DE PARAÍSO FISCAL A BANQUEIRO DE GUERRA: O PAPEL DO LUXEMBURGO NO REFORÇO MILITAR DA EUROPA
Laura Ruggeri, Substack. Rev. O’Lima.
Na cimeira da NATO em Ancara, o Luxemburgo posicionou-se como um dos defensores mais veementes da aliança no que diz respeito ao rearmamento europeu acelerado. Para um país com apenas 700 000 habitantes, situado em segurança na Europa Ocidental e praticamente sem exército permanente, esta posição não é, obviamente, motivada por necessidades de defesa. O seu raciocínio é puramente financeiro.
A adesão entusiástica do Luxemburgo à retórica bélica tem origem no seu papel desproporcionado nas finanças globais. Apesar da sua dimensão minúscula, o Grão-Ducado está entre os principais centros financeiros do mundo. Os números são exorbitantes. No final de 2025, os ativos sob gestão em fundos domiciliados no Luxemburgo atingiram 8,2 biliões de euros. O Grão-Ducado gere 58 por cento de todos os fundos transfronteiriços globais. É o segundo maior domicílio de fundos do mundo, apenas atrás dos EUA, e o maior centro de fundos da Europa. Os seus ativos financeiros externos ascendem a 13 biliões de euros. Isto não é um país. É uma máquina de extração de valor, uma vasta bomba financeira que canaliza a riqueza mundial para os cofres da elite global.
E agora essa máquina encontrou um novo produto para vender: a morte. A ministra da Defesa, Yuriko Backes, deixou escapar essa verdade antes da cimeira, quando afirmou aos jornalistas: «Em cada rubrica de despesa, temos também de considerar o retorno económico para o Luxemburgo.» A guerra é um bom negócio. E o Luxemburgo pretende ser o financiador.
A contribuição mais concreta do Luxemburgo em Ancara foi o seu apoio ao novo Banco de Defesa, Segurança e Resiliência (DSRB), uma instituição multilateral que está a ser planeada para canalizar capital privado para projetos de defesa e segurança. Com sede no Canadá, e com o Luxemburgo a desempenhar um papel-chave a nível europeu, o banco visa financiar não só tecnologias de dupla utilização, mas também capacidades letais. Até ao momento, o projeto conta com o apoio de representantes da Albânia, Bélgica, Grécia, Letónia, Roménia, Turquia e Ucrânia. A ideia foi proposta pela primeira vez em 2024 por banqueiros (surpresa, surpresa) e por um grupo de antigos conselheiros de segurança da NATO e oficiais militares. O JPMorgan, o Deutsche Bank, o Commerzbank e o ING, bem como os maiores bancos do Canadá — RBC, BMO, CIBC, Banco Nacional do Canadá, Scotiabank e TD Bank —, passaram desde então a participar no projeto.
As despesas com a defesa do próprio Luxemburgo também são bastante reveladoras. Quando o primeiro-ministro Luc Frieden assumiu o cargo, a contribuição do país para a NATO situava-se em 0,4% do Rendimento Nacional Bruto. Agora, está a caminhar a passos largos para atingir os 2,3% até 2029 — cerca de 1,66 mil milhões de euros. Ao cumprir as metas da NATO, o Luxemburgo garante-se um lugar à mesa onde os contratos são atribuídos.
Para além do banco, o Luxemburgo aderiu a novos projetos da NATO, incluindo o sistema de reconhecimento GlobalEye, a cooperação em matéria de matérias-primas essenciais para a defesa e o investimento num décimo avião de transporte e reabastecimento multifuncional.
O que torna este momento particularmente obsceno é a rapidez com que o setor financeiro abandonou as suas pretensões morais. Até recentemente, muitos gestores de fundos consideravam a produção de armamento eticamente questionável. Agora, abraçam-na com entusiasmo. Os ETFs europeus do setor da defesa registaram rendimentos entre 60 e 75 por cento entre 2025 e meados de 2026. Só nos primeiros cinco meses de 2025, os investidores injetaram mais de 2,7 mil milhões de dólares nesses fundos. Os seis maiores grupos bancários franceses aumentaram o seu financiamento a empresas do setor da defesa em 25 por cento até ao final de 2025, atingindo mais de 46,6 mil milhões de euros — um aumento de 75 por cento em comparação com 2021.
A BlackRock lançou o seu ETF Europe Defence em maio de 2025. O BNP Paribas aumentou o financiamento à defesa em 2 mil milhões de euros e abandonou a sua política que proibia o financiamento de «armas controversas». O BPCE emitiu uma obrigação de defesa no valor de 750 milhões de euros, que foi subscrita em quase quatro vezes o valor previsto. A Warburg Pincus está a considerar angariar até 1,5 mil milhões de euros para um fundo dedicado à defesa.
Em 2025, o Financial Times noticiou que o Deutsche Bank tinha criado uma equipa dedicada aos setores da defesa e das infraestruturas, composta por cerca de 40 banqueiros de diferentes divisões, com o objetivo de tirar partido do impulso ao rearmamento europeu. O número de membros dessa equipa já aumentou desde a publicação do artigo.
O rearmamento é um negócio lucrativo, uma vasta transferência de riqueza pública para as mãos do setor privado, disfarçada sob o pretexto da segurança.
Yuriko Backes, que supervisiona três pastas desde que assumiu o cargo de ministra da Mobilidade e Obras Públicas, da Defesa e da Igualdade de Género e Diversidade (!), reconheceu isto diretamente quando afirmou: «Já não podemos dizer: “Os outros vão resolver isso por nós” e confiar exclusivamente nos americanos. Esses dias acabaram.» Ela tem razão, claro. Mas a alternativa que ela imagina não é a autonomia estratégica europeia ao serviço da paz. É uma nova arquitetura de lucro ao serviço da guerra, que beneficia tanto Washington como Wall Street.
A tragédia é que o rearmamento da Europa está a ser celebrado como uma oportunidade de crescimento, enquanto os corpos dos soldados ucranianos continuam por enterrar no Donbass, porque Kiev se recusa a recebê-los da Rússia.
A postura belicista do Luxemburgo é um modelo de negócio. E, tal como todos os modelos de negócio assentes no sofrimento alheio, acabará por consumir os seus criadores. Mas, entretanto, os lucros continuarão a fluir, os dividendos serão pagos e os banqueiros contarão o seu dinheiro, enquanto os europeus se despedem do bem-estar social e lhes é dito para se prepararem para a guerra.
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