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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Reflexão – o direito ao ar condicionado

Imagem captada aqui.

O direito ao ar condicionado
por José Luis Fernández Casadevante in El Diário 22ago2016

Excertos:

1 Há 15anos que as temperaturas atingem recordes no verão e nada nos diz que o fenómeno não venha a intensificar-se nas próximas décadas. Por isso, o problema parece natural e há a tendência para o aceitarmos com resignação perante o inevitável e para tomarmos medidas individuais para o combater.
2 Em Espanha, os picos de consumo elétrico passaram, em muitas zonas, do inverno para o verão, produzindo-se assim um círculo vicioso em que o calor nos faz recorrer a tecnologias que funcionam para consumir energia cujos mecanismos de produção provocam as alterações climáticas que, por sua vez, aumentam as ondas de calor e a temperatura do planeta, o que nos leva a um uso mais intensivo do ar condicionado.
3 O uso generalizado do ar condicionado eleva a temperatura das ruas entre 1,5 e 2 graus, devido ao calor emitido pelos aparelhos. O que são respostas individuais, como ligar o ar condicionado para por a casa a uma temperatura confortável, tornam-se estruturalmente irracionais quando se generalizam. Não devia haver algo como o direito universal ao ar condicionado, pois é incompatível com o direito a disfrutar de um ambiente habitável a médio prazo. Por isso é mais fácil imaginar uma revolta dos consumidores indignados com restrições ao uso do ar condicionado do que uma mobilização popular maciça contra as alterações climáticas.
4 Em criança, o meu pai ensinou-me que uma pessoa responsável era a que livremente era capaz de assumir as consequências dos seus atos. Esta máxima tão lógica no comportamento individual torna-se problemática ao ser transferida para o domínio social. O elogio da responsabilidade individual converte-se na anomalia de defender a responsabilidade coletiva, pois, levada a sério, implica desenvolver a nossa sensibilidade social e ecológica. Questionar costumes que afetam a nossa comodidade, denunciar privilégios camuflados de direitos ou questionar a inércia cultural que dão por garantidos os nossos estilos de vida converte-se numa atitude suspeita de radicalismo e ressentimento e não num ato de responsabilidade. O único limite no consumo que assumimos socialmente, a única restrição moralmente aceitável de forma generalizada é a que impõe a nossa conta corrente. Logo que pagamos a fatura evitamos metermo-nos em debates incómodos.
5 Bernard Mandeville, um dos teóricos dos primórdios do capitalismo, usa a fábula das abelhas para explicar que as pessoas ao satisfazer os seus vícios privados acabam por produzir benefícios públicos. Este elogio ao egoísmo e ao individualismo como motor económico inspirou Adam Smith e foi capaz de manter a saúde dos mercados…

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