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domingo, 28 de junho de 2026

LEITURAS MARGINAIS

COMO O FUTEBOL FOI SUBSTITUINDO A GUERRA
Pedro Tadeu, Panfletos/Antena 1, 26 de junho de 2026

O duelo Mbappé-Messi, por © Chappatte dans Le Temps, Genève

Simon Kuper no livro “World Cup Fever”, escreve que depois de 1945 o futebol foi substituindo a guerra como fonte de orgulho nacional na Europa. As seleções passaram a personificar os países e os jogos transformaram-se em choques de culturas, nos quais cada estilo era interpretado por critérios nacionalistas e identitários. A memória da Segunda Guerra Mundial marcou adeptos e equipas, sobretudo na rivalidade entre a França e a República Federal da Alemanha.

O ponto mais dramático dessa tensão ocorreu na meia-final do Mundial de 1982, em Sevilha. A Alemanha chegou à final após vencer a França de Michel Platini num jogo épico. O tempo regulamentar terminou em 1-1; no prolongamento, a França colocou-se a vencer por 3-1, mas os alemães, liderados por Rummenigge, recuperaram em sete minutos e levaram a partida para os penáltis. Foi a primeira decisão por grandes penalidades da história dos Mundiais e terminou com a vitória alemã por 5-4, reforçando o mito da invencibilidade germânica nesse tipo de desempate.

Esta cultura começara a ganhar forma com o “Milagre de Berna”, em 1954, quando a RFA derrotou a Hungria, então considerada invencível, na final do Mundial. No pós-guerra, o sucesso futebolístico ajudou a Alemanha Ocidental a reconstruir uma identidade nacional, assente na disciplina e na resistência. Mas o jogo de 1982 ficou também marcado pela agressão do guarda-redes Harald Schumacher a Patrick Battiston. O avançado francês caiu inanimado, partiu dentes e costelas, mas Schumacher nem sequer recebeu um cartão. Para muitos europeus que tinham vivido a guerra, a agressividade alemã em campo reativou ressentimentos. A Alemanha era retratada como uma equipa “vilã”, capaz de vencer pela força bruta seleções associadas a uma ideia estética do jogo.

A persistência dessa memória surgiu também no Mundial de 1990. Na véspera da meia-final entre a Inglaterra e a Alemanha Ocidental, em Turim, o treinador Bobby Robson começou a palestra aos jogadores dizendo: “Nós vencemo-los na guerra.” O capitão Gary Lineker antecipara a frase e escrevera-a numa folha escondida, provocando o riso geral do balneário quando a mostrou. O episódio ilustra como a guerra continuava a estruturar o imaginário futebolístico europeu. O próprio vandalismo dos hooligans ingleses foi muitas vezes associado a uma alegada tradição guerreira que via as deslocações ao estrangeiro como actos de conquista.

Esta carga histórica alterou-se no Mundial de 2006, organizado pela Alemanha. Como anfitriã, a Alemanha procurou afastar-se da imagem de nacionalismo agressivo e apresentar-se como uma “nação normal”. Após ser eliminada na meia-final, chegou a ser descrita como “perdedora amável”. O futebol europeu perdeu assim parte da sua densidade bélica, embora esse sentimento reapareça por vezes.

Um exemplo é a Argentina e a canção conhecida como “Muchachos”, cujo título original é “En Argentina Nací”. Transformada em hino dos adeptos durante o Mundial de 2022, no Qatar, que deu à Argentina o seu terceiro título, a composição liga futebol, identidade nacional e memória histórica. A letra menciona os “rapazes das Malvinas”, referência aos soldados argentinos que combateram na guerra contra o Reino Unido em 1982. A canção une a herança de Diego Maradona e Lionel Messi à memória coletiva desse conflito.

Kuper observa que esta carga histórica e política é constante no futebol argentino. O próprio Maradona afirmou que a vitória sobre a Inglaterra no Mundial de 1986 serviu como vingança simbólica pela derrota nas Malvinas. “Muchachos” prolonga essa tradição ao associar o orgulho futebolístico a uma memória nacional de perda, resistência e desforra.

A canção sistematiza ainda a frustração acumulada da seleção argentina, ao mencionar as finais perdidas e os muitos anos de choro. Esse ciclo de desilusões é apresentado como encerrado pela vitória sobre o Brasil na Copa América de 2021, no Maracanã, antes da consagração no Mundial de 2022. Tal como aconteceu na Europa do pós-guerra, o futebol transforma derrotas históricas, traumas nacionais e vitórias desportivas numa narrativa coletiva de redenção patrioteira.

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