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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Reflexão: o milagre da dessalinização israelita, o Pai Natal e outras tretas

O milagre da dessalinização israelita, o Pai Natal e outras tretas,
por Susan Abulhawa, in Ensia.

Algumas notas:

1 A revista Scientific American publicou recentemente um artigo elogiando o milagre da dessalinização conseguido pela tecnologia e criatividade de um país tão pequeno e isolado como Israel, rodeado por países que, sendo grandes em área, demonstram ser atrasados em matéria de gestão da água.
2 A revista apropria-se dos 900 anos de história de um país chamado Palestina: Israel foi criado há 68 anos por emigrantes judeus que conquistaram a Palestina e expulsaram a maior parte dos naturais. Durante séculos, o norte da Palestina teve sempre verões secos e quentes e invernosd chuvosos. Hoje, os índices de a pluviosidade de Ramallah e de Jerusalém ultrapassam os de Londres. Quando o estado de Israel foi estabelecido, a Palestina cultivava entre 43% e 71% do seu território.
3 A primeira coisa que Israel fez após a sua criação foi desviar água dos rios e dos seus afluentes, alterando profundamente o original ordenamento sustentável do território. O objetivo era irrigar culturas intensivas ao gosto europeu. As técnicas agrícolas aplicadas por Israel destruíram o equilíbrio ecológico da Palestina. Apesar de já canalizar 80% da água disponível para a agricultura, o que contribuíu com menos de 3% para a sua economia, Israel continuou a desviar água. 
4 Esta política de colonatos destruiu os padrões básicos de vida dos palestinianos, cuja agricultura dependia essencialmente de culturas que não exigiam regadio, como a oliveira. O controlo total da água da Palestina mantém, assim, os palestinianos sequiosos e dominados. Esta distribuição desigual e racista da água tem sido documentada extensivamente por várias organizações locais e internacionais.
5 O artigo da Scientific American afirma que Israel fornece água à Palestina, mas a água é da Palestina, ela é bombeada a partir de um aquífero no sobsolo de várias aldeias palestinianas. Com agravantes: uma parte de toda essa água é vendida aos palestinianos a um preço muito superior ao que é praticado em relação aos colonos judeus da mesma zona, colonos esses que se dão ao luxo de consumir mais de 5 vezes a água que os palestinianos consomem e de terem relvados verdes e piscinas privadas.
6 O rio que nasce em Ras al-Ayn, Palestina, há mais de um século território de peixes e moinhos, foi, em apenas uma década, transformado num cano de esgoto de efluentes domésticos e lamas industriais após a sua água ter sido canalizada em 1997 para benefício exclusivo de Israel.
7 Mas não foi só da Palestina que Israel desviou água. Fez o mesmo à Síria e à Jordânia, desviando água do rio Jordão, que já não consegue encher o Mar Morto.
8 Falar de um milagre de água criado por Israel é como falar de um mito como o do Pai Natal com as suas renas e a fábrica de brinquedos no Polo Norte. A dessalinização não é um milagre nem é uma exceção no Médio Oriente, uma vez que há muito tempo a escassez de água na região obrigou os países a desenvolverem a tecnologia. Para não falar nos inevitáveis impactos negativos da dessalinização… 
9 É irresponsabilidade e hipocrisia continuar a propagandear o mito romantizado de que Israel é exceção, que é um país brilhante, criado para liderar e inspirar. Seria melhor a Scientific American produzir reportagens honestas sobre a multiplicidade de desafios ambientais que a humanidade enfrenta, especialmente no Médio Oriente, em vez de promover contos de fadas com o objetivo de engrandecer um estado colonizador-colonial.

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