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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Reflexão – De Pol Pot ao ISIS: o sangue nunca secou

De Pol Pot ao ISIS: o sangue nunca secou,
por John Pilger, 16nov2015 (notas)

1 O processo que deu proeminência ao ISIS é muito semelhante ao que criou os Khmer Rouge e levou Pol Pot ao poder. Também eles eram medievais extremistas que começaram como pequena seita. Também eles foram um produto do apocalipse levado a cabo pelos EUA no Cambodja.

2 Às ordens de Nixon, e por sugestão de Kissinger, foram, entre 1869 e 1973 e nas zonas rurais do Cambodja, despejadas bombas com potência equivalente a 5 Hiroshimas. A destruição foi tal que foi considerada um autêntico genocídio, o que criou um tal ódio contra os norte-americanos que os Khmer Rouge não tiveram dificuldade em recrutar guerrilheiros para a sua causa. Nixon e Kissinger foram, de facto, os verdadeiros criadores dos famigerados Khmer Rouger e do não menos sinistro Pol Pot.

3 O ISIS também contou com dois criadores, - Bush e Blair -, que lideraram a invasão do Iraque em 2003, provocando a morte de 700 mil pessoas, num país que nunca tinha ouvido falar de jihadismo. É certo que os Curdos tinham feito acordos territoriais e políticos, que havia diferenças de classe e de seita entre os sunitas e os shiitas, mas havia paz e casamentos entre si. Bush e Blair estouraram com esta situação e o Iraque é, neste momento, um ninho de jihadismo. 

4 «O governo de David Cameron parece estar a seguir o exemplo de Tony Blair, que ignorou os repetidos alertas do Ministério dos Negócios Estrangeiros e das secretas de que a nossa política para o Médio Oriente e em particular as nossas guerras no Médio Oriente tinham sido o principal motor do recrutamento de muçulmanos no Reino Unido para o terrorismo», disse o ex-embaixador britânico Oliver Miles. 

5 Faz 23 anos que os EUA e o Reino Unido, ultrapassando o Conselho de Segurança das Nações Unidas, impuseram sansões à população iraquiana, o que reforçou a autoridade interna de Saddam Hussein. O bloqueio internacional impediu a entrada de, entre outras coisas, cloro necessário para garantir a segurança da água, de lápis para as escolas e de peças para máquinas de raios-x. Até mesmo a exportação de vacinas para o Iraque foi proibida. «As vacinas para as crianças podem ser usadas para o fabrico de armas de destruição massiva», disse Kim Howells, ministro do governo de Blair. Este autêntico genocídio levou à autodemissão de Von Sponeck, coordenador da missão humanitária das Nações Unidas no Iraque e do seu antecessor Denis Halliday, que sublinha: «Recebi ordens para cumprir uma política que satisfaz a definição de genocídio: uma política deliberada que de facto matou mais de um milhão de pessoas.» Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância, entre 1991 e 1998 morreram mais 500 mil crianças com menos de 5 anos. «Achamos que vale a pena este preço», disse Madeleine Albright a uma repórter de uma televisão norte-americana. 

6 «Dois anos antes das cenas de violência na Síria eu estava em Inglaterra a tratar de outros assuntos. Encontrei altas individualidades britânicas, que me confessaram estar a preparar algo na Síria. O Reino Unido estava a organizar uma invasão de rebeldes na Síria. Eles até me perguntaram, embora eu já não fosse ministro dos Negócios Estrangeiros, se eu queria participar. Portanto, toda esta operação foi preparada, pré-concebida e planeada», afirmou Roland Dumas, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de França, ao canal de televisão francês LPC, em 2013.

7 Os únicos adversários eficazes do ISIS são a Síria, o Irão, o Hezbollah e a Rússia. O obstáculo é a Turquia, um ‘aliado’, membro da Nato, que tem conspirado com a CIA, o MI6 e os medievalistas do Golfo para canalizar a ajuda para os ‘rebeldes’ sírios, incluindo aqueles que agora se chamam ISIS. Apoiar a Turquia será um desastre. Há que negociar tréguas sob pena de vermos repetidas as atrocidades cometidas em Paris e em Beirute. Deveria cessar o envio de armas para Israel e o Estado da Palestina devia ser reconhecido internacionalmente. A questão palestina é a pior ferida aberta naquela região e é considerada justificação para a expansão do extremismo islâmico. Se fizermos justiça aos palestinianos começaremos a mudar o mundo à volta deles.

8 «Há mais de 40 anos, o bombardeamento de Nixon-Kissinger ao Camboja desencadeou uma torrente de sofrimento de que o país nunca recuperou. O mesmo é verdade para o crime Blair-Bush no Iraque, e para os crimes da Nato e da sua coligação na Líbia e na Síria. Henry Kissinger acaba de publicar um livro com o sugestivo título de ‘Ordem Mundial’. Kissinger é descrito como um ‘arquiteto de uma ordem mundial que permaneceu estável durante um quarto de século’. Digam isso ao povo do Camboja, do Vietname, do Laos, do Chile, de Timor Leste e de todas as outras vítimas da sua ‘arte de governar’. Só quando ‘nós’ reconhecermos os nossos criminosos de guerra e pararmos de negar a nós mesmos a verdade é que o sangue começará a secar.»

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