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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Bico calado

  • Na Roménia, desde 2013, foram acusados e julgados 92 presidentes de câmara, 24 vereadores, 22 presidentes de governos civis e dezenas de funcionários públicos. Tudo por comprovados atos de corrupção ativa ou passiva. O último a cair na rede foi o próprio primeiro-ministro Victor Ponta (PSD), por alegada falsificação e lavagem de dinheiro. Reuters.
  • 60% dos norte-americanos não confiam na sua própria media, revela uma sondagem da insuspeita Gallup citada pela RT.
  • «Queres estabilidade, filho, queres? A estabilidade do desemprego a alturas nunca vistas, não é isso, filho? E a dos desempregados sujeitos a liberdade condicional, à permanente humilhação das comparências quinzenais para mostrarem que estão vivos, que não estão a enganar o Estado, a passar-lhe a perna, a esmifrá-lo, porque essa coisa das roubalheiras é primazia e apanágio do Estado e não da vulgata, do cidadão anónimo e sem voz, aquele que, como tu filho, como tu, come e cala de cara alegre porque quem protesta ou é comunista ou mau português, antipatriótico, um pária, um traidor. E a estabilidade propiciada aos desempregados obrigados a trabalhar de borla ou a frequentar cursilhos da treta para que, enquanto o pau vai e volta por uma côdea de pão, folguem as estatísticas douradas da propaganda governamental. Não é assim, filho? Queres estabilidade, filho, queres? A estabilidade de um emprego cada vez mais mal remunerado porque, se não aproveitares, «há mais quem queira». A estabilidade de um emprego precário. A estabilidade de um emprego de onde te podem despedir por dá cá aquela palha porque, graças à UGT também, os patrões podem agora despedir com toda a facilidade e por tuta-e-meia. (…) Queres estabilidade, filho, queres? A estabilidade dos impostos que, se já estão altos, não vão descer, tomáramos nós que não subam. (…) A estabilidade de um IVA máximo na electricidade, na água, no gás, que pagas mais caro do que a maioria dos europeus. Gostas disto, não gostas, filho? Do fisco que te persegue por uns cêntimos de dívida, que, por via das dúvidas porque se não és ainda podes vir a ser, te trata como um caloteiro do piorio, te ameaça, te leva a casa, o carro, a paz de espírito, a alegria de viver. Que bom, não é filho? Queres estabilidade, filho, queres? A estabilidade da caridadezinha, porque o governo cortou radicalmente nas prestações sociais, a torto e a direito, mas dá milhões para a sopa dos pobres, para gáudio das Jonet e dos Motas Soares, farinha do mesmo saco, matéria do mesmo monturo. A estabilidade dos sem-abrigo, cada vez mais acompanhados porque outros tantos se lhes juntam. A estabilidade das famílias que perderam empregos, rendimentos, a esperança. (…) A estabilidade de um Estado tomado de assalto por uma despudorada élite de compadres e comadres, de negociatas de bastidores, de PPP, de fundações, de milhões entregues de mão-beijada a empresários que já foram ministros e ministros que já foram empresários, num proxenetismo que tem a estabilidade de uma cama de putas. Dá-te gozo só de pensar nisso, não dá filho? Queres estabilidade, filho, queres? A estabilidade dos bancos que vão à falência por falta de vigilância do regulador estatal, das grandes empresas que nos levam o nosso rico dinheirinho mas pagam os impostos lá fora, das pequenas e médias empresas asfixiadas por impostos e regras e decretos e demais imposições, fechando as portas e criando mais desemprego porque assim é preciso, é a seleção natural, que caiam os mais fracos e resistam os mais fortes, as tais empresas que estão na bolsa, no grande casino, na crista da onda e onde os seus diretores, presidentes, vogais e demais arraia-grossa ganha o que ganha, 10, 20, 30, 50 vezes mais do que tu, um apologista da estabilidade, um devoto da evolução na continuidade, de um Estado novo com velhos vícios. Queres estabilidade, filho, queres? A estabilidade dos mortos por falta de assistência médica. A estabilidade dos teus filhos que emigram porque cá não conseguem viver. A estabilidade dos jovens que deixaram de poder aceder ao ensino universitário. A estabilidade das classes profissionais, todas eles, que se manifestam constantemente nas ruas contra o governo e a propagandeada estabilidade. Queres estabilidade, filho, queres? Não há maior estabilidade do que a dos cemitérios. E este país está a morrer. Ajuda a acabar com ele. Pela estabilidade, por ti, pelos teus, vota PAF filho, vota PAF.» Manuel Cruz, Quatro Almas.
  • «A ideia não é o conteúdo do engano, é enxovalhar o adversário. Garantir que ninguém percebe as verdadeiras divergências que estão em causa. Porque se dirigem ao “centro”, onde habitam pessoas que não gostam de divergências. Pessoas que acham que as coisas são como são e serão sempre assim até que fiquem diferentes e elas voltem a achar que são assim mesmo e não podiam ser de forma diferente….) Na última semana de campanha entramos na dramatização final. O partido que perdeu o jogo de fim de semana começa a acusar nervoso. Os jornalistas, que cheiram ao longe um cadáver e temem de perto o poder, caem em cima dele como abutres. E confirmam o guião mostrando as imagens que o ilustrem. Os comentadores decretam a derrota. Por mais que se esforce na representação, o que no guião aparece como derrotado tem de continuar a aparecer como derrotado. O vencedor tem imagens apoteóticas. Os mais pequenos desaparecem do filme e os intermédios cumprem um papel de apanha bolas: ficar com os descontentes.» Daniel Oliveira, Expresso Diário.
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