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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Bico calado

Imagem apanhada aqui.
  • «(…) A floresta arde descontroladamente porque, uma vez mais, nos preocupamos mais com o aparato dos Kamov do que com a limpeza das matas, nos entretemos mais com os “teatros de operações” do que com o esforço duro e silencioso de criar aceiros ou limpar caminhos rurais. Continuamos a ser como uma mulher de casaco de peles que enverga por baixo um reles vestido de chita. Espanto? O melhor é recordar o que Sá de Miranda escreveu, já há 500 anos: “Pasmado e duvidoso do que vi, m'espanto às vezes, outras m'avergonho”. (…) Os grandes incêndios que, nos anos piores, foram responsáveis por 85% da área ardida, só se controlam se houver um trabalho prévio de prevenção, de planeamento e de ordenamento. Há anos que isto se sabe. Há anos que nos prometem atacar este problema. Há anos que nos mentem. Espanto? Ou vergonha? (…) Sem planos regionais a enquadrar as decisões individuais, o Norte e o Centro do país caminham a passos rápidos para a monocultura. O risco de incêndios incontroláveis como os que há uma década devastaram o Pinhal Interior, a outrora maior mancha de pinho da Europa, existe agora em Águeda ou Arouca, onde o eucalipto domina. A destruição a que assistimos esta semana é pois a consequência de 25 anos de irresponsabilidade política, da demissão da comunicação social (em Portugal há três ou quatro jornalistas capazes de escrever sobre a floresta para lá do lugar-comum), da negligência dos proprietários e da indiferença colectiva. É preciso o país arder para que os políticos se movam. O ministro de Administração Interna de 2006 tem agora a oportunidade de se redimir na pele de primeiro-ministro. (…) Precisa ainda de acreditar que nada se fará se não se reforçar o apoio às associações e aos proprietários que estão no terreno – ao contrário da Europa, a floresta nacional é privada e só se pode fazer exigências aos privados se o Estado os apoiar pelo bem público que gerem. Este ano está perdido, mas o Governo tem a oportunidade de ficar na História se mudar o rumo da floresta. Lutar pelo mais importante recurso renovável do país, a mola de três fileiras que respondem por mais de 11% das exportações nacionais, pela fonte de sequestro de carbono e um elemento indelével da nossa paisagem rural é um dever do Estado. Se pensarmos no futuro, o país tem poucos trunfos desta valia. Renunciar a esse potencial não é só estúpido; é criminoso.» Manuel Carvalho in Para além da cortina de fumoPúblico 14ago2016.
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