HÁ CARTEIRISTAS E CARTEIRISTAS*
Já fui vítima de carteiristas em Lisboa, na Baixa, e em Berlim, dentro de um autocarro. Não tenho qualquer simpatia pela profissão. Mas fico em estado de choque ao ler que um carteirista lisboeta, pouco hábil, cujo maior golpe foi de 600 euros, vai passar muito mais tempo efectivo na prisão do que os últimos três presidentes de bancos condenados em Portugal em conjunto, esses sim, três carteiristas altamente especializados, que pagavam a ministros e políticos, que com os seus métodos criminosos destruíram as poupanças de milhares de portugueses, que causaram prejuízos a privados e ao estado de mais de dez mil milhões de euros (à época dos crimes mais de 5% do PIB de Portugal).
O Supremo Tribunal de Justiça concluiu que o carteirista dos eléctricos 15 e 28 fazia da actividade criminosa um "modo de vida".
Isto para não falar dos gestores públicos e privados das Portugal Telecom, EDP e companhia que aguardam há dez, 15 ou mais anos o desfecho dos processos, instalados nas suas quintas no Douro e no Alentejo, nas suas casas de campo e na praia. Dos demais ex-governantes supeitos ou acusados de corrupção e dos que o deveriam ter sido, mas nunca o foram, nem falo, sob o risco do post cair no populismo. E esse não é o objectivo. O objectivo é passar a mensagem que a democracia tem mecanismos para as pessoas exigirem uma Justiça que funcione contra mais gente do que só contra os pequenos delinquentes que roubam e furtam na rua. A justiça tem também de funcionar de forma efectiva contra os criminosos que se escondem, todos os dias, atrás de empresas, de bancos e cargos públicos, sejam eles empresários da construção civil, donos de grupos de distribuição, banqueiros, gestores públicos e privados, políticos ou governantes.
Autoridades policiais e um sistema judicial que são fortes contra os fracos mas não têm pulso contra os poderosos não tornam o país mais seguro, nem mais próspero, nem mais cumpridor, nem garantem Justiça. Um regime que permite que quem tem dinheiro e poder actue impunemente - sacrificando só de quando em quando ritualmente uma figura do jogo demasiado descarada ou incómoda em longos e espectaculares processos judiciais sem fim - é um regime em que as pessoas deixam de confiar e torna-se uma porta de entrada para o populismo de extrema-direita que corre sempre atrás dos mais vulneráveis. Um populista só denuncia os poderosos corruptos que se opõem à sua agenda, na esperança de os substituir por outros que façam avançar o seu programa. O fundo de comércio do populista de extrema-direita é exigir cada vez mais força contra os fracos e contra as minorias, porque essa é a fórmula redutora, a fórmula simples e fácil de explicar, enquanto ele próprio é financiado pela elite financeira que recorre a todos os truques para não pagar impostos e que, depois de vendidas a electricidade, telecomunicações, autoestradas e parte da saúde, quer privatizar o que resta do Estado.
*O título é da responsabilidade do blogue Ambiente Ondas3.
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