O CINEMA PORTUGUÊS DURANTE O ESTADO NOVO
O Estado Novo usou a 7ª arte como instrumento de propaganda do regime e de educação ideológica. Através dela, procurou:
- exaltar a Pátria, a figura do “bom português”, o trabalho e a família humilde, honesta e estruturada, no seio da moral cristã;
- valorizar o respeito e admiração pelo “pobre, mas honrado” e pela “mulher recatada”;
- enaltecer o culto da autoridade, do nacionalismo, da moral tradicional e da hierarquia social;
- promover e defender a tradição;
- idealizar o mundo rural e o mar como lugares puros e genuínos, opostos à industrialização e à modernidade urbana;
- incutir o respeito pela autoridade e pela hierarquia; -
- evitar conflitos políticos ou críticas sociais explícitas.
Inteligentemente usou este poderoso meio de comunicação de massas, apoiando-o sempre que serviu o regime e censurando-o quando, pelo contrário, o atacava.
As duas primeiras décadas do Estado Novo, o SPN/SNI favoreceu e apoiou um cinema popular, ligeiro, humorístico, vincando a imagem paternalista do regime. Procurou, ainda, distrair a população dos problemas políticos e sociais, evitando a difusão de ideologias consideradas “perigosas” e o “excesso de modernidade”. Entre os temas focados no cinema português desse período, sobressaem a exaltação nacionalista, com glorificação de heróis e episódios da história portuguesa, a defesa da família, do trabalho e da fé católica. Mais do que um retrato realista da sociedade portuguesa, deu dela um reflexo idealizado, artisticamente valorizado pela qualidade técnica e narrativa dos respectivos realizadores. Entre os filmes produzidos nesses anos, as comédias populares, com humor ligeiro e saboroso, foram grandes veículos dos valores sociais que combinavam bem com a ideologia do regime. Muitas delas mostravam Portugal, como um país humilde, pacífico, tradicional e estável, mostrando bairros populares harmoniosos, comunidades rurais unidas, respeito pela autoridade e pelas hierarquias e conflitos resolvidos sem pôr em causa o regime. Famílias bem estruturadas, realçando os valores tradicionais nos papeis do homem, da mulher e dos filhos, a obediência e bom comportamento.
Os filmes bem ao gosto do regime, uns encomendados, outros apoiados, reforçavam valores caros a Salazar, como a família bem estruturada, romances ligeiros, tendo o casamento como destino final. Promoviam a ideia de um Portugal essencialmente rural e virtuoso. Mostravam folclore, fado e música tradicional, festas populares, touradas, varinas, marchas de Lisboa. A pobreza estrutural era suavizada e a censura garantia que temas incómodos fossem omitidos. Assim, o cinema ajudava a manter uma imagem de normalidade.
O regime não controlava só pela censura, também financiava, premiava e orientava. O SNP e, depois, o SNI apoiavam filmes que mostrassem tradições regionais, harmonia social, patriotismo e ruralidade. O Fundo do Cinema Nacional apoiava preferencialmente os projetos considerados “seguros”, na óptica do regime. Temas sociais ou outros tidos por “inseguros”, na dita óptica, tinham mais obstáculos. Isto condicionava, à partida, os argumentos que se escreviam.
Comédias urbanas, como O “Pátio das Cantigas”, “O Costa do Castelo” ou “A Canção de Lisboa”, transmitiam uma imagem simpática da população, valorizavam a família, tinham um final conciliador e ignoravam quaisquer aproximações à política. Eram as mais aconselhadas para manter o público longe dos problemas sociais e políticos e para divulgar, lá fora, a imagem de Portugal pretendida pelo regime.
Dramas rurais, como “Ribatejo” ou “Nazaré” mostram o ruralismo, tido por central na ideologia do regime. Mesmo com dureza, exaltam trabalho, tradição, comunidade. O realismo em “Nazaré” era aceitável porque não atacava o Estado directamente.
Filmes socialmente críticos, como “Saltimbancos”, “Vidas sem Rumo” ou “Belarmino” que focam marginalidade urbana, quebrando a imagem de harmonia, sofreram cortes, fraca promoção e circulação limitada
Nesses anos, o cinema era sujeito a dois níveis de censura, um antes da filmagem, em que o respectivo guião era submetido a aprovação por parte do SPN/SNI e de uma Comissão de Censura, e outro, após a filmagem, em que a cópia final (o filme) era analisada e aqui, por decisão dos censores, podia sofrer cortes ou, simplesmente, ser proibida. O interessado (autor, produtor) submetia, para escrutínio prévio, argumentos, sinopses ou diálogos, o que, muitas vezes, levava os autores a fazerem autocensura, precaução que desvirtuava a criatividade e explica por que não foram, sequer, abordados, tantos temas. Numa outra situação o importador ou exibidor faziam chegar, os filmes à dita Comissão, a fim de poderem ser visionados e, ou eram aprovados, segundo os princípios morais e políticos do regime, e autorizadas as respectivas exibições, com ou sem cortes censórios, ou reprovados e, portanto, de exibição proibida. Outro tanto acontecia com o cinema estrangeiro, nomeadamente, o soviético, o neorrealismo italiano, e o da Nouvelle[RU1.1] Vague francesa. Mesmo depois do filme aprovado, a publicidade também era controlada. Cartazes e material promocional só podiam ser afixados após aprovação. O incumprimento desta norma podia dar lugar a suspensão ou, mesmo, a proibição de exibição.
Os censores vigiavam, especialmente, críticas ao regime, pobreza estrutural atribuída ao sistema, greves, organização operária, sexualidade fora da moral oficial, ataques à Igreja e desordem social. Pelo contrário, apoiava as obras consideradas ideologicamente favoráveis ao ideário oficial, que promovessem valores como, nacionalismo, ruralismo, família tradicional, respeito pela religião católica, entre outros. Houve cineastas que tentaram e conseguiram contornar a censura, explorando temas sociais de forma metafórica.
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