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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

LEITURAS MARGINAIS

pAI
José Estêvão de Melo, Diário da Lagoa.

Ilustração: asad_afrdii

Quando era criança, o meu pai sabia tudo. Sabia porque é que o mar era salgado, como se mudava uma torneira, qual o caminho mais curto para qualquer lugar da ilha e o que fazer quando o carro não pegava. A palavra dele encerrava discussões. Se o pai disse, estava dito. Não me ocorria verificar, duvidar ou pedir uma segunda opinião, porque não havia segunda opinião. O pai era, na prática, o meu motor de busca, a minha enciclopédia e o meu sistema de navegação, tudo numa figura só, com a vantagem de também saber assobiar.

Crescer, percebi mais tarde, foi em grande parte o processo de descobrir que o meu pai não sabia tudo. Que havia perguntas para as quais ele encolhia os ombros, respostas que estavam erradas e assuntos em que eu, com o tempo, passei a saber mais do que ele. Essa descoberta não foi uma desilusão, foi uma promoção. Deixar de depender da omnisciência paterna é precisamente o que distingue um adulto de uma criança: aprender a procurar, a comparar fontes, a errar por conta própria e a formar juízo. A autonomia intelectual conquista-se contra a comodidade de ter alguém que responde a tudo.

Ora, é exatamente essa comodidade que a inteligência artificial nos veio devolver, agora em versão melhorada. Os modelos de linguagem atuais respondem a tudo, a qualquer hora, sem impaciência e sem nos mandarem ir brincar para a rua. Escrevem os nossos emails, resumem os documentos que já não lemos, decidem o restaurante, planeiam a viagem, corrigem o código e, cada vez mais, formam a opinião que depois repetimos como nossa. O trocadilho do título não é apenas gracioso: estamos a instalar em casa um novo pai, o pAI, e a regressar voluntariamente à condição de crianças que perguntam antes de pensar.

A diferença, e é uma diferença que me inquieta, está no sentido do movimento. Em relação ao meu pai, o percurso natural era de dependência para autonomia. Em relação à IA, o percurso está a fazer-se ao contrário. Estudos recentes sobre o uso destas ferramentas no trabalho e no ensino apontam para aquilo a que os investigadores chamam «descarga cognitiva»: quanto mais confiamos na máquina, menos exercitamos a capacidade de raciocinar, escrever e decidir sem ela. Um músculo que não se usa atrofia, e o pensamento crítico não é exceção. A criança que eu fui não tinha alternativa ao pai; o adulto que sou tem todas as alternativas ao pAI, e mesmo assim escolhe não as usar, porque perguntar é mais rápido do que pensar.

Sejamos honestos quanto à outra face da moeda, porque ela existe. Eu próprio uso estas ferramentas diariamente e reconheço-lhes um valor real: poupam-me horas de trabalho mecânico, ajudam-me a encontrar o fio de um raciocínio e dão acesso a conhecimento que antes exigia bibliotecas inteiras. O meu pai também não me ensinou menos por eu lhe fazer perguntas; pelo contrário, foi a perguntar-lhe que aprendi. O problema nunca foi perguntar. O problema é deixar de fazer o resto: verificar a resposta, desconfiar dela, contrapor, decidir por nós. Uma criança aceita a resposta do pai como definitiva. Um adulto usa-a como ponto de partida. A questão é saber em qual das duas categorias nos estamos a colocar quando aceitamos, sem pestanejar, o que o modelo nos devolve.

Há ainda um detalhe que torna esta paternidade artificial menos inocente do que a original. O meu pai não tinha acionistas. Não registava as minhas perguntas para me conhecer melhor, não otimizava as respostas para eu voltar mais vezes e não pertencia a uma empresa sediada noutro continente, sujeita a leis e interesses que não são os meus. O pAI, esse, pertence quase sempre a meia dúzia de empresas norte-americanas, e cada pergunta que lhe fazemos é também um dado que lhe entregamos. Já escrevi nestas páginas sobre a nossa vassalagem digital; esta é a sua versão mais íntima, porque já não se trata de onde estão alojados os nossos ficheiros, mas de quem molda a nossa maneira de pensar.

Todos passámos pelo dia em que percebemos que o nosso pai era falível. Foi um dia estranho, talvez até triste, mas foi o dia em que começámos a crescer. Pergunto-me se teremos a lucidez de provocar esse mesmo dia na nossa relação com a inteligência artificial, ou se preferiremos ficar, confortavelmente e para sempre, na idade em que o pai sabia tudo.

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