A ONDA DE CALOR VAI DESENCADEAR MEDIDAS CONCRETAS OU VAI APENAS AGRAVAR AS GUERRAS CULTURAIS?
Christina Macpherson, Nuclear-news. Rev. O’Lima.
As condições meteorológicas extremas da semana passada deveriam impulsionar a resposta política ao aquecimento global. Mas o triste paradoxo é que isso poderá reforçar o apoio a partidos céticos em relação às alterações climáticas
Seria compreensível pensar que a onda de calor da semana passada na Europa seria um momento mobilizador para a ação face à crise climática. A certa altura, mais de 150 milhões de europeus sofreram com temperaturas superiores a 35 °C (95 °F) – com várias partes do continente a registarem valores acima dos 40 °C. Nunca se registou uma onda de calor desta magnitude tão cedo no ano.
Quando os cientistas concluírem os seus cálculos, o número de mortos provavelmente ascenderá a milhares. Espanha, um dos poucos países que produz estatísticas em tempo real sobre mortes em excesso relacionadas com o calor, registou mais de 100 por dia desde quarta-feira. As autoridades francesas afirmaram que foram registadas pelo menos mais 1 000 mortes entre 24 e 27 de junho, um número que provavelmente irá aumentar. Entre elas contam-se quatro crianças pequenas que morreram em incidentes relacionados com o calor. Um menino de três anos, num subúrbio de Paris, foi encontrado morto na semana passada depois de ter entrado num carro e ficado preso lá dentro.
Há uma inevitabilidade desoladora em torno destes acontecimentos: os cientistas há muito que alertam para a sua chegada. No entanto, os países não têm feito o suficiente para reduzir as emissões provenientes dos combustíveis fósseis que estão a causar estes fenómenos meteorológicos extremos — nem para se adaptarem às realidades da gestão do impacto nos seus sistemas de transportes e de saúde. (…)
Por vezes, os fenómenos meteorológicos relacionados com o clima podem ter um impacto temporário, afirma Ajit Niranjan, correspondente do The Guardian para assuntos ambientais na Europa: «Uma tendência que é possivelmente a mais contraintuitiva em relação a este tipo de momentos é que os partidos de extrema-direita que negam a ciência das alterações climáticas podem receber um certo impulso devido a fenómenos meteorológicos extremos», continua Ajit. «Eles apresentam o clima extremo como um fracasso da política governamental, argumentando que o foco nas alterações climáticas fez parte do problema inicial e que se trata, antes, de má gestão.»
Em muitos casos, como nas inundações de 2024 em Valência, em que mais de 230 pessoas perderam a vida depois de ter caído, em oito horas, o equivalente a um ano de chuva em algumas regiões do leste de Espanha, ambas as coisas são verdadeiras: o clima provocou o fenómeno meteorológico extremo, mas a má governação contribuiu para o desfecho mortal. É provável que esta dinâmica se torne cada vez mais comum à medida que os fenómenos meteorológicos extremos ganham frequência.
«É preciso abordar ambos os aspetos desta questão», afirma Ajit. «Há uma tendência estranha em que os partidos políticos negam completamente uma das causas, concentrando-se apenas no clima ou apenas na adaptação, sem terem um bom plano para a outra. Isto faz certamente parte da estratégia utilizada pelos partidos de extrema-direita para atacar a política climática.»
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