OS BRICS E A COVARDIA DA MENTE COLONIZADA
BettBeat Media, Substack. Trad. O’Lima.
Independentemente das novas instituições que substituam as antigas, os efeitos psicológicos da opressão continuam a persistir, talvez durante séculos. Mesmo após a declaração da «independência», o colonialismo continua a residir nas mentes dos povos nativos [ ... ] Ainda mais terrível do que a colonização de um país é a colonização da mente. - Schoolman (1979)
O sequestro de Nicolás Maduro deveria ter sido o momento. Mas estamos a mentir para nós mesmos se dissermos isso. O momento chegou muito antes. O momento chegou quando as primeiras bombas caíram sobre Gaza. O momento chegou quando os hospitais foram atingidos, quando os campos de refugiados foram destruídos, quando as crianças — milhares e milhares de crianças — foram retiradas dos escombros ou deixadas a apodrecer debaixo deles. O momento chegou quando Israel, armado, financiado e diplomaticamente protegido pelos EUA, começou o extermínio sistemático de um povo, enquanto o mundo emitia declarações de preocupação. Essa foi a faísca. Foi então que o BRICS deveria ter se levantado. E o BRICS não fez nada.
O BRICS ESTÁ A FALHAR
A Dra. Victoria Panova, presidente do Conselho de Especialistas do BRICS da Rússia, sentou-se num estúdio reluzente no Dubai e admitiu o que já sabíamos, mas não ousávamos dizer em voz alta: o BRICS está a falhar. Não por falta de poder económico. Não por falta de números. Está a falhar porque os seus líderes não têm coragem para serem livres.
«É um silêncio total na arena internacional», confessou Panova, com as suas palavras pairando no ar como uma acusação. «É isso que mais me incomoda.»
Isso deveria incomodar-nos a todos. Deveria manter-nos acordados à noite. Um presidente em exercício de uma nação soberana foi arrancado do seu país pelos EUA— os mesmos EUA que derrubaram governos da Guatemala ao Irão, do Chile à Líbia — e a poderosa aliança BRICS, representando quase metade da humanidade, emitiu o quê? Uma declaração da sociedade civil. Um sussurro no deserto.
Dezenas de líderes, triliões em PIB, metade da população mundial — e eles assistiram Gaza arder e Maduro ser sequestrado sem levantar um dedo. Para que serve isso?
MEMÓRIA MUSCULAR DO COLONIALISMO
Isto não é força. Isto não é multipolaridade. Isto é a memória muscular do colonialismo, o tremor herdado de povos que foram ensinados por gerações que a lei do homem branco é a única lei, que a moeda do homem branco é a única moeda, que a violência do homem branco é legítima, enquanto a sua própria soberania é negociável.
O Brasil — sim, o Brasil! — vetou a adesão da Venezuela ao BRICS. Lula, o ícone da esquerda, o homem que foi preso por um sistema judicial repleto de marcas da CIA, virou as costas a Maduro. E quando os americanos vieram atrás de Maduro, o Brasil não disse nada. Será que Lula acreditava que a sua obediência lhe garantiria segurança? Pergunte a Mosaddegh, que pensava que o constitucionalismo o protegeria. Pergunte a Gaddafi, que entregou as suas armas e abriu os seus campos petrolíferos ao Ocidente. Pergunte a Allende, que acreditava na democracia até que as bombas caíram sobre La Moneda. O império não poupa aqueles que se ajoelham. Apenas os mata por último.
A mente colonizada acredita sempre nisso. Acredita que, se se portar bem, se seguir as regras escritas pelos seus opressores, será recompensada com um lugar à mesa. Nunca é. A mesa não é para eles. Nunca foi.
Panova revelou a verdade fundamental que assombra os BRICS como um fantasma numa festa: «Trump consegue lidar facilmente com cada país individualmente, incluindo a China. Talvez não facilmente, mas ainda assim. O potencial comum dos BRICS é o único que permite que sejam tomadas algumas medidas conjuntas.»
Ela tem razão. Trump — vulgar, errático, gangster — entende o poder na sua forma mais crua. Ele sabe que uma matilha de lobos pode derrubar uma presa que destruiria qualquer lobo sozinho. Então, ele isola. Ele ameaça.
E o BRICS? O BRICS realiza cimeiras. O BRICS emite comunicados. O BRICS cria grupos de trabalho, conselhos de especialistas e estruturas para consideração futura. O BRICS agenda reuniões de emissários e diálogos ministeriais. O BRICS testa o seu acordo de reserva de contingência sete vezes sem nunca o usar. O BRICS assume que pode envolver-se em políticas que se encaixariam num mundo próspero de cooperação ganha-ganha, enquanto o Império viola crianças, comete genocídio e sequestra presidentes.
O Novo Banco de Desenvolvimento deveria ser a resposta. Uma instituição financeira livre das condições sangrentas do FMI, livre dos programas de ajustamento estrutural que destruíram os serviços públicos da Argentina à Zâmbia, livre dos acordos diabólicos do Banco Mundial que deixam as nações endividadas por gerações. E o que é que o NDB fez com esse mandato? Processou «sete testes». Testes bem-sucedidos, garante Panova. Testes que nunca se tornaram prática.
A Argentina deveria ter sido o caso de teste. Quando o FMI cercou como abutres aquela nação ferida, quando as tropas de choque neoliberais se preparavam para impor a sua familiar austeridade — cortes nas pensões, privatização de bens públicos, todo o miserável manual —, os BRICS deveriam ter oferecido uma alternativa. O Acordo de Reserva de Contingência existe precisamente para esse fim. Foi concebido para resgatar as nações do abraço predatório do FMI.
Em vez disso, a Argentina foi deixada à mercê dos lobos. Milei chegou ao poder. O país ajoelha-se agora diante das mesmas instituições que o têm destruído há décadas. E o BRICS assistiu a tudo isso acontecer. Como assiste a tudo acontecer. Como um alvo fácil.
Isso não é cautela. Isso não é diplomacia. Isso é rendição disfarçada na linguagem do processo institucional.
GAZA, IRÃO, VENEZUELA... ONDE ESTÁ O BRICS?
Os EUA enviaram grupos de ataque de porta-aviões para o Golfo, ameaçando o Irão, um membro do BRICS. Permitiram e armaram um genocídio em Gaza que matou dezenas de milhares de pessoas. Sequestraram o presidente da Venezuela. Impuseram mais de vinte mil sanções à Rússia. Travaram uma guerra económica contra a China.
E quando as nações do BRICS se reúnem em cimeiras, falam sobre inteligência artificial.
«Este fórum foi mais dedicado à IA», observou Panova sobre a Cimeira Mundial do Governo, «aos desafios tecnológicos atuais que as pessoas estão a enfrentar». Desafios tecnológicos. Enquanto as bombas caem. Enquanto as crianças passam fome. Enquanto a classe Epstein toma conta de todas as infraestruturas necessárias para a sobrevivência humana. Enquanto o direito internacional é feito em pedaços e espalhado como confete. A casa está a arder e os arquitetos da nova ordem mundial estão a discutir a instalação elétrica.
COBARDIA
A patologia é profunda. Não se trata simplesmente de uma falha de vontade política, mas sim de uma falha de imaginação. Após cinco séculos de dominação europeia, após os navios negreiros, as plantações e a extração de todos os recursos que valia a pena extrair, após as fronteiras arbitrárias traçadas em Berlim e os golpes orquestrados a partir de Langley, o mundo colonizado ainda não consegue acreditar que tem o direito de dizer não.
A Índia propõe uma moeda digital BRICS. Depois recua. O Brasil defende a cooperação Sul-Sul. Depois veta a Venezuela. Os Emirados Árabes Unidos acolhem as negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia. Depois apoiam Israel. Todos querem os benefícios da multipolaridade. Ninguém quer pagar o preço.
O preço é simples: desafio. Desafio real. Não desafio retórico em cimeiras, não artigos académicos sobre desdolarização, não estruturas para consideração futura. Desafio significa cortar todo o comércio com um Estado que comete genocídio e inflige a outro povo os mesmos horrores que as nações BRICS sofreram, e sancioná-lo até ao esquecimento. Desafio significa dizer aos EUA: libertem Maduro ou enfrentem uma retaliação económica unificada de nações que representam três mil milhões de pessoas. Desafio significa ativar o Acordo de Reserva de Contingência no momento em que o FMI agir contra uma nação vulnerável. Desafio significa construir o sistema de pagamento alternativo não em cinco anos, não após mais «testes», mas agora, enquanto o império está distraído com as suas próprias contradições internas.
O CONSELHO DOS ESCRAVOS
Trump, apesar de todo o seu grotesco, esclareceu algo importante. Ele desmascarou a pretensão de que a hegemonia americana opera através de regras e instituições. Não é verdade. Ela opera por meio da força e da ameaça da força. A «ordem internacional baseada em regras» sempre foi uma ficção, uma história contada para fazer com que a dominação parecesse legítima. Trump não se preocupa com essas histórias. Ele diz o que o império sempre quis dizer: obedeçes ou és destruído.
Essa clareza é um presente, se o BRICS tiver a sabedoria para recebê-lo. Não há acomodação possível com um império que sequestra presidentes e chama justiça a isso. Não há negociação com um sistema que congela ativos soberanos e chama sanções a isso. Não há discussão com uma classe de pessoas que viola e tortura crianças enquanto os seus serviços secretos se divertem a ver os materiais. Não há parceria com uma nação que permite o genocídio e chama autodefesa a isso
Só há resistência ou submissão.
Panova considerou Trump «o melhor agente dos BRICS», brincando que a pressão dele consolida a aliança. Talvez. Talvez as indignidades se acumulem até que mesmo o Estado-membro mais cauteloso reconheça que a segurança reside apenas na solidariedade e na força. Talvez o próximo sequestro, a próxima ronda de sanções, a próxima ameaça de invasão finalmente quebrem o feitiço.
Mas não estou otimista. A mente colonizada é resiliente na sua submissão. Encontra razões infinitas para a paciência, para o diálogo, para a ambiguidade estratégica. Diz a si mesma que o tempo está do seu lado, que a demografia favorece o Sul Global, que o império está em declínio de qualquer maneira, então por que provocá-lo? Este é o conselho dos escravos que se habituaram às suas correntes.
OS BRICS VÃO LUTAR?
O mundo observa. Os milhares de milhões que foram sufocados sob o jugo do imperialismo ocidental durante gerações estão a observar. Eles veem as cimeiras, os comunicados e os conselhos de especialistas. Eles veem os seus líderes apertando as mãos e posando para fotografias. E interrogam-se: quando vão lutar por nós? Quando vão construir o mundo que prometeram? Quando vão parar de pedir licença àqueles que gostariam de nos ver todos acorrentados?
O BRICS tem o poder económico. Tem a população. Tem os recursos naturais. Tem tudo o que precisa, exceto a vontade de ser livre.
E até encontrar essa vontade — até decidir que a soberania não é negociável, que a solidariedade não é opcional, que as vidas do Sul Global são mais importantes do que a aprovação de Washington — continuará a ser o que sempre foi: uma promessa não cumprida, uma revolução adiada, uma coligação de nações que aprendeu a ajoelhar-se e esqueceu como se levantar.
Um autor russo observou recentemente: «A elite soviética acreditou realmente na propaganda americana sobre a União Soviética. E essa mesma elite demonizou a União Soviética até à sua extinção.»
O BRICS carrega a mesma doença. A inferioridade interiorizada. A crença de que a aprovação ocidental confere legitimidade. A suspeita de que talvez o império esteja certo acerca eles, afinal. Até que eliminem isso das suas mentes, eles compartilharão o destino soviético — não conquistados de fora, mas dissolvidos de dentro.
O império não é invencível. Está sobrecarregado, endividado e a apodrecer por dentro. Mas não cairá por si só. Tem de ser empurrado. E o BRICS, apesar de todo o seu potencial, ainda não aprendeu a empurrar.
O tempo está a esgotar-se. Os gangsters estão à porta. E ainda assim, o BRICS delibera.
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