Foto: AP/The Guardian
- “(…) Ventura guardou um silêncio ensurdecedor sobre o MDLP, o Movimento Democrático de Libertação de Portugal. Para quem não sabe, ou para quem o aparato de normalização política fez esquecer, o MDLP foi uma organização terrorista responsável, entre maio e novembro de 1975, por 566 acções violentas, 123 assaltos a edifícios, 116 atentados com bombas, 31incêndios criminosos, 8 ataques a tiro, mortes. Mortes de pessoas com nome, como Rosinda Teixeira, como o padre Max, como a jovem Maria de Lurdes. E quem é o ideólogo do Chega? Quem é a figura que o partido de Ventura elegeu para a vice-presidência da Assembleia da República, com o precioso apoio de deputados do PSD, diga-se, com cento e vinte e nove votos a favor? Diogo Pacheco de Amorim. O mesmo Diogo Pacheco de Amorim que esteve no sector político do MDLP. O mesmo movimento coordenado pelo general Spínola. O mesmo movimento que lançou bombas, que assaltou sedes de partidos, que matou. Está claro? O homem que hoje ocupa a vice-presidência do Parlamento português, foi membro de uma organização responsável por centenas de actos terroristas no período pós-revolucionário. O seu camarada de partido foi hoje ao Parlamento acusar os deputados constituintes de cumplicidade com o terror. Já que Ventura invocou a amnistia como argumento, convém lembrar que os membros do MDLP também beneficiaram de perdões, individuais, concedidos ao longo dos anos, caso a caso, a condenados por crimes de sangue. Ramiro Moreira, por exemplo, foi operacional do MDLP, condenado a vinte anos de prisão por crimes de sangue, foi indultado por Cavaco Silva em 1991. A justiça passou por cima de tudo, mas mais do que o mecanismo jurídico, há uma diferença que Ventura não pode ignorar, embora finja que ignora, que é bem diferente. As FP-25 actuaram nos anos oitenta, já em plena democracia consolidada, com todas as suas contradições e injustiças. Eram um produto perverso dentro de um sistema que já existia. O MDLP, pelo contrário, agiu no verão quente de 1975, quando a democracia ainda era um projecto frágil e disputado, quando a Constituição que hoje se comemora ainda estava a ser escrita. O MDLP não agiu dentro da democracia, agiu para a impedir. Para a sufocar no berço. Para que o 25 de Abril não chegasse a ser o que acabou por ser. Esta é a diferença moral e histórica que separa os dois casos, é precisamente esta diferença que Ventura apaga com a sua retórica de pacotilha, colocando no mesmo saco quem errou dentro da democracia e quem quis destruí-la antes de ela existir. A palavra para isto chama-se hipocrisia. Mas é uma hipocrisia tão colossal que quase merece um nome próprio. (…)” Jacinto Furtado, A Constituição fez 50 anos. E Ventura abandalha como de costume – Notícias Online.
- “Não vos queria maçar em plena Páscoa, mas acredito vivamente que a pior mentira é a que contamos a nós próprios. A cena a que assistimos ontem na AR só existe porque existe a Constituição, que reduziu em muito as liberdades do PREC, entre elas a mais importante e democrática de todas – a democracia nos locais de trabalho. É daí que tudo jorra para o conjunto da sociedade, a liberdade e a ditadura, porque é aí que tudo se decide. Foi a Constituição e o Tribunal Constitucional que permitiu e legalizou um partido fascista. Mais, a sua legalização levou a este momento obscurantista em que jornalistas, políticos e comentadores têm medo de lhe chamar fascista porque foi legalizado. A história que se lixe, porque é a forma legal que manda no pensamento. Pensam como fascistas, têm milícias nos seus membros, escrevem como fascistas, aprovam leis racistas e xenófobas, saúdam ditadores, discursam como fascistas elogiando fascistas, não se vestem de cordeiro, gritam como hienas, gesticulam ameaçando, mostram o próprio corpo como armas, mas são apenas da “direita radical”. É pungente ver o estado de negação da opinião balbuciando a interjeição chega, vazia politicamente e dada pelos próprios fascistas a si próprios, como se fosse esse o nome real do Partido Fascista Chega. Um dia os historiadores vão escrever que se contam por menos que os dedos de uma mão as vozes públicas que durante estes anos da idade da pedra trataram o partido chega por fascista, e não, como eles querem, por chega. Cada vez que dizem “partido chega” reforçam-no, parece uma ideia de transformação, cada vez que dizemos partido fascista (que eles mesmo se indignam quando tal se refere) enfraquecemos esta organização, porque mostramos a realidade. É que o Partido não é uma interjeição, uma política alternativa, é uma ameaça à liberdade e à civilização. Os operários da construção civil que cercaram a Constituinte nos dias 12 e 13 de Novembro de 1975 não permitiram a único fascista permanecer nas suas comissões de trabalhadores, nos seus sindicatos, partidos ou empresas ocupadas e auto geridas. Eram expulsos. Assim, trataram os operários da construção civil, muito analfabetos, tantos deles negros, de Cabo Verde e Angola, os fascistas (saúdo outra vez os estudantes da AAC que Coimbra, que fizeram o mesmo). Que chatice, ter que admitir a luta de classes, o que claro nos obrigada a escolher uma delas, decisões democráticas contra fascistas, e duas formas de democracia: a dos trabalhadores participativa, a do Estado liberal, representativa. A tolerância com os intolerantes acaba sempre por dar estes momentos confrangedores que na verdade assinalam a irmandade história desde 1930 entre o liberalismo Constitucional (que ele próprio em crises económicas enterra a Constituição) e o neo-fascismo. Custa compreender a história, porque ela é uma contradição permanente, mas os direitos liberdades e garantias em Portugal nunca foram um oferta constitucional mas uma conquista do mundo do trabalho em greves, lutas e, sobretudo, revoluções. Boa páscoa.” Raquel Varela, O Partido Fascista Chega.
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- Os 0,1% mais ricos da Terra escondem mais de 2,8 biliões de dólares em contas offshore para evitar o pagamento de impostos, concliu um relatório da Oxfam International. Só esse dinheiro representa mais riqueza do que a detida por toda a metade mais pobre da humanidade, ou seja, mais de 4,1 mil milhões de pessoas. Fonte.
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