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terça-feira, 19 de maio de 2026

LEITURAS MARGINAIS

UM PARADIGMA FASCISTA
Cory Doctorow, Medium. Trad. O’Lima.


(…)

Fascistas como Farage e Trump são, na sua essência, antidemocráticos. O seu argumento é que o povo é incapaz de se autodeterminar (como afirma Peter Thiel, «a democracia é incompatível com a liberdade»). Querem que pensemos que todos os nossos vizinhos são irracionais e tolos, e que nós também somos irracionais e tolos, e que a nossa segurança e prosperidade só podem ser salvaguardadas se procurarmos aquelas poucas pessoas que nasceram para governar e as libertarmos das mesquinhas formalidades e regulamentos que a democracia e o Estado de direito exigem.

Por outras palavras, o paradigma da democracia é que todos nós somos capazes tanto de uma autogovernança sensata como de uma má governança auto-racionalizada, e que cada um de nós tem uma perspetiva útil para contribuir. O paradigma fascista é que não se pode confiar em nós para nos governarmos a nós próprios, e que apenas as pessoas que nasceram com «bom sangue» são capazes de dirigir as nossas vidas.

Esta é a teoria subjacente ao «realismo racial» e à «diversidade humana», bem como a todos os outros nomes educados que o fascista moderno utiliza para ocultar o facto de que está a ressuscitar a eugenia. Explica o pânico em torno da DEI, um pânico motivado pela crença de que pessoas «inferiores» estão a ser elevadas a cargos de poder e autoridade que são geneticamente incapazes de desempenhar.

É por isso que, sempre que ocorre um desastre, os fascistas exigem saber o género, a raça e a orientação sexual do piloto, do capitão do navio ou do responsável oficial. Se a pessoa que fez o navio de carga colidir com a ponte tiver pele morena, podemos acrescentar mais uma linha ao registo de custos associados ao projeto condenado ao fracasso de colocar pessoas que nasceram para serem mandadas no lugar do chefe (claro que, se o piloto acabar por ser um homem branco, isso não prova nada, exceto que, por vezes, os erros acontecem).

O ressurgimento do fascismo neste século tem sido assustadoramente eficaz e, por vezes, pode parecer imparável. O trabalho de Meadows sobre o pensamento sistémico fornece uma explicação para essa eficácia — e sugere uma teoria da mudança para enviar o fascismo de volta para o cemitério da história. Os fascistas introduziram alterações em aspetos como leis e ciclos de retroalimentação, regras e distribuição de poder, mas tudo isto decorre de uma alteração mais profunda do sistema, ao nível do paradigma.

O que sugere que a verdadeira luta que temos é sobre esse paradigma: temos de convencer os nossos vizinhos de que são suficientemente inteligentes para se governarem a si próprios, tal como nós e todos os outros. Temos de os convencer de que mesmo a pessoa mais inteligente e sábia (incluindo-nos a nós, incluindo-os a eles) é capaz de cometer loucuras e precisa de ter controlos sobre a sua (nossa) autoridade.

Temos de atacar de frente a teoria do «executivo unitário» e todas as outras ideologias autocráticas. Temos de insistir que estas não são apenas inconstitucionais, mas que são ideologicamente catastróficas. «Não aos reis», porque mesmo um rei bondoso não é infalível, e isso significa que a omnipotência é sempre autodestrutiva a longo prazo.

O renascimento fascista tem sido assustadoramente eficaz e resiliente — e o pensamento sistémico oferece uma explicação tanto para essa eficácia como para essa resiliência.

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