ENXURRADAS DE ARROGÂNCIA
Na madrugada de ontem, os Açores voltaram a sentir a omnipotência da Mãe Natureza que, interrompendo o silêncio da noite, descarregou sobre nós o clarão dos relâmpagos, o estrondo dos trovões e a força da água que caiu em enxurrada.
Estes processos, tal como os incêndios quando não têm mão humana, fazem parte dos ciclos de regeneração da natureza. Como a vida e a morte, também a destruição tem o seu lugar. Da limpeza dos solos nasce frequentemente o renascimento e da aparente devastação regressa a vida. Podemos até dizer que o único elemento verdadeiramente estranho a este ciclo somos nós. Afinal, também a nossa existência é filha de uma grande extinção. Sem o desaparecimento dos dinossauros, dificilmente estaríamos hoje aqui.
Nas últimas décadas, talvez nos últimos séculos, fomos-nos afastando lenta e perigosamente do conhecimento empírico da natureza. Num paradoxo evidente, à medida que o conhecimento científico sobre os ecossistemas se aprofundou, foi crescendo uma arrogância antrópica que nos levou a acreditar que poderíamos moldar o território às nossas conveniências, ignorando os processos naturais que o sustentam. Tornámo-nos simultaneamente vítimas e violadores da natureza, infligindo sobre nós próprios uma lenta automutilação do presente e do futuro.
Muito para lá da discussão sobre as alterações climáticas, frequentemente reduzida a um debate técnico ou ideológico, os incêndios florestais, como entre nós as enxurradas, continuam a ser sobretudo um problema de ordenamento do território e da incapacidade humana de compreender os limites da sua intervenção. A questão essencial não é dominar a natureza, mas aprender a viver com ela. Não como falsos soberanos, mas como participantes de um equilíbrio infinitamente mais antigo do que a nossa própria civilização.
As ribeiras existem para conduzir a água até ao mar. Esse transporte limpa as bacias hidrográficas, alimenta os aquíferos, leva nutrientes aos oceanos e faz parte do funcionamento saudável dos ecossistemas. O problema começa quando ocupamos os seus leitos, impermeabilizamos os solos, desflorestamos encostas, fragmentamos a paisagem ou substituímos a vegetação por usos incapazes de reter a água, como acontece em muitas áreas de pastagem intensiva, sujeitas à fertilização química e ao escorrimento dos inevitáveis xerumes. E agrava-se dramaticamente quando muitos sistemas urbanos continuam a revelar profundas fragilidades no saneamento básico, fazendo das ribeiras o primeiro escape de tudo aquilo que a cidade não consegue, ou não quer, tratar.
O único poluidor somos nós. A natureza apenas transporta aquilo que lhe entregamos.
É por isso que, depois das grandes chuvadas, o mar amanhece castanho. Não porque a natureza tenha mudado, mas porque a água faz aquilo que sempre fez: corre para jusante. Pelo caminho transporta terra e matéria orgânica, mas também plásticos, lixo, detritos, esgotos e todas as marcas da nossa negligência. O mar não produz essa sujidade. Apenas recebe e devolve aquilo que nós lhe entregámos.
Cada enxurrada transforma-se assim num espelho da forma como ocupámos o território. Aquilo que durante meses permanece escondido debaixo do asfalto, nas bermas das estradas, nos terrenos abandonados, nas linhas de água obstruídas, nas deficiências do saneamento urbano ou nas más práticas agrícolas e pecuárias, torna-se subitamente visível em poucas horas. A tempestade não cria o problema. Apenas o ilumina, com a mesma violência com que um relâmpago rasga a escuridão da noite.
E, no entanto, continuamos a discutir exaustivamente os impactos do turismo, multiplicando planos, estratégias e monitorizações, enquanto esquecemos que o maior impacto ambiental continua a ser aquele que produzimos diariamente sobre o nosso próprio território. A verdadeira pressão sobre os nossos mares não começa nas praias cheias de visitantes. Começa muito antes, na forma como construímos, planeamos, drenamos, limpamos (ou deixamos de limpar) as nossas vilas, cidades e paisagens.
Pegando num exemplo que me é particularmente próximo, aqui em frente, no Ilhéu de Vila Franca do Campo, andamos há quase uma década a monitorizar, a debater, a criar planos e comissões de trabalho. Chegámos mesmo a encerrar o Ilhéu durante um ano, prometendo soluções definitivas. E, no entanto, basta uma noite de chuva intensa para as imagens voltarem a falar por si. Basta um dado para percebermos a dimensão do problema: das doze análises oficiais realizadas este ano à água balnear do Ilhéu, apenas três não registaram contaminação por enterococos intestinais e E. coli. Não é o mar que está doente. É a forma como tratamos a terra que o alimenta que corrompe e destrói a saúde do mar.
A natureza não se vinga, nem castiga. Limita-se a obedecer às suas próprias leis. A água desce sempre para o mar. A diferença é que hoje já não leva apenas a fertilidade da terra. Leva também a prova da nossa incapacidade de respeitar os limites da paisagem e da nossa persistente ilusão de que podemos viver acima das regras da própria natureza. A enxurrada não fabrica a nossa negligência. Apenas torna impossível escondê-la.
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