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sábado, 8 de agosto de 2026

LEITURAS MARGINAIS

PORQUE É QUE NÃO HÁ NENHUM FILME DE HOLLYWOOD SOBRE O BOMBARDEAMENTO DE NAGASAKI?
Walt Zlotow. Rev. O’Lima.


No filme de 1952 «Above and Beyond», o ídolo do cinema Robert Taylor interpretou o coronel Paul Tibbetts, uma figura saída diretamente da Central Casting, que pilotou o Enola Gay para lançar a primeira bomba atómica sobre Hiroshima há 81 anos. Todos nós crescemos a admirar Tibbetts, o «Enola Gay» e a missão perfeita que incinerou Hiroshima com a primeira bomba atómica lançada em ato de guerra. A minha admiração acabou por se transformar em repulsa perante um crime de guerra hediondo.

Mas quem pilotou o avião que lançou a segunda bomba atómica sobre Nagasaki apenas três dias depois? A história americana apagou em grande parte a saga da missão de Nagasaki, por uma boa razão. Foi uma falha colossal que quase levou o piloto a ser julgado em tribunal marcial; na verdade, quase detonou a bomba atómica de Nagasaki, a «Fat Man», sobre o Pacífico, durante o voo.

Os problemas começaram logo no início. Paul Tibbetts, ainda entusiasmado com o seu sucesso em Hiroshima, escolheu o seu amigo Charles Sweeney para pilotar o avião de lançamento «Bockscar», em vez do seu piloto habitual, Fred Bock. Sweeney não estava familiarizado nem com o combate nem com o avião. Ao preparar-se para a descolagem, Sweeney não conseguiu operar o depósito de reserva que continha 640 galões de combustível, necessários para que o Bockscar regressasse em segurança ao seu ponto de descolagem em Tinian. Bock talvez tivesse a familiaridade necessária com o avião para o conseguir. Os regulamentos exigiam que a missão fosse cancelada, pelo que Sweeney e a tripulação saíram do «Bockscar». Mas Tibbetts ignorou a recomendação e a missão prosseguiu com combustível insuficiente.

Três horas depois, surgiram problemas ainda piores. As luzes vermelhas de detonação da «Fat Man» começaram a piscar freneticamente. O chefe de armamento, Dick Ashworth, procurou freneticamente nas plantas e percebeu que dois interruptores tinham sido invertidos durante a montagem pré-voo. Depois de resolver esse problema, todos relaxaram até que o «Bockscar» não conseguiu encontrar-se com o segundo dos dois aviões de apoio, um para fotografia e outro para instrumentos. O avião de instrumentos, o «Big Stink», estava a 9 000 pés acima do «Bockscar». Em vez de prosseguir para o alvo original, Kokura, Sweeney desperdiçou 45 minutos de combustível precioso a tentar estabelecer contacto. O piloto do «Big Stink», Hoppy Hopkins, quebrou o silêncio de rádio, contactando freneticamente Tinian e perguntando: «O Bockscar caiu?» Os responsáveis pela missão apenas ouviram «Bockscar Down» e entraram em pânico, acreditando que o Bockscar, o «Fat Man» e a tripulação de 13 membros estavam no fundo do mar.

Ashford estava em pânico, pensando que tudo estava perdido. À medida que a tensão aumentava entre o responsável pelo armamento e o piloto, acabou por convencer Sweeney a prosseguir para o alvo principal, Kokura. Mas uma cortina de fumo lançada pelos defensores japoneses, em resposta ao ataque a Hiroshima, obrigou Sweeney a dar a volta para uma segunda e terceira passagem de bombardeamento, desperdiçando combustível. Mais problemas. O fogo antiaéreo e os Zeros japoneses que se aproximavam forçaram Sweeney a abandonar Kokura para fugir 100 milhas até ao alvo alternativo, Nagasaki.

Feito o lançamento, Sweeney fez uma descida desesperada para evitar a nuvem em forma de cogumelo que quase os engolfou. Mas os seus atrasos anteriores tornaram impossível a viagem de regresso a Tinian. Com pouco combustível, Sweeney iniciou um voo perigoso de 450 milhas, com o combustível a esgotar-se, em direção a Okinawa. Todos a bordo do Bockscar prepararam-se para uma aterragem forçada. Ao aproximar-se do aeródromo de Okinawa, sem conseguir comunicar por rádio a sua emergência à torre de controlo, o Bockscar teve de efetuar uma aterragem forçada no meio de inúmeros outros voos, sem autorização da torre de controlo. O Bockscar saltou 25 pés no ar, aterrando a 30 MPH acima da velocidade máxima de aterragem, quase colidindo com uma fila de B-24 carregados de combustível. Um motor parou durante a aproximação e outro no momento do contacto com o solo. Pensando que o «Bockscar» estava perdido, o pessoal do aeroporto perguntou que avião estranho era aquele que tinha descido do céu sem aviso prévio. «Acabámos de lançar uma bomba atómica», foi a resposta.

Não houve celebrações para a tripulação do Bockscar. As autoridades ponderaram submeter Sweeney a um tribunal marcial devido aos atrasos que colocaram em risco a sua vida e a missão, mas perceberam o embaraço que isso causaria e decidiram não o fazer. Porquê manchar o primeiro bombardeamento nuclear de civis, executado na perfeição por Paul Tibbetts e o Enola Gay?

Embora nunca venhamos a ver uma adaptação hollywoodesca da missão da bomba atómica do Bockscar, seria muito mais emocionante do que «Above and Beyond». Um título apropriado? «Quase a falhar sobre Nagasaki».

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