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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

LEITURAS MARGINAIS

LISBOA E JERUSALÉM (semelhanças inesperadas)
Carlos Narciso, Duas Linhas.

(…) Não é necessário estabelecer uma equivalência moral ou histórica entre a conquista de Lisboa no século XII e o que hoje acontece em Jerusalém. São épocas diferentes, sociedades diferentes, mundos políticos diferentes. Mas há qualquer coisa que atravessa os séculos. O vencedor não se limita a conquistar o território. Quer também conquistar os seus símbolos. A vitória militar parece incompleta enquanto o deus do vencido continuar a ter uma casa de oração no lugar onde agora manda o vencedor.

Uma mesquita transforma-se em catedral. Um templo deve desaparecer para que outro possa ser reconstruído. O espaço que durante séculos foi sagrado para uns passa a ser reclamado como sagrado exclusivamente por outros.

Gostamos de pensar que evoluímos. E, naturalmente, evoluímos. Sabemos hoje coisas que os nossos antepassados não poderiam sequer imaginar. Fotografamos galáxias distantes, manipulamos genes, enviamos máquinas para outros planetas, construímos sistemas capazes de processar quantidades absurdas de informação e comunicamos instantaneamente com pessoas do outro lado do mundo. Mas o progresso técnico não produziu progresso moral.

Podemos usar um telemóvel de última geração e continuar a acreditar que Deus entregou uma determinada parcela do planeta exclusivamente à nossa tribo. Podemos viajar de avião, recorrer à inteligência artificial, fazer uma operação ao coração e continuar a pensar exactamente como pensavam os homens que, há muitos séculos, destruíam os símbolos religiosos dos vencidos para afirmar a superioridade da sua própria fé.

A humanidade pode aperfeiçoar a máquina sem aperfeiçoar o homem que carrega no botão. Continuamos a matar, expulsar e destruir em nome de “certezas” que têm milhares de anos. Em Jerusalém, essa realidade está diante dos nossos olhos. Partilhada nas redes sociais, discutida por políticos e protegida por soldados.

A distância entre a espada de um cruzado que entrou em Lisboa em 1147 e o smartphone de um jovem sionista que defende hoje a destruição de Al-Aqsa parece enorme. Talvez não seja assim tão grande.

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