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sábado, 27 de junho de 2026

LEITURAS MARGINAIS

OS SERVIÇOS SECRETOS BRITÂNICOS INSTIGARAM MOTINS NA IRLANDA OCUPADA ATRAVÉS DE MANOBRAS TORTUOSAS
Kit Klarenberg, The Grayzone. Rev. O’Lima.


E-mails divulgados revelam como responsáveis militares e dos serviços secretos britânicos provocaram deliberadamente motins entre as comunidades católica e protestante da Irlanda ocupada, que depois exploraram para justificar a repressão. Em diatribes privadas, veteranos da Irlanda ocupada que mais tarde se tornaram agentes do MI6 continuam obcecados em «manter a Irlanda do Norte britânica» e ridicularizam a morte de Bobby Sands.

Os e-mails divulgados oferecem uma visão extraordinária das atividades secretas de proeminentes veteranos militares e dos serviços secretos britânicos destacados na Irlanda ocupada durante a década de 1980. Ainda dominados por um desprezo persistente pelos católicos e por um ódio visceral pelos famosos combatentes pela liberdade republicanos irlandeses, estes homens acreditam, até aos dias de hoje, que o seu dever patriótico continua a ser «manter a Irlanda do Norte britânica».

Vários veteranos britânicos do chamado «Conflito da Irlanda do Norte» encontraram emprego numa empresa privada de espionagem chamada Hakluyt, que tem sido referida como um «lar de repouso para espiões». Fundada por oficiais de longa data do MI6, incluindo o antigo espião que inspirou a personagem de James Bond, criada por Ian Fleming, a empresa tem sido acusada, com alguma credibilidade, de servir de fachada para a agência.

Keith Craig é outro veterano do MI6 que se juntou à Hakluyt, tendo ocupado o cargo de diretor executivo durante dez anos. Embora sejam escassos os detalhes públicos sobre o período em que Craig serviu no Exército britânico, as comunicações da Hakluyt que vazaram colocam-no na linha da frente do Conflito da Irlanda do Norte, como membro da unidade de elite militar Black Watch.

As fugas de informação contêm várias trocas de mensagens reveladoras entre Craig e Pablo Miller, um agente veterano do MI6 suspeito de ter sido o contacto do traidor russo Sergei Skripal, agora desaparecido. Na altura do caso do envenenamento de Skripal, Miller residia em Salisbury, no Reino Unido, não muito longe da casa dos Skripal, e trabalhava para a Orbis Business Intelligence, a empresa privada fundada por Christopher Steele, seu antigo colega do MI6 e autor do «Dossiê Steele», repleto de invenções. (O governo britânico colocou o nome de Miller sob uma «D Notice» imediatamente após o alegado envenenamento de Skripal, impedindo a imprensa do país de o mencionar diretamente).

Em e-mails que divulgaram, Miller e os seus colegas da Hakluyt unem-se em torno do seu ressentimento virulento contra os católicos irlandeses e deleitam-se em relembrar os esquemas que arquitetaram para empurrar a população republicana local para a violência durante o Conflito da Irlanda do Norte. Estas maquinações perversas incluíram colocar uma sanduíche na lápide do mártir Bobby Sands, que morreu em greve de fome.

Uma sanduíche no túmulo de Bobby Sands teve «o efeito desejado»

Em e-mails enviados a amigos e colaboradores de longa data das forças armadas e dos serviços secretos, o veterano do MI6 e líder da Hakluyt, Keith Craig, recordou com saudade uma intriga mórbida que ocorreu enquanto esteve destacado no coração católico de West Belfast, em março de 1983, por altura do aniversário da greve de fome de 1981.

Liderados por Bobby Sands, os prisioneiros republicanos irlandeses submeteram-se a longos períodos de jejum em protesto contra as condições desumanas e a tortura persistente. Craig relatou como os combatentes do Black Watch «aguardavam ansiosamente» motins católicos em apoio aos grevistas de fome, mas ficaram desapontados quando estes não se concretizaram.

«Os habitantes locais comportaram-se, na verdade, de forma notavelmente correta», lamentou Craig.

A confirmação que veio a público de que os ocupantes britânicos instigaram deliberadamente os motins levanta novas questões sobre o homicídio de Thomas «Kidso» Reilly, ocorrido em 9 de agosto de 1983, em Belfast, às mãos de um soldado britânico que abriu fogo contra o jovem de 22 anos, aparentemente inocente. «Ele não fez nada», comentou uma testemunha ocular. «Estava a subir aquela rua e foi alvejado.»

O assassinato de Reilly, gestor de digressões de várias bandas famosas, levou multidões de católicos enfurecidos às ruas. À medida que os protestos cresciam, os soldados britânicos abriram fogo contra eles com balas de plástico, exacerbando ainda mais a sua raiva. Parece agora claro que as forças armadas britânicas tinham toda a intenção de provocar violência para justificar a sua ocupação.

Em 1984, o assassino de Reilly, Ian Thain, tornou-se o primeiro soldado britânico a ser condenado por homicídio na Irlanda ocupada durante o conflito. Apesar de ter recebido uma pena de prisão perpétua, foi rapidamente libertado e regressou ao serviço militar na linha da frente.

Numa tentativa cínica de levar a raiva local ao ponto de ebulição, uma patrulha noturna do Black Watch provocou a população republicana colocando uma sanduíche de bacon no túmulo de Bobby Sands. Isto «teve o efeito desejado e ficámos de serviço para conter motins durante uma semana», recordou ele.

Veteranos do MI6 «organizaram uma festa» para celebrar a morte de Bobby Sands

Desde 1968, agentes dos serviços secretos militares britânicos mataram centenas de civis católicos com impunidade quase total. Keith Craig e os seus colegas da Hakluyt, no entanto, orgulham-se do tempo que passaram no Ulster e, até hoje, reservam um ódio assassino a Bobby Sands.

Em março de 2020, Craig enviou por e-mail a colegas do Exército Britânico e do MI6 uma fotografia de uma placa bem conhecida em homenagem a Sands em Rosslea, uma aldeia católica no Ulster, na fronteira com a República da Irlanda. Um anúncio de uma empresa de emagrecimento estava estampado por cima da placa. Entre os destinatários da fotografia irónica estava Pablo Miller.


Num outro e-mail divulgado, Miller recordou como o seu esquadrão do Regimento Real de Tanques «organizou uma festa» para celebrar a morte de Sands. Foi pendurada uma faixa por cima do bar do esquadrão, onde se lia «Bobby Sands DIY». Miller gabou-se de que «os nossos fenianos participaram com entusiasmo», utilizando um termo depreciativo para se referir aos católicos de ascendência irlandesa da unidade. A celebração macabra terá sido, alegadamente, «nada sectária».

Noutro e-mail, Miller referia-se ao seu hábito de cantar canções protestantes, «provocando os fenianos, com tanta veemência, na minha juventude desperdiçada».

Numa conversa à parte, Keith Craig afirmava que o lema do Black Watch era «nae [nenhuns] poofs [homossexuais], nae negros, nae fenianos». Descreveu com nostalgia a unidade de forças especiais de elite como «apenas uns tipos esclarecidos das ruelas de Dundee».

O Black Watch constituiu uma parte essencial do envolvimento militar ativo da Grã-Bretanha na Irlanda ocupada entre 1969 e 2007, o mais longo da história de Londres. A unidade era odiada pelos católicos e um alvo frequente de grupos republicanos irlandeses armados.

O racismo anti-irlandês de Miller é ainda mais chocante, tendo em conta que ele próprio é um católico praticante. Num relato de autoria própria sobre o seu serviço, que veio a público, Miller descreve de forma romântica a vida no RTR na Irlanda ocupada, durante o final da década de 1980. Na qualidade de gestor de operações, coordenava as ações com a Polícia Real do Ulster (RUC) e o Regimento de Defesa do Ulster (UDR), garantindo simultaneamente que as forças britânicas em patrulha permanecessem a salvo de ataques. Considerava o «terrorismo» republicano como «a maior ameaça à Constituição britânica na segunda metade do século XX».

Miller sentia que tinha «conquistado o respeito profissional» dos seus homólogos da RUC e da UDR e estabelecido relações pessoais «próximas» com alguns deles. Não se sabe ao certo quantos agentes «a tempo parcial» da UDR que conheceu eram também membros da Associação de Defesa do Ulster (UDA).

A UDA atuou como um esquadrão da morte anticatólico ao longo do Conflito, em estreita coordenação com o Exército Britânico e o MI5. Muitas das suas armas provinham dos quartéis da UDR, e os soldados do Regimento trabalhavam requentemente em paralelo na UDA, cometendo «atos terroristas».

Entre 1970 e 1997, a UDA matou pelo menos 400 pessoas, a maioria das quais civis católicos. A verdadeira dimensão dos seus crimes e a real extensão da sua conivência com o Exército Britânico e os serviços secretos nunca serão conhecidas. Terroristas da UDA condenados participaram em operações da UDR ao longo deste período, e vice-versa.


Entre as vítimas mais notórias da UDA encontrava-se Pat Finucane, um advogado de Belfast executado na sua casa, perante a sua família, em fevereiro de 1989, pelo crime de representar em tribunal grevistas de fome republicanos irlandeses. O primeiro-ministro David Cameron admitiu a existência de «níveis chocantes de conivência» na execução de Finucane, em 2011; no entanto, rejeitou os pedidos da família da vítima para que fosse realizado um inquérito exaustivo. «Há pessoas nos edifícios à volta daqui que não vão permitir que isso aconteça», explicou Cameron em privado, referindo-se à proximidade do seu gabinete à sede do Ministério da Defesa, do MI5 e do MI6. É por esta razão que tantos crimes chocantes perpetrados por grupos paramilitares protestantes, em colaboração com os serviços secretos britânicos, continuam por resolver.

Miller recorda com nostalgia a luta para «manter a Irlanda do Norte britânica»

Em relatos privados sobre o seu envolvimento no Conflito da Irlanda do Norte, Pablo Miller defendeu a guerra suja da Grã-Bretanha contra os católicos irlandeses. «Nenhum Estado — muito menos uma democracia liberal — pode dar-se ao luxo de tolerar com serenidade uma ameaça existencial à sua ordem constitucional», afirmou. Miller prosseguiu, manifestando orgulho pelo seu «pequeno papel na derrota do terrorismo republicano, na manutenção da Irlanda do Norte sob domínio britânico e na proteção da integridade da Constituição britânica».

«Pode parecer um pouco pomposo ou grandiloquente, mas a Irlanda do Norte, como parte do Reino Unido, continua a ser muito importante para mim pessoalmente», continuou ele. «O Exército britânico perdeu muitos homens — e, claro, isso custou ainda mais vidas na Irlanda do Norte — a defender a nossa ordem constitucional. Por isso, ficaria um pouco incomodado, para dizer o mínimo, se alguma vez voltássemos a esses tempos.»

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