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sábado, 4 de julho de 2026

LEITURAS MARGINAIS

A SUBMISSÃO DO FUTEBOL ÀS LEIS DO LUCRO
Pedro Tadeu, Panfletos, Shakira e “Waka Waka (This Time for Africa)”


No livro How Soccer Explains the World, Franklin Foer defende que o futebol é um indicador avançado da globalização e do capitalismo contemporâneo.

A transformação vê-se, por exemplo, na propriedade dos clubes. Em 2004, a Premier League não tinha donos do Médio Oriente ou dos Estados Unidos. Hoje, quase metade dos seus clubes tem investimento norte-americano, enquanto Estados como a Arábia Saudita, o Qatar e os Emirados Árabes Unidos controlam ou influenciam emblemas globais como Newcastle, PSG e Manchester City.

O futebol tornou-se instrumento de relações públicas e de sportswashing: estados e bilionários procuram prestígio através do sucesso desportivo. O mercado de jogadores passou também a funcionar como espaço especulativo, em que os preços astronómicos se afastam frequentemente do valor real dos atletas para criar lucros fabulosos a intermediários e negociadores dos contratos.

A mobilidade do trabalho confirma esta lógica. Jogadores brasileiros abandonam o seu país em direção a ligas na Albânia ou nas Ilhas Faroé para fugirem à má gestão dos dirigentes locais. Jogadores africanos, como aconteceu com uma geração de futebolistas nigerianos na Ucrânia, são contratados por clubes geridos por novos oligarcas que procuram imitar o modelo de sucesso das grandes equipas da Europa Ocidental.

Esta dinâmica gera uma fuga de talentos em países em desenvolvimento, onde os ídolos nacionais se tornam figuras distantes que jogam maioritariamente em ligas estrangeiras. E há, agora, novas ligas ricas, como a da Arábia Saudita, que contratam jogadores de topo mundial, como Cristiano Ronaldo.

A composição das seleções nacionais também reflete as complexidades migratórias e as identidades transnacionais. Em 2022, catorze dos vinte e seis jogadores da seleção de Marrocos nasceram fora do país, integrando a diáspora europeia.

Apesar da ascensão de marcas globais como o Manchester United e o Real Madrid, a globalização não eliminou as culturas locais ou os conflitos tribais. Pelo contrário, nalguns casos, estas identidades locais ganharam poder através da oposição à normalização cultural. A rivalidade entre Celtic e Rangers, em Glasgow, de que já falei aqui em Panfletos, mostra como o futebol mantém vivos conflitos religiosos, sociais e políticos que o desenvolvimento económico não dissolveu. A distinção tribal continua a gerar identidade, emoção e... lucro.

https://www.rtp.pt/play/p8339/e939593/panfletos
https://www.rtp.pt/play/p8339/e939821/panfletos

Outro autor, Simon Kuper dá, em World Cup Fever, um exemplo concreto desta relação entre futebol, globalização e capitalismo avançado. Ele conta a história da sua prima sul-africana Kyla, violinista dos Freshlyground, grupo multirracial apresentado em 2010 como símbolo da nova África do Sul pós-apartheid. Quatro meses antes do Mundial, a banda gravava em Nova Iorque no mesmo edifício onde uma artista de fama global, a colombiana Shakira, preparava «Waka Waka (This Time for Africa)». O produtor da cantora achou que precisava de um som genuinamente sul-africano e convidou os Freshlyground para colaborar. A FIFA adoptaria “Waka Waka” como canção oficial desse Mundial.

O tema foi um sucesso global, mas Kyla estava do lado errado da globalização: ela contou a Kuper que os benefícios financeiros para a banda foram muito reduzidos. Segundo o autor, a FIFA reteve a maior parte das royalties e os músicos não receberam sequer um pagamento pelas actuações na abertura do Mundial e no encerramento. O retorno foi sobretudo simbólico: reconhecimento internacional e associação permanente à imagem cultural da África do Sul.

Certamente não é por acaso que a letra de «Waka Waka» usa a metáfora da guerra para falar de pressão e perseverança no chamado desporto-rei. O refrão «Tsamina mina zangalewa» remete mesmo para uma canção militar dos Camarões, enquanto a frase «desta vez é para África» assinala algo notável: em 2010 ocorreu o primeiro Mundial realizado nesse continente.

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