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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

LEITURAS MARGINAIS

COMO A EUROPA PODE LEVAR OS ESTADOS UNIDOS À FALÊNCIA
Vikas, Medium. Trad. O’Lima.


Durante décadas, a Europa e os EUA viveram como parceiros, satisfazendo as necessidades mútuas. Os EUA protegiam a Europa. A Europa confiava nos EUA. O dinheiro fluía silenciosamente das capitais europeias para os mercados norte-americanos, e ninguém questionava esse acordo. A relação parecia forte, permanente, quase inquebrável. Essa ilusão está agora a desmoronar-se. Sob Donald Trump, a Europa já não é tratada como um parceiro. É tratada como um dependente.

As tarifas são usadas como ameaças. Os compromissos da NATO são questionados. Os aliados são ridicularizados. E agora, com a pressão sobre a Gronelândia, Washington ultrapassou uma linha psicológica.

Pela primeira vez em décadas, a Europa está a fazer abertamente uma pergunta perigosa: E se deixarmos de ser bonzinhos? A portas fechadas em Bruxelas, Paris e Berlim, uma constatação está a espalhar-se.

A Europa pode ser fraca em termos militares, mas financeiramente, o equilíbrio de poder parece muito diferente. De facto, a Europa possui uma das armas mais poderosas que se pode imaginar contra os EUA — e ela não dispara uma única bala. Essa arma é o dinheiro.

Não se trata de euros ou dólares em circulação, mas sim de propriedade. Propriedade da dívida americana. Propriedade das ações americanas. Propriedade do sistema financeiro que mantém o governo dos EUA vivo.

Este artigo explica, em termos simples, como a Europa poderia prejudicar financeiramente os EUA, por que essa opção aterroriza Washington e por que a Europa ainda não a utilizou — mas pode vir a fazê-lo um dia.

A verdade que ninguém gosta de dizer em voz alta

Os EUA parecem fortes. O seu exército é inigualável. O dólar domina o comércio global. Os seus mercados bolsistas atraem capital de todos os cantos do mundo. Mas por baixo desse poder esconde-se um facto simples e incómodo: os EUA sobrevivem graças a empréstimos. O governo dos EUA gasta muito mais do que ganha. Todos os anos, tem déficits enormes. Para cobrir esses déficits, vende obrigações — títulos de dívida — a investidores de todo o mundo.

Esses títulos são chamados de Títulos do Tesouro dos EUA. Eles representam promessas de que os EUA pagarão juros e, eventualmente, devolverão o dinheiro.

E aqui está o ponto principal: A Europa é um dos maiores compradores dessas promessas. Os governos europeus, fundos de pensão, seguradoras, bancos e investidores privados detêm, coletivamente, mais de US$ 12 trilhões em ativos financeiros dos EUA. Isso inclui ações, dívida corporativa e cerca de US$ 2,8 trilhões em títulos do governo dos EUA. Isso significa que a Europa detém aproximadamente 10% de toda a dívida do Tesouro dos EUA. Isso não é simbólico. É estrutural. O governo dos EUA depende desse dinheiro para funcionar normalmente.

Por que a dívida dos EUA é um ponto fraco

Durante muitos anos, a dívida dos EUA era barata. As taxas de juro eram baixas. Era fácil obter empréstimos. Ninguém se preocupava muito com a sustentabilidade.

Esse mundo acabou. Hoje, a dívida pública dos EUA é de cerca de 120% do PIB. O governo tem déficits de aproximadamente 6% do PIB todos os anos, mesmo quando não há crise. As taxas de juro estão mais altas do que estavam na maior parte da última década. Isso significa uma coisa: os EUA são extremamente sensíveis a choques nas taxas de juro. Mesmo um pequeno aumento nas taxas de juros custa ao governo dos EUA dezenas de milhares de milhões de dólares todos os anos. Um aumento significativo pode rapidamente transformar-se num pesadelo fiscal. E as taxas de juros não são controladas pelos políticos. São controladas pelos mercados. É aí que a Europa entra em cena.

A principal opção: vender a dívida dos EUA

Sejamos muito claros. A Europa não precisa invadir. Não precisa de sanções. Não precisa ameaçar com guerra. Tudo o que precisa fazer é vender. Se a Europa decidisse desfazer-se de uma grande parte dos seus títulos do Tesouro dos EUA, o efeito seria imediato. Os preços dos títulos cairiam. Quando os preços dos títulos caem, as taxas de juro sobem. Isso é finanças básicas.

Taxas de juro mais altas significariam: a nova dívida dos EUA torna-se mais cara, a dívida existente torna-se mais difícil de pagar, os déficits aumentam ainda mais, a confiança nas finanças dos EUA enfraquece.

A certa altura, os investidores começam a fazer uma pergunta perigosa: os EUA ainda são seguros? Quando essa pergunta surge, o pânico espalha-se rapidamente.

É por isso que até mesmo a ideia de uma liquidação europeia já abalou Washington. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, rejeitou publicamente a ideia e disse à Europa para «respirar fundo». Os governos não fazem declarações tranquilizadoras a menos que se sintam expostos.

E é por isso que o aumento das taxas de juros prejudica os EUA sem qualquer venda.

Um equívoco comum nesse debate é como a dívida do governo dos EUA realmente funciona.

Quando os EUA emitem um título do governo, a taxa de juros desse título é fixada para todo o seu prazo de vigência. Se um título é emitido a 2% por dez anos, os EUA continuam a pagar 2% até que esse título vença. O aumento das taxas de juros não altera repentinamente esse acordo. Portanto, o perigo não surge instantaneamente. O perigo surge mais tarde.

O governo dos EUA não paga dívidas antigas com dinheiro economizado. Ele paga dívidas antigas emitindo novas dívidas. Chama-se a esse processo ‘rolagem da dívida’, que ocorre constantemente porque os EUA têm déficits orçamentários permanentes.

Todos os anos, enormes quantidades de títulos dos EUA vencem. Quando isso acontece, Washington tem de voltar ao mercado e pedir novos empréstimos. Se as taxas de juro estiverem mais altas nesse momento, o custo dos empréstimos aumenta automaticamente. É aqui que a influência da Europa se torna muito mais subtil do que uma venda dramática.

A Europa não precisa de se desfazer dos títulos dos EUA para causar danos. Basta apenas abrandar a procura futura. Se menos investidores aparecerem nos leilões de títulos, os rendimentos aumentam. Se os rendimentos aumentarem, os empréstimos futuros tornam-se mais caros. E esse custo mais elevado mantém-se durante anos. Com o tempo, os EUA acabam por substituir a dívida barata por dívida cara. O fardo cresce silenciosamente, de forma constante e implacável.

A inflação agrava ainda mais esta situação. Se a inflação permanecer elevada enquanto as taxas de juro são mantidas baixas por razões políticas, o valor real dos rendimentos das obrigações diminui. Os investidores podem continuar a receber pagamentos de juros, mas esse dinheiro compra menos a cada ano que passa. Os investidores estrangeiros preocupam-se muito com esta questão. Não se limitam a olhar para a taxa de juro. Analisam o valor desses juros após a inflação e as variações cambiais. É assim que a pressão aumenta sem manchetes. Sem colapsos repentinos. Sem anúncios dramáticos. Apenas um aperto lento que se torna impossível de escapar.

Por que o dólar e a Reserva Federal são tão importantes

Outra fraqueza crítica do sistema financeiro dos EUA é a confiança — especialmente a confiança nas suas instituições. Durante décadas, os investidores acreditaram que o Federal Reserve dos EUA era independente. As taxas de juro eram definidas com base na realidade económica, não na política. Essa crença era a base da confiança global nos títulos dos EUA.

Quando essa crença enfraquece, tudo o resto se segue. Os ataques à independência da Reserva Federal são, portanto, extremamente prejudiciais. Se os mercados começarem a pensar que as taxas de juro estão a ser ajustadas para se adequarem às eleições, em vez de à inflação, os investidores reavaliam o risco.

O dólar americano desempenha um papel central neste cálculo. Os títulos dos EUA são cotados em dólares, mas os investidores estrangeiros medem os retornos nas suas próprias moedas. Se o dólar enfraquece, o valor dos títulos dos EUA cai para eles, mesmo que os pagamentos de juros continuem normalmente.

Imaginem agora um cenário em que várias coisas acontecem ao mesmo tempo. O dólar enfraquece devido à instabilidade política ou às guerras comerciais. A inflação aumenta porque as tarifas aumentam os custos. Ao mesmo tempo, é exercida pressão política para manter as taxas de juro baixas, a fim de apoiar o crescimento ou ganhar eleições. Nessa situação, os títulos dos EUA tornam-se muito

íssimo pouco atraentes para os investidores estrangeiros. Eles são pagos numa moeda em desvalorização. A inflação corrói os retornos. E as taxas de juro não compensam o risco.

No fundo, isso não requer um ataque coordenado. Não exige que a Europa «puna» os EUA. Requer apenas que os investidores ajam racionalmente. É por isso que a maior ameaça ao mercado de títulos dos EUA não é a traição, mas a perda de apelo. Quando os investidores deixam de ver os títulos do Tesouro dos EUA como o lugar mais seguro para aplicar o seu dinheiro, a procura diminui naturalmente. Os leilões tornam-se mais difíceis. Os custos dos empréstimos aumentam ainda mais. A confiança é abalada. E, uma vez perdida a confiança, é extremamente difícil reconstruí-la. Este é o perigo silencioso que Washington enfrenta. Não um colapso repentino, mas uma lenta erosão da confiança impulsionada por escolhas políticas.

Por que a Europa ainda não o fez?

Se a Europa tem esse poder, por que não o utilizou? Porque essa arma é extremamente perigosa — mesmo para quem a empunha. Em primeiro lugar, a maioria dos ativos norte-americanos detidos por europeus não é controlada pelos governos. Pertencem a fundos de pensões privados, bancos e investidores. Obrigá-los a vender exigiria uma intervenção governamental extrema e poderia provocar o caos na própria Europa. Em segundo lugar, uma venda massiva prejudicaria financeiramente a Europa. Vender obrigações rapidamente significa vendê-las a baixo preço. Isso afetaria diretamente as pensões, as poupanças e a estabilidade financeira europeias. Em terceiro lugar, e mais importante, os sistemas financeiros dos EUA e da Europa estão profundamente interligados.

A crise financeira de 2008 provou isso. Embora a crise tenha começado nos EUA, os bancos europeus foram ainda mais afetados porque dependiam do financiamento em dólares. Na verdade, a Reserva Federal forneceu discretamente um enorme apoio de liquidez aos bancos europeus para impedir o colapso do sistema. Um colapso do mercado do Tesouro dos EUA não se limitaria às fronteiras americanas. Afetaria a Europa, a Ásia e os mercados emergentes de uma só vez. É por isso que os economistas comparam uma venda massiva a um ataque nuclear. Todos perdem.

A maneira mais inteligente: pressão lenta, não explosão

A Europa não precisa de destruir o sistema para prejudicar os EUA. A pressão silenciosa funciona melhor. Uma opção é a venda lenta. Instituições públicas europeias, como fundos de pensões e fundos soberanos, podem reduzir gradualmente a sua exposição à dívida dos EUA. Mesmo pequenas mudanças, ao longo do tempo, podem elevar os custos dos empréstimos dos EUA. Outra opção reside na regulamentação. Se o Banco Central Europeu decidir que os títulos do Tesouro dos EUA já não são «livres de risco», os bancos serão obrigados a deter menos títulos. Isso reduziria a procura sem qualquer anúncio dramático.

Depois, há a alavanca mais poderosa de todas: as ações. Os europeus adoram ações americanas. O S&P 500 beneficiou enormemente do dinheiro europeu. Se a Europa incentivar os investidores a transferir o dinheiro de volta para casa — através de incentivos fiscais ou medidas políticas — Wall Street sentirá imediatamente o impacto. Numa altura em que os mercados bolsistas dos EUA já parecem caros e frágeis, mesmo uma retirada parcial da Europa poderia desencadear uma correção acentuada. E, ao contrário dos títulos, as dificuldades do mercado de ações prejudicam politicamente. Os americanos ricos votam. Os reformados reclamam. A confiança desmorona rapidamente.

Por que a estratégia de Trump é arriscada

Trump acredita que a Europa não tem escolha. Militarmente, ele está parcialmente certo. A Europa ainda depende das armas, das informações e da proteção nuclear dos EUA. Mas o poder financeiro funciona de maneira diferente.

O capital não gosta de caos. Não gosta de imprevisibilidade. Quando a confiança desaparece, o dinheiro sai silenciosamente no início — e depois de repente. As ameaças tarifárias de Trump, os seus ataques aos aliados e o seu tratamento da Europa como subordinada estão lentamente a minar a confiança que mantém os mercados americanos fortes. A Europa não precisa de anunciar retaliações. Os mercados irão percebê-las antes de qualquer conferência de imprensa.

O verdadeiro problema da Europa: não confia em si mesma

A principal razão pela qual a Europa não utilizou a sua arma definitiva não é o medo dos EUA. É o medo da divisão interna. A Europa está fragmentada. Os interesses nacionais entram em conflito. A dependência energética, a fraqueza militar e a instabilidade política limitam ações ousadas. Nenhum líder europeu quer ser culpado por desencadear uma crise financeira global.

Mas algo importante mudou. O tabu desapareceu. O que antes era impensável agora é discutido abertamente nos círculos políticos e nos media financeiros. Mesmo pequenas ações — como os fundos de pensão dinamarqueses reduzirem a exposição ao dólar — enviam sinais. E os sinais são importantes nas finanças.

A arma que funciona sem ser disparada

A Europa não precisa levar os EUA à falência. O verdadeiro poder reside neste simples facto: Washington sabe agora que a Europa poderia desestabilizá-la financeiramente se fosse pressionada em demasia. Esse conhecimento, por si só, altera o comportamento. Introduz cautela. Limita a arrogância. Esta é a arma definitiva da Europa — não tanques ou mísseis, mas propriedade e paciência.

Se os EUA continuarem a tratar a Europa como dispensável, essa arma não desaparecerá. Ela ficará ainda mais afiada. E, na política global, o momento mais perigoso não é quando o poder é usado, mas quando o outro lado percebe que ele não é mais intocável.

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