Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

quarta-feira, 1 de julho de 2026

LEITURAS MARGINAIS

A TORRE DA LELLO E DA AUTARQUIA TREMEU*



Erguer uma "Cidade-Livro" no coração do Porto parecia, no papel, o pináculo do esclarecimento cultural. Sob o mote de BABELL, a Fundação Livraria Lello, de braço dado com a Câmara Municipal do Porto, propôs-se a erguer uma torre contemporânea de pensamento, unindo a urbe sob a celebração da palavra.

Mas o mito de Babel não é uma fábula sobre harmonia — é uma narrativa humana, demasiado humana, escrita por homens para dar sentido à soberba dos homens. Não há punição divina em Babel: há apenas o inevitável colapso de quem tenta centralizar o mundo em torno de si. A história, caprichosa na sua ironia, repetiu-se na Invicta com precisão cirúrgica.

O primeiro abalo na estrutura desta torre cultural deu-se na própria gramática do festival. Ao assumir o inglês como língua franca que tudo unificaria, a organização mimetizou os babilónios que recusavam a dispersão. Perante a recusa do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em vergar o seu pensamento ao Globalese comercial, o Jardim do Pensamento transformou-se num palco de incompreensão e protesto. Logo ele, o pensador que tornou a filosofia acessível às massas, acabou silenciado pela ausência de tradução.

A sua presença no Porto tornou-se o espelho da sua própria obra: a denúncia da homogeneização cultural e da pressa de uma sociedade hiperconectada que já não sabe escutar o Outro.

A ironia adensa-se quando olhamos para o alinhamento dos autores do certame. Aponto alguns, o húngaro László Krasznahorkai, cujo romance Herscht 07769 traça a radiografia da decadência ocidental e da inevitabilidade de uma catástrofe que se instala quando as instituições falham; o aviso da canadiana Margaret Atwood, cujas distopias ensinam como o poder absoluto, disfarçado de missão cultural, começa sempre por purgar a dissidência e ditar quem tem direito à palavra. Os autores convidados escrevem contra a opressão e o esmagamento das minorias. Os seus nomes foram usados como tijolos para edificar uma Babel que faz precisamente aquilo que as suas obras repudiam.

Pois é sob o manto desta "missão cultural" que o grupo Lionesa (grupo com uma biografia empresarial que, ela própria, mereceria um capítulo de Atwood), proprietário da Lello, decidiu falar a língua mais clara do nosso século: a do Capital. Em fevereiro de 2025, a Lello Vitória — Livros e Turismo, Lda. adquiriu o imóvel no 19A da Travessa da Rua do Loureiro e notificou a Associação Comunidade do Bangladesh do Porto de que o seu contrato de arrendamento não seria renovado após outubro de 2025. A mesquita Hazrat Hamza, instalada naquele espaço desde 2003, recebe centenas de fiéis diariamente — e cerca de 1.500 às sextas-feiras. O objetivo declarado do grupo é transformar aquele quarteirão num "circuito criativo" higienizado e apelativo para o turismo de elite. Seria redutor, contudo, carregar toda a responsabilidade sobre a Lello. A situação foi agravada por uma sequência de decisões políticas que deixaram a comunidade sem saída. O anterior presidente da Câmara, Rui Moreira, prometera à associação a cedência do direito de superfície de um espaço alternativo na Rua da Porta do Sol — uma solução que nunca chegou a ser votada por o mandato estar a chegar ao fim e o atual presidente, Pedro Duarte, anunciou depois a intenção de colocar esses imóveis em hasta pública, declarando que "a construção de mesquitas não é prioridade". A comunidade ficou presa entre a indiferença de um executivo e a expansão imobiliária de outro.

Há aqui uma camada de ironia que transcende o óbvio. A narrativa de Babel não pertence apenas à tradição cristã ocidental que a Lello parece invocar como ornamento cultural. É uma história das três religiões abraâmicas — Judaísmo, Cristianismo e Islão partilham o mesmo Deus de Abraão, e a comunidade do Bangladesh, maioritariamente muçulmana sunita, venera essa mesma origem. O festival baptizado com o nome de uma torre que simboliza a arrogância humana expulsa, precisamente, uma comunidade que lê o mesmo texto fundador pela outra face. Babel, afinal, não foi construída por infiéis: foi construída por quem acreditava ser o único centro do mundo.

Acresce que esta comunidade do Bangladesh atravessa em Portugal uma visibilidade pública carregada de ambiguidade. Os cartazes que apareceram em Lisboa a dizer "Isto não é o Bangladesh", os debates mediáticos sobre representatividade da comunidade imigrante e a associação, por vezes apressada, entre a presença bangladeshiana e tensões urbanas, criaram um clima em que estas pessoas chegam ao espaço público já marcadas. Mas seria um erro de lógica — e de justiça — confundir o estigma construído pela opinião pública com uma razão para o silêncio à volta do seu despejo. São pessoas que vivem, trabalham e rezam no Porto há mais de duas décadas e cuja única relação com o festival BABELL é a de quem foi removido para que ele pudesse acontecer com maior conforto estético.

O escrutínio público já começou a fazer o seu trabalho. A torre da Lello e da autarquia tremeu porque esqueceu a lição fundamental que o próprio mito de Babel nos ensina — não como castigo divino, mas como consequência humana previsível: a tentativa de centralizar o poder, de homogeneizar a cultura e de passar por cima do Outro em nome de um monumento próprio atrai sempre a sua própria e justa ruína. A cultura real do Porto não se decreta por contratos de despejo. Sobrevive na tradução, na tolerância e na resistência daqueles que recusam ser apagados da fotografia da cidade.

* O título é da responsabilidade do Ambiente Ondas3.

Sem comentários: