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quarta-feira, 8 de julho de 2026

LEITURAS MARGINAIS

OS ESTÁDIOS E OS ESTÚDIOS COMO NOVOS BRINQUEDOS POLÍTICOS


“(…) A sinédoque fatal “Portugal perdeu?!” terá ecoado longamente pela noite fora -imagino- e não parará de acontecer até que alguma coisa menor se torne em assunto do dia. Podemos escolher: gente que perdeu a casa, crianças na miséria com as suas famílias, gente a dormir nas ruas, gente a nascer nos passeios, gente pouco "resiliente" a morrer antes da cirurgia cardíaca, os entrefolhos do país a arder, os combustíveis a subir e o crudea descer, as falências em série de PMEs, os despedimentos coletivos, os exames liceais esvoaçando pelos céus ministeriais como as Pombinhas da Catrina, que hão-de ser de quem as apanhar,

O arroubo “patriótico” vira-se contra o espanhol, claro. Por menos, foi morto o Conde Andeiro, em 1383. E algum traidor nas fileiras poderá ser defenestrado qual Miguel de Vasconcelos, em 1640. Que se passou, desta vez, entre o oito e o oitenta?

Virão os analistas, os jornalistas, os treinadores, os ex- e os jogadores, políticos, empresários, especialistas de marketing desportivo, doutores da ciência da previsão e da revisão, economistas, tarólogos, tudólogos, toda a opinião publicada… daqui não sairemos sem gente crucificada. Nós em questões de bola somos uma fera, sabemo-lo.

A imensa ficção lúdica do jogo transformada em questão pátria, com Primeiro-Ministro e respetivo séquito transatlantizados “entre Braga e Nova Iorque”, para citar Variações, não fica assim. Um horoscópico deputado “orgânico”, Hugo Soares, situou bem a questão: - com um “amuleto” como o Primeiro-Ministro a “seleção” nada tem a temer. Falava depois da vitória sobre a Croácia, de onde chegaram imagens do Luís a trabalhar no balneário, agarrando-se a Ronaldo, com o presidente da Federação de Futebol, Pedro Proença, agarrando-se ao Luís, tudo de cachecol ao pescoço e a demagogia a subir a níveis mais elevados que o esplendor na relva.

Assim foi sempre. Com o poder político a sanguessugar o desporto. Os primeiros campeões mundiais portugueses de alguma coisa, os hoquistas dos anos 1940, ou os Eusébios de 1966 bem o sabiam. Agora que o desporto se agarre às abas do poder político, para se transformar em mais poder ainda, isso é coisa mais elaborada.

A seleção de futebol tem-se constituído numa metáfora da dominação política do negócio do nosso tempo: o homem-marca -no caso, Cristiano Ronaldo-, que para além do que ganha e dá a ganhar à Federação em metálico, entenda-se, pode, a troco disso declarar, à revelia dos treinadores e responsáveis, que só sai da seleção quando ele quiser, e não quando “vocês” quiserem.

A reprodução autoritarista pelo desporto do poder cada vez mais violentamente oligocrático da política, é um modelar canal aberto para as condutas de uma sociedade barbarizada como a que temos hoje. Que mistura grunhidos quando ganha com vagidos quando perde. Que assobia para o lado e sai de fininho quando a coisa corre mal deixando os demais a naufragar por sua conta e risco, e dá entrevistas tonitruantes quando ganha, a bater no peito de todos tarzans de t-shirt "de Portugal”, salário de miséria e cabelo rapado em baixo com tufo em cima, que pululam pelas ruas e ecrãs.

É esse o modelo que o Primeiro-Ministro recomenda que cada português siga. É esta a subjetividade que o poder deseja produzir sob a marca “portugueses”. Contudo, enquanto o ar nesta latrina se vai tornando cada vez mais irrespirável, como dizia o título de um belo disco dos Mão Morta, o “ambiente amigo dos negócios” prosperará. ¿Verdad?"

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Adendas:

 
  • «"Burros" e "vendidos", foi desta forma que Sandra Marisa Prata dos Santos, de 58 anos, secretária pessoal do primeiro-ministro desde novembro de 2025, classificou os jornalistas do Público que, na sua opinião, se 'atreveram' a questionar a viagem de Montenegro aos Estados Unidos, a terceira em apenas duas semanas, para assistir ao jogo da seleção portuguesa no Mundial de futebol, hoje frente a Espanha. Visivelmente incomodada com o título do post publicado na conta do Público no Instagram, Sandra Prata, que no passado foi secretária durante 12 anos de Joaquim Pinto Moreira, o antigo presidente da Câmara de Espinho que está a contas com a justiça no chamado 'caso Vortex', certamente esquecendo-se das funções oficiais que desempenha no gabinete de Luís Montenegro em S. Bento, não encontrou melhor maneira de comentar a notícia do que escrever na caixa de comentários: "Que título parvo, PM não é bombeiro, e para tratar dos incêndios temos o MAI". E rematou, aqui confundindo o diário Público com o semanário Expresso: "No Expresso ou são burros ou vendidos". Assim, tal e qual…» Fonte.


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