KRISTIN: A CULPA É DO VENTO?
Jonas van Vossole, O Maio.
(…) A culpa não é do vento.
Os chamados “desastres naturais” nunca são apenas naturais. Aliás, a própria “Natureza” moderna, entendida como algo separado do “homem” ou da “civilização”, é uma invenção histórica do capitalismo. Essa separação serve um propósito muito concreto: designar como externo aquilo que estaria fora do controlo e da responsabilidade humana e, ao mesmo tempo, legitimar o seu tratamento como recurso gratuito, passível de colonização e exploração em nome do lucro. Esta imagem falsa — que apresenta a crise como algo inevitável ou exterior — limita a nossa capacidade de ação e naturaliza a inação perante catástrofes que se apresentam como fatalidades.
É por isso fundamental perceber que os desastres chamados “naturais” são sempre, acima de tudo, desastres sociais e políticos. Isso torna-se evidente tanto nas suas consequências como nas suas causas. Eventos catastróficos deste tipo afetam as populações de forma profundamente desigual: penalizam sobretudo quem vive em territórios mais expostos, com infraestruturas precárias, serviços públicos fragilizados e menor capacidade de resposta. Um episódio climático extremo não tem o mesmo impacto sobre quem vive em habitações sólidas e seguras e sobre trabalhadores empurrados para habitações pré-fabricadas, ou obrigados a deslocar-se e a trabalhar durante a noite em condições meteorológicas adversas.
Mas também as próprias causas destes desastres estão longe de ser neutras. As alterações climáticas, amplamente documentadas pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), tornam estes fenómenos cada vez mais frequentes e intensos, refletindo interesses económicos e políticos que colocam o lucro acima da vida. Não se trata de acaso, mas de um modelo económico predatório assente na extração contínua de recursos, na expansão da petroquímica, da agroindústria intensiva e dos transportes fósseis. A isto soma-se a urbanização desordenada, a desflorestação e o abandono do território. A responsabilidade recai sobre um sistema capitalista que coloca o lucro acima da vida — e sobre os decisores políticos que, durante décadas, governaram em função desses interesses.
A fragilidade ficou particularmente clara no setor energético. A destruição da rede elétrica evidenciou a ausência de uma política séria de investimento no reforço, fiscalização e adaptação das infraestruturas às novas condições climáticas. Em vez disso, empresas como a EDP e a REN priorizam a distribuição de dividendos aos acionistas — entre eles a China Three Gorges, a State Grid of China e grandes fundos financeiros internacionais. Coloca-se aqui uma questão simples: quando a população não paga a fatura da eletricidade, o fornecimento é cortado de imediato. Mas quando a empresa falha durante dias, deixando milhares sem luz e sem respostas, onde está a responsabilidade? A segurança das populações, a soberania energética e a resiliência das infraestruturas não podem ser sacrificadas em nome da maximização do lucro. Foi isto que nos trouxeram as privatizações: responder aos acionistas em vez de responder às necessidades coletivas.
O mesmo se aplica às comunicações, que colapsaram quase por completo. A fragmentação entre operadoras, a falta de redundância e a ausência de coordenação pública revelam um setor privado incapaz de garantir um serviço essencial em momentos críticos. (…)
A culpa não é do vento.
É de um sistema que transforma fenómenos naturais em tragédias sociais.
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