muito recomendado que os jornais não devam publicar tais fotos [de criminosos]”; “O jornal de que V. Exa. é mui ilustre director [publicou uma notícia] revelando ter o assaltante apontado uma pistola, o que, por motivos óbvios, não era de divulgar.”; “Os relatos de crimes, em geral, e a publicidade de suicídios, actos de corrupção sexual, infanticídios e outras notícias que, pelo seu melindre moral, possam chocar a opinião pública e que ultimamente estavam entregues ao prudente arbítrio da imprensa, deverão passar a ser vistos com cuidado, eliminando-se os pormenores escabrosos, equívocos ou imorais que, pela natureza ou intenção, possam efectivamente ferir a sensibilidade e moralidade pública.”» Gonçalo Pereira Rosa, FB.
  • «Não precisamos nem de um novo nem de um velho Salazar e de certeza não precisamos de tempo de antena a quem veicula a necessidade de uma nova ditadura. Na semana em que Bolsonaro tomou posse, não acredito em coincidências e preocupa-me que a TVI passivamente aceite a presença de Mário Machado nos seus estúdios. Na mesma semana em que se celebra o aniversário da fuga de Álvaro Cunhal da Cadeia do Forte de Peniche, porque não um programa dedicado à liberdade e à história da ditadura e de todos os que lutaram contra a mesma? Saberá Manuel Luís Goucha da incompatibilidade entre ditadura e liberdade? Ter-se-á Manuel Luís Goucha esquecido de como o Estado Novo punia com prisão, internamentos em manicómios e trabalhos forçados — sem esquecer os tratamentos com choques eléctricos e os espancamentos gratuitos — quem era apenas diferente? Os mesmos espancamentos e torturas destinados a quem não concordasse com o Estado Novo e o regime Salazarista, onde ninguém podia confiar em ninguém, onde à mesa não se falava de política com medo dos filhos, dos pais, dos vizinhos, não fosse um bufo ou um PIDE andar à espreita. E o que dizer das prisões indiscriminadas, dos julgamentos sempre adiados e cujo fim era só um, a prisão por tempo indeterminado no Tarrafal, em Peniche, no Aljube, entre tantas outras prisões para os réus e os advogados que tivessem a coragem de os defender, assim era a justiça, nem por isso cega, e descaradamente parcial? O povo, ignorantemente pobre, subjugado à fome, trabalhava miseravelmente em prol dos grandes proprietários, ou então fugia a pé para França, um milhão ao todo, fugindo não só da fome mas também da guerra colonial responsável pela perda de toda uma geração além-mar a troco de nada, a troco de sofrimento e sangue. Quatro décadas de ditadura ainda bem presentes na nossa memória, mas nem por isso na memória de quem promove a presença de Mário Machado nos ecrãs de televisão. (…).» João André Costa, in Não, não precisamos de um novo Salazar - Público 4jan2019.
  • «(…) Podem ter a certeza que um “novo Salazar” se aparecer será muito mais desempoeirado nos costumes, mais yuppie, menos beato, menos, muito menos temeroso do capitalismo, e não terá medo da exposição televisiva, bem pelo contrário. (…) Ora mil vezes mais perigoso do que ouvir Mário Machado a dizer umas enormidades sobre Salazar é ouvir e ver uma televisão cada vez mais tablóide de manhã à noite tratar da sociedade, do crime, da corrupção, da “ordem” de uma forma que é uma verdadeira incitação antidemocrática, ao colocar a dialéctica social e política como sendo “nós”, o povo, a verdade, a voz impoluta, as vítimas, e do outro lado “eles”, os políticos, o “sistema”, o “regime”. (…)» José Pacheco Pereira, in A liberdade de expressão é uma coisa muito incómoda - Público 5jan2019.
  • «O presidente da República de Portugal é um parolo. Como titular do cargo, telefonar em directo para o novo programa de Cristina Ferreira para lhe dar os parabéns pela mudança de canal ultrapassa todos os limites. (…) Ao ter atitudes parolas, próprias de um país de terceiro mundo, não pode vir depois queixar-se das consequências. (…) Afinal, dá a sensação de que ter votado em Marcelo Rebelo de Sousa ou no Tino de Rans vai dar exactamente ao mesmo. E não é verdade. Porque o Tino de Rans é simples mas não é parolo.» Ricardo Ferreira Pinto, in Aventar.
  • «(…) O presidente não deve ser um sujeito comum, que se faz passar por bonacheirão para manter elevados níveis de popularidade, porque, em situações de crise, mais não conseguirá fazer do que carpir lágrimas abraçado aos desgraçados, ou lançar culpas para ombros alheios, traço de personalidade que lhe é, aliás, bem costumeiro. Pior ainda não deve parecer estar com o governo em tudo quanto este efetivamente faz de positivo pelo país e pelos cidadãos - como se nisso tivesse tido qualquer intervenção! - e se apresse a criticá-lo viperinamente em todas as ocasiões difíceis em que a herança de negligências passadas vem recair sobre quem sobre elas pouca responsabilidade tem. (…)  e daí se explique, afinal, que tenhamos como presidente quem considera Jair Bolsonaro como um “irmão” ou quem diz interromper uma reunião importante para telefonar a uma apresentadora televisiva ao sabê-la estreante no canal para onde se mudou a troco de avultado prémio. Falso crítico do populismo, Marcelo é-o diariamente, desde que se levanta até que se deita, e por isso não vê óbice em tomar essas atitudes e muitas outras (…)» Jorge Rocha, in Ventos Semeados.
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