ESPINHO: A TEMPESTADE DE SÁBADO, 15 FEVEREIRO 1941
Defesa de Espinho, 23 de fevereiro de 1941
Aqui na Vila, o temporal desgraçado do penúltimo sábado teve, perante a população, o que
de resto devia ter acontecido em todo o País, o seu todo de inédito, de patético, de infernal, que causava arrepios e intimidava os mais fortes corações.
Em Espinho, a doida e caprichosa ventania começou a fustigar-nos cerca das 18 e 30. Parecia que levava tudo ...
Ao principio dessa noite extremamente tempestuosa, aqui à beira do nosso jornal, por exemplo, não se podia parar com a ‘chuva’, uma autêntica chuva de areia que parecia levar-nos a cara, de conjunto com a ventania avassaladora que parecia levar-nos a todos ...
O mar encapelara-se, rugia a bom rugir, como que centenares de leões que de momento tivessem surgido à beira-mar e ao sabor da duríssima invernia rugissem furiosamente em conjunto.
Assim estivemos duas, três, quatro horas seguidas debaixo desta tempestade de que não há memória, a que nunca julgavamos assistir.
Felizmente que não houve quaisquer vitimas, apenas se registando um pequeníssimo número de pessoas feridas sem gravidade, que receberam curativo na farmácia de serviço dessa noite.
Prejuízos materiais alguns se registaram, como, na Fostoreira Portuguesa, o desabamento do tecto do respectivo escritório, o desmoronamento do muro que vedava o campo do ‘Sporting’, lado da Avenida 8, bastantes globos da iluminação pública partidos e postes da rêde electrica da mesma derrubada, o que, para os Serviços Municipalizados, trouxe o prejuízo de alguns pares de contos; um enorme pedaço do telhado da igreja matriz que ‘voou’, dois moinhos de vento que se foram abaixo, o ‘esqueleto’ dos B. V. Espinhenses que deixou de o ser, arrastando na queda o motor do jardim do Teatro, a chaminé da Padaria Central destruída; no bairro da ‘Mata’ desabou um barracão onde viviam alguns pescadores, um grande número de telhados, beirais, etc., que se foram ‘à vela’, vedações de madeira e tijolo derrubadas, e ... mais nada. Graças!
Os comboios não chegavam, bastantes pessoas residentes em Espinho não apareciam, as quais surgiam, depois, a pé, umas do Porto e outras de Gala, Granja, etc.
Fomos muito poupados. Ao sabermos o que se passou noutras localidades, constatamos que aqui, isto, foi ‘mel’...
Sábado, 15. Pouco faltava para a meia-noite. A pouco e pouco chegou, ainda bem, a tão almejada bonança. Mas não faltaram sustos ... parecia ir tudo pelos ares ...
Pelo concelho
As freguesias rurais do nosso concelho, devido à arborização, foram mais atingidas, em todas elas havendo grande número de árvores, principalmente pinheiros derrubados que causaram avultados prejuizos.
A rêde da iluminação electrica também sofreu importantes avarias que atingem algumas dezenas de contos.
Dentre as freguesias, a mais castigada foi a de Paramos, onde cairam sobre o belo edificio da escola oficial alguns pinheiros que muito a danificaram.
No Aeródromo temos a registar alguns estragos causados pelo temporal. Ali, grande parte dos ‘hangars.’ foi abaixo – telhado, armações, traves, - tudo isto ‘varrido’, encontrando-se, à data da nossa visita ao Campo (5ª feira, 20), quatro avionetas cá fora, ‘ao relento’, três delas com asas partidas e o resto ... tudo como dantes, estando a proceder-se, com afã, à restauração da parte abati- da. Foi uma calamidade.
Na estrada Espinho-Pôrto, principalmente no Pinhal da Bela, pinheiros cairam sôbre a estrada, tornando o trânsito impossivel não só a quaisquer veiculos como até a peões.
Muitos automóveis tiveram de ser abandonados pelos seus proprietários, em virtude de não poderem seguir para a frente nem para trás.
Quando regressava a Espinbo no seu automovel, o conhecido capitalista, sr. António Miguel
Taveira, na altura de Gulpilhares caiu-lhe um pinheiro na frente e, momentos depois; outro sôbre a trazeira do carro, amolgando-o grandemente e apavorando o condutor e o proprietário que fugi- ram espavoridos, escapando, por pouco, de uma morte certa.

Sem comentários:
Enviar um comentário